Por Wallison Rodrigues Em Música

“Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”

Artigo Musica Ide em paz
Foto: Thiago Leon


Há algum tempo atrás me inquietava em perguntar sobre o “canto final” na missa. Interessante, no Brasil, sempre se canta um louvor final, solenidade ou não, com ou sem procissão. Mas, sempre ouvimos que às missas ordinárias, não há nada a acrescentar após o ‘Ide em paz e o Senhor vos acompanhe! Graças a Deus’. Às vezes, também me pergunto: “Porque reter o povo com mais um canto?”[1].

 

...a riqueza da despedida consiste em que todos retornem às suas atividades louvando e bendizendo o Senhor em suas boas obras.

Conforme a Instrução Geral do Missal Romano[2], a riqueza da despedida consiste em que todos retornem às suas atividades louvando e bendizendo o Senhor em suas boas obras. Ritualmente, a missa termina no “Ide”, mas ela continua realizando-se neste envio. Não é um mero louvor final, mas é um recordar que o Senhor também se faz presente no mundo, como está sacramentalmente na assembleia eucarística e na comunhão.

Graciosamente temos a oportunidade de estender o “Graças a Deus” até as nossas casas. Mas, parece-me que ainda não aprendemos a apreciar esta arte. Surgem duas questões que ainda carecem ser mais refletidas para além de um rubricismo: 1) Por que reter o povo com mais um canto? 2) Por que não cantar um louvor final?[3] A questão é que a dimensão missionária da Igreja também está vinculada à liturgia. Pois, como diz o Papa Francisco: “a Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia”[4]. Isso, sim, nos chama bastante atenção!

O que me deixa sem entender é que tentamos unir ‘Missão e Liturgia’ somente no mês de outubro, com as mais variadas Campanhas Missionárias. E, esquecemos que a Liturgia em si, independente do tempo, é fonte de Missão. D. Manoel, bispo de Chapecó, dizia que aí reside o desafio, pois para ser fonte de missão, primeiro deve ser lugar da experiência de Deus. E o povo canta: “Vai, vai missionário do Senhor... vai trabalhar...”. Realmente, devemos ser essa “Igreja em saída”[5] de que tanto falamos e cantamos. Mas, o nosso “Ide”, não pode ser com os corações vazios: devem estar cheios de Deus!

Ano após ano as campanhas missionárias se repetem, no entanto, às vezes, não geram conversão. Ter uma igreja cheia de missionários é poder perceber homens e mulheres que fizeram uma experiência profunda e transformadora de Cristo – o divino Mistério celebrado na vida. Haja vista, é nesta celebração litúrgica, conforme Medellín[6], que é possível um compromisso autêntico com a realidade humana – eis aqui dimensão missionária!

Quando o Senhor nos chama a participar do Divino Banquete da Palavra e da Eucaristia, não nos pede para levar nada, a não ser um coração aberto e disponível. Entramos às vezes até de mãos e corações vazios. Mas, é como uma Mãe que recebe a visita do filho e que jamais os permite sair de sua casa de “mãos abanando”. Carregamos o sabor de Cristo Eucarístico e a vivacidade de sua Palavra. Isto é, mais do que um piedosíssimo ou devoção de fiéis, a liturgia é a renovação da Eterna Aliança de todos os batizados.

Esta saudação final da missa, “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!”, expressa tudo isso e, ainda mais, ressalta aos fiéis que não estão sozinhos: “o Senhor vos acompanhe”. O Senhor acompanha cada cristão em seu trabalho missionário. É um anunciar Cristo com o próprio Cristo. A assembleia é desfeita, mas é prolongada a ação de graças vivida na missa[7]. A vida toda se faz uma ação de graças a Deus e ao próximo.

A liturgia nos convida a viver a missão de batizados: a ação de graças; sendo profetas, sacerdotes e reis. Profetas que revelam o rosto de Deus com a vida. Sacerdotes que oferecem as dádivas, orações e labor ao divino Criador. Reis que constroem, administram e vivem a liberdade em Cristo. Isto é, em Deus fazemos experiência do sentido da verdadeira liturgia.

 

Precisaria de letra melhor do que a própria expressão “graças a Deus”? 

Quando nossos cantos finais estão eivados de toda essa sensibilidade litúrgica, são úteis a qualquer assembleia. Não precisamos de muita letra, nem de melodias estrambólicas. Pergunto: Precisaria de letra melhor do que a própria expressão “graças a Deus”? Haveria uma melodia melhor do que a que exala do coração dos fiéis após terem participado do Banquete Divino?

Ide em paz e o Senhor vos acompanhe! Graças a Deus

Abração de
Wallison Rodrigues

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[1] Cf. GELINEAU, Joseph. Os cantos da missa no seu enraizamento ritual. São Paulo: Paulus, 2013, p.48.
[2] Cf. IGMR 57b.
[3] Aqui não tenho como objeto central responder a estas questões.
[4] Cf. EG, 24.
[5] Cf. EG, cap. I.
[6] Cf. Medellín 9,4.
[7] Cf. BECKHÄUSER, Alberto. A liturgia da missa: teologia e espiritualidade da Eucaristia. Petrópolis: Vozes, 1997, p.104.
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