Música

O canto litúrgico na Quaresma

Escrito por Redação A12

05 MAR 2014 - 09H19 (Atualizada em 18 MAR 2026 - 16H15)

Mais uma vez chegamos ao tempo litúrgico da Quaresma. Nossas comunidades vivem uma preparação para a grande festa da Páscoa, centro de todo o ano litúrgico.

Nas nossas celebrações, são notadas algumas diferenças, tais como a omissão do “Glória” e do “Aleluia” e ênfase nos elementos que recordam o nosso batismo.

Assim como em qualquer ação litúrgica, também na Quaresma o canto tem papel fundamental. Ele deve contribuir para que as pessoas celebrem “ativa e frutuosamente” esse momento especial na vida das comunidades.

A Quaresma, ao contrário do que muitos acham, não é tempo de tristeza e sofrimento. É tempo de penitência e conversão, isso é fato. Mas devemos entender bem o que essas palavras querem significar. Devemos ter cuidado para não compreendê-las simplesmente no seu sentido negativo. Em seu comentário sobre a Constituição Sacrosanctum Concilium, Frei Aloísio Beckhäuser salienta que:

"Penitência é mudança de vida; penitência é sinônimo de conversão ao Evangelho. Infelizmente, a compreensão de penitência adquiriu um sentido meramente negativo de renúncia, de mortificação. Este aspecto existe, mas é preciso ultrapassá-lo. A penitência como conversão evangélica consiste em cultivar permanentemente o bem, viver o novo mandamento, buscar o amor de Deus e do próximo"[1].

É nesse sentido que devemos entender o apelo à conversão que nos é feito nessa preparação para a Páscoa. Já na Quarta-feira de Cinzas escutaremos: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”. É necessário que não entendamos esse “convertei-vos” como resultado de ações isoladas, mas como um processo que envolve todo o nosso ser.

Bem mais do que renunciar a algo ou fazer alguma obra de caridade, é preciso compreender o mundo de maneira diferente. O vocábulo conversão, em seu sentido original, significa “mudança de mentalidade”. É diferente de mudança de prática. Embora essa seja necessária, só alcança seu fim se for realizada com nova mentalidade.

Qual a contribuição do canto litúrgico para uma vivência plena e equilibrada do tempo quaresmal? A resposta está no sentido do canto litúrgico.

O canto não é simplesmente um adorno usado para deixar as celebrações mais bonitas e animadas. Ele é “parte necessária e integrante” da liturgia (SC 112). Daí a importância que é dada à preparação, escolha e execução dos cantos em qualquer ação litúrgica.

Segundo o documento da CNBB, Pastoral da Música Litúrgica do Brasil, o canto é, “após a comunhão sacramental, o elemento que melhor colabora para a verdadeira participação pedida pelo Concílio” (2.1.1). Por que essa importância? Porque o canto é uma das expressões mais fortes e verdadeiras da própria liturgia. Ele tem a capacidade de fomentar uma participação maior, tanto pessoal como comunitariamente.

O canto litúrgico deve cumprir uma função dentro da liturgia. Por isso, podemos dizer que se trata de uma arte funcional. Isso significa que não se pode cantar qualquer coisa em qualquer momento da celebração e em qualquer tempo litúrgico.

O estudo da CNBB sobre a música litúrgica no Brasil é muito esclarecedor a esse respeito:

“Não uma música qualquer. Não simplesmente uma bela música. Nem, apenas, piedosa. Mas uma música funcional, com finalidade e exigências bem delimitadas: um rito determinado, com seu significado específico” [2].

O que podemos dizer, então, do canto litúrgico no contexto da Quaresma? Não muito mais do que já foi dito. Afinal, não há variação de importância no que se refere ao canto nos diversos momentos do Ano Litúrgico.

Uma orientação muito importante é aquela dada pela Sacrosanctum Concilium:

“Coloquem-se em maior realce [...] os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação do Batismo ou sua preparação e por meio da penitência, preparar os fiéis para a celebração do mistério pascal” (SC 109).

Esperamos que nossas comunidades cantem “a” liturgia nesta Quaresma, de modo a levar as pessoas a ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e entregar-se à oração com mais insistência. Na preparação das celebrações, portanto, também dos cantos, busquemos entender e viver esse tempo como um caminho que deve nos conduzir à grande alegria do “Aleluia!” cantado na Vigília Pascal.

Levando em consideração que “as mesmas pedras servem para levantar pontes ou muros, edificam templos ou constroem prisões”, busquemos conhecer e vivamos o verdadeiro espírito da Quaresma. A partir dessa vivência, fazer com que as celebrações correspondam ao mesmo espírito não será tarefa impossível.

Santa Quaresma a todos!

Manoel Gomes
Irmão Paulino

Referências:

1 - Beckhäuser, A., Sacrosanctum Concilium: texto e comentário, São Paulo, Paulinas, 2012

2 - CNBB, A Música Litúrgica no Brasil – Estudo 79 em Documentos sobre a música litúrgica, São Paulo, Paulus, 2005.

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