Hoje, quando falamos de sinodalidade, já é possível compreender que o “caminhar juntos”, não é somente andar ao lado um do outro, mas realmente viver em comunhão. A Igreja Católica é feita de muitas vocações e a união de todas elas nos convida a viver essa verdadeira comunhão.
Para finalizar o Mês Vocacional, vamos falar sobre a relação entre vocação e sinodalidade, dando destaque para as “novas comunidades”, que nos apresentam um modelo de comunhão e como esse estilo de vida é chamado a viver a sinodalidade.
Ao reunir pessoas de diferentes estados de vida em torno de um mesmo carisma e missão, as novas comunidades oferecem uma experiência de comunhão que responde ao desejo de pertença. Leigos, celibatários, famílias e consagrados compartilham a vida, a espiritualidade e o serviço à evangelização, mostrando que a vocação cristã se desenvolve no encontro e na convivência com o outro.
Para a teóloga Josefa Alves dos Santos, da Comunidade Shalom e coordenadora da Escola de Teologia do Instituto Parresia, um dos pontos principais para um bom discernimento é a capacidade de escuta.
“Vivemos em um mundo muito barulhento, com muitos estímulos e distrações, o que torna frágil a capacidade de muitos em saber discernir e escolher. E, para discernir uma vocação, é necessário conhecer a voz de Deus e saber distingui-la de todas as outras vozes. Uma vez tendo discernido, é preciso superar outro desafio contemporâneo, que é a perseverança no caminho empreendido, pois vivemos num tempo de busca constante de novidade, de fáceis estímulos e de medo de compromissos definitivos. Precisamos formar as novas gerações para a santidade, para as coisas mais altas, que dão verdadeiro fundamento e sentido para toda a vida”.
Seguindo nessa linha de formar novas gerações para a santidade, a sinodalidade aparece como um caminho fundamental, pois ela representa um modo de ser Igreja baseado na escuta, no discernimento e na corresponsabilidade.
“Falar de sinodalidade na vida da Igreja é despertar consciência de todos para a comunhão que nos une, porque somos membros de um único Corpo. Dessa forma, redescobriremos o dom que é cada carisma; além disso, o contato com as outras vocações pode sempre inspirar novas ações, impulsionar um novo ardor missionário e, ao mesmo tempo, renovar o sentido do seguimento de Cristo. Ademais, quando compreendemos que cada carisma realiza, segundo o dom que lhe foi dado, um aspecto da mesma e única missão da Igreja, passamos a compreender melhor que, no Reino de Deus, ninguém caminha sozinho”, explica Josefa Santos.
A teóloga explica ainda o que muda na compreensão da vocação quando ela é vista a partir da perspectiva sinodal.
“Quando não nos abrimos a compartilhar a missão e a vida, corremos o risco da autorreferencialidade e de uma vida dominada pelo preconceito; e nada disso é testemunho evangélico. O caminhar juntos, conduzidos pelo Espírito de Cristo, nos dá a segurança de sermos, de fato, seus discípulos e membros do Seu corpo. Quando aprendemos e escolhemos caminhar juntos, o outro se torna meu irmão e não mais meu adversário. Se adquirirmos tal compreensão, somos capazes de cuidado, de correção fraterna e de partilha de bens e de dons”.
As novas comunidades, por sua própria configuração, são convidadas a testemunhar essa dinâmica sinodal, valorizando a diversidade de dons e vocações presentes em seu interior.
Ao mesmo tempo, essas experiências comunitárias também são chamadas a aprofundar a vivência sinodal em suas estruturas e relações cotidianas. Isso significa fortalecer espaços de diálogo, participação e discernimento conjunto, de modo que todos se sintam corresponsáveis pela missão.
“Uma das definições muito usada pelo Papa São João Paulo II ao se referir às Novas Comunidades era: ‘são uma resposta providencial do Espírito Santo, um recurso para um novo impulso evangelizador na Igreja'”.Todo carisma é dado por Deus para o bem comum, e as novas comunidades, pela sua capacidade de despertar e acompanhar o desenvolvimento da fé nas novas gerações, contribuem com a renovação e revitalização da missão da Igreja no mundo atual. Vivem e propõem a vivência da fé com entusiasmo e com profundo sentido eclesial”.
Josefa explicou ainda que a sinodalidade não deve ser confundida com uniformidade, e destacou como as novas comunidades são chamadas a viver a sinodalidade.
“A Igreja pode ser comparada a um belo jardim com uma grande diversidade de flores com cores e perfumes distintos, mas plantadas no mesmo solo, regadas pela mesma fonte; ou pode ser comparada a uma orquestra, e uma orquestra nunca é composta por um único instrumento, mas por vários instrumentos que tocam a mesma melodia, no mesmo tom, e essa harmonia gera beleza. São dois belos exemplos de sinodalidade e complementariedade.”
E completou, explicando as características do trabalho das novas comunidades:
“As Novas Comunidades apontam novos caminhos para a Igreja pela disposição em viver com entusiasmo sempre renovado e criativo o chamado do Senhor, pela coragem de repropor a radicalidade evangélica no mundo atual, e pelo empenho em viver a comunhão e a unidade eclesial, testemunhando, assim, que não há contradição entre os dons hierárquicos e os carismáticos. Outro aspecto característico nas Novas Comunidades é a centralidade da vida de oração, que é a redescoberta da total dependência de Deus de todo ser humano e a coragem de testemunhar a fé em ambientes por vezes mais hostis ao anúncio cristão”.
Quando vivem autenticamente essa proposta, as novas comunidades se tornam sinais proféticos para a Igreja de hoje, apontando caminhos de unidade na diversidade e revelando que a comunhão é uma das respostas mais fecundas aos desafios vocacionais do nosso tempo.
O caminho sinodal convida religiosos e leigos a caminhar em sintonia, seguindo uma linha horizontal, em que cada um tem sua corresponsabilidade, e, para isso, é preciso que todos entendam a importância desse caminhar juntos.
“O texto conciliar da Lumen Gentium afirma que é ‘específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando as coisas segundo Deus’, de modo que a maior contribuição que os leigos podem dar na construção de uma Igreja mais sinodal é viver o seu Batismo e o seu chamado próprio com parresia, pois dessa forma estará testemunhando o Evangelho e sendo presença da Igreja nos mais diversos ambientes da sociedade. Um leigo que sabe viver a sua fé na família, na sua vida profissional, com coerência, honestidade e caridade, é alguém que realiza uma missão insubstituível a nível social e eclesial”.
Josefa ainda destacou que o Concílio Vaticano II reconheceu o protagonismo dos leigos na missão da Igreja e destacou a importância de oferecer uma formação adequada, capaz de sustentar e qualificar a atuação desses fiéis nos diversos espaços eclesiais e sociais.
“O Vaticano II rompeu com uma visão reducionista que via o fiel leigo como categoria subordinada ao clero, e fez emergir a eclesiologia da era apostólica, cuja raiz comum a todos é o Batismo e a fé em Cristo, e isso precede às funções. Mas é essencial que os leigos recebam uma boa formação — doutrinal, antropológica, litúrgica, sacramental — que os ajude a desenvolver os seus dons e a realizar sua missão na Igreja e no mundo”.
add_circle Saiba mais sobre o caminho sinodal, acessando A12.com/sinodalidade.
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