Em 1º de setembro, a Igreja Católica celebra a memória da Beata Isabel Cristina Mrad Campos. A jovem mineira foi assassinada aos 20 anos, em 1982, após resistir a uma tentativa de violência sexual. Quatro décadas depois, sua história permanece ligada à defesa da dignidade das mulheres.
Isabel Cristina nasceu em Barbacena (MG), em 29 de julho de 1962. Católica e integrante de uma família ligada à espiritualidade vicentina, ela sonhava cursar Medicina. Seu desejo era trabalhar como pediatra e ajudar crianças carentes.
Em 1982, mudou-se para Juiz de Fora (MG) para fazer um curso preparatório para o vestibular. No dia 1º de setembro daquele ano, um homem foi ao apartamento onde ela morava com o irmão para montar um guarda-roupa.
Segundo a Arquidiocese de Mariana, o homem tentou violentá-la. Isabel Cristina resistiu. O agressor então a atacou e a matou com 15 facadas.
A história da Beata Isabel Cristina passou a integrar a memória da Igreja no Brasil como testemunho de fé e martírio. O reconhecimento de seu martírio ocorreu em 2020, durante o pontificado do Papa Francisco.
Ela foi beatificada em 10 de dezembro de 2022, em Barbacena. A celebração foi presidida pelo Cardeal Raymundo Damasceno Assis.
Na cerimônia, o cardeal relacionou o testemunho da jovem à necessidade de defender a dignidade das mulheres. Ele pediu o fim da exploração, dos crimes sexuais e do feminicídio.
A Igreja também passou a apresentar Isabel Cristina como uma referência para recordar mulheres que sofreram violência. Em entrevista ao Vatican News em 2022, na data da beatificação, Monsenhor Danival, hoje bispo auxiliar da Arquidiocese de Goiânia, apontou que a história da beata permite lembrar outras vítimas de abuso e de crimes contra a mulher.
Veja as fotos da cerimônia de beatificação de Isabel Cristina, em 2022
A história de Isabel Cristina ocorreu há mais de 40 anos. O problema da violência contra a mulher, porém, continua presente no Brasil.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o país registrou 1.571 feminicídios em 2025. O número representa crescimento de 4% em relação ao ano anterior e foi o maior da série histórica apresentada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026.
O levantamento também mostra que 62,5% das vítimas foram mortas dentro da própria residência. Em 60,9% dos casos, o autor identificado era o parceiro íntimo. Ex-parceiros responderam por 18,9% dos casos.
As tentativas de feminicídio também cresceram. Em 2025, foram registradas 4.189 vítimas, alta de 5,9% em relação ao ano anterior.
Os números ajudam a dimensionar uma realidade que ultrapassa os casos de morte. A violência contra a mulher também aparece em ameaças, agressões físicas, violência psicológica, perseguição e descumprimento de medidas protetivas.
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A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, trouxe outro retrato do problema.
O levantamento estima que 27% das brasileiras tenham sofrido violência doméstica e familiar em 2025. Além disso, 79% das entrevistadas consideram que esse tipo de violência aumentou no último ano.
A pesquisa também mostra a importância das redes de apoio. Entre as mulheres que buscaram ajuda após sofrer violência, 58% recorreram à família. Outras 53% procuraram uma igreja e 28% foram a uma Delegacia da Mulher.
Os dados mostram, portanto, que comunidades religiosas também entram no caminho percorrido por mulheres que procuram proteção e acolhimento.
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A discussão também esteve presente recentemente no Santuário Nacional. Em 26 de agosto, uma Santa Missa no Altar Central teve como tema o combate à violência contra a mulher. A celebração ocorreu durante o Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres.
A missa foi presidida pelo arcebispo de Aparecida, Dom Mário Antonio da Silva. Participaram peregrinos, religiosos, leigos, representantes de pastorais, movimentos e mulheres ligadas à campanha Agosto Lilás.
Durante a homilia, Dom Mário chamou atenção para formas de violência que podem surgir antes da agressão física. Entre os sinais citados estavam o controle excessivo, o ciúme, a vigilância do celular, o isolamento de familiares e amigos, a humilhação, a ameaça e o controle financeiro.
O arcebispo também afirmou que uma relação marcada por violência não pode ser confundida com cuidado ou amor. Para ele, a defesa da dignidade humana faz parte da missão cristã.
A reflexão apresentada no Santuário Nacional estabelece uma conexão com o testemunho de Isabel Cristina. Em ambos os casos, a questão central é a dignidade da mulher diante da violência.
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