Em ano eleitoral, temas como renda, pobreza, emprego, meio ambiente e políticas públicas ganham espaço no debate. Para o economista e pesquisador L.M. Luzio-dos-Santos, essas questões também estão relacionadas à forma como a democracia é compreendida.
Essa é uma das discussões apresentadas no livro "Ética e Democracia econômica: caminhos para a socialização da economia", publicado pela Editora Ideias & Letras. A obra propõe uma reflexão sobre a relação entre economia, ética, política e sociedade.
O autor defende que a democracia não deve ficar restrita à esfera política. Para ele, as decisões econômicas também interferem na vida coletiva e precisam ser analisadas a partir de princípios democráticos.
A discussão ganha relevância durante as eleições. Em 2026, os eleitores brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Cada cargo possui atribuições diferentes na administração pública e na elaboração de políticas.
Por isso, o livro apresenta uma reflexão que pode ajudar a compreender temas presentes nos programas e propostas discutidos durante o período eleitoral: distribuição de renda, participação social, desenvolvimento, sustentabilidade e atuação do Estado.
Segundo o autor, a economia contemporânea se afastou de questões sociais e políticas ao assumir uma suposta neutralidade.
O autor questiona esse distanciamento. Na obra, ele afirma que a economia deveria considerar temas como distribuição de renda, erradicação da pobreza e preservação ambiental.
“A economia contemporânea revestiu-se de uma pretensa neutralidade, comum às ciências exatas, mas distante das ciências sociais, sua verdadeira gênese.”
A partir dessa análise, o livro apresenta o conceito de "democracia econômica".
A proposta envolve ampliar a participação da sociedade nas decisões que afetam a economia. Também inclui transparência, distribuição dos resultados do trabalho coletivo e descentralização dos mecanismos de poder.
O autor resume essa perspectiva ao afirmar que a democracia econômica busca "garantir as necessidades materiais básicas para o conjunto da população”.
A referência para o desenvolvimento, segundo a obra, deveria considerar a qualidade de vida das pessoas mais vulneráveis.
A relação aparece na própria compreensão de democracia apresentada pelo autor.
Para Luzio-dos-Santos, a democracia envolve soberania popular, direitos fundamentais, liberdade de expressão, igualdade de oportunidades e equidade econômica.
No contexto eleitoral, esses temas podem ser observados nas propostas apresentadas por candidatas e candidatos. O eleitor pode encontrar informações oficiais sobre candidaturas, partidos, propostas de governo e prestação de contas nas plataformas disponibilizadas pela Justiça Eleitoral.
Assim, a discussão proposta pelo livro amplia o olhar sobre o voto. Em vez de considerar apenas a dimensão política da democracia, a obra propõe observar também os efeitos das decisões econômicas sobre a sociedade.
A questão central passa a ser como diferentes projetos de desenvolvimento lidam com problemas como pobreza, concentração de renda e degradação ambiental.
O livro também questiona a relação automática entre crescimento econômico e melhoria das condições de vida.
Para analisar um projeto de desenvolvimento, Luzio-dos-Santos apresenta três perguntas:
A partir dessas questões, o autor apresenta diferentes formas de interpretar o desenvolvimento.
Uma delas está relacionada à teoria conhecida como trickle-down. Segundo essa visão, o crescimento da riqueza no topo da sociedade poderia beneficiar os demais grupos.
O livro também apresenta uma interpretação diferente. Nela, os recursos concentrados no topo da pirâmide não chegariam automaticamente às camadas mais pobres.
A obra defende que a sociedade e o Estado possuem papel na criação de regras, na democratização de oportunidades e na distribuição da riqueza produzida coletivamente.
Outro ponto abordado pelo autor é a relação entre concentração econômica e democracia.
O livro apresenta a ideia de que existe um descompasso entre a expansão dos regimes democráticos e a concentração do poder econômico.
“Democracia pressupõe equilíbrio de forças, não só na esfera política, mas em todas as dimensões que compõem a vida em sociedade”.
A afirmação resume uma das ideias centrais da obra.
Para o autor, não seria suficiente ampliar a participação democrática apenas nas instituições políticas. A democracia também deveria alcançar as dimensões econômica, social e cultural.
Essa perspectiva leva a uma questão importante em períodos eleitorais: quais são os efeitos das decisões econômicas sobre diferentes grupos da sociedade?
O livro recorre a estudos de autores como Thomas Piketty e Karl Polanyi para discutir a relação entre economia, desigualdade e democracia.
A obra cita a análise de Piketty sobre a distribuição de renda e utiliza dados de estudos internacionais para abordar a concentração da riqueza.
O objetivo é mostrar que crescimento econômico e distribuição de renda são questões diferentes.
A partir dessa perspectiva, o desenvolvimento de um país não seria analisado apenas pelo tamanho de sua economia. Também seria necessário observar quem se beneficia dos resultados e quais são os impactos sociais e ambientais das decisões econômicas.
O livro é dividido em seis capítulos. O primeiro aproxima ética e economia. O autor retoma a relação entre esses campos e discute o afastamento da economia de questões sociais.
Os capítulos seguintes apresentam diferentes sistemas econômicos. Entre eles estão o liberalismo, o neoliberalismo, o socialismo e a economia mista de inspiração keynesiana.
A obra também relaciona esses sistemas às diferentes concepções de democracia. Os dois capítulos finais concentram-se na democracia econômica.
O quinto capítulo amplia o conceito de democracia e apresenta a ideia de uma democracia integrativa. Nessa perspectiva, as dimensões política, econômica, social e cultural são interdependentes.
O sexto trata diretamente da democracia econômica. O autor discute as estruturas de poder e a relação entre interesses econômicos e decisões políticas.
A reflexão não se limita ao Estado. O último capítulo aborda a democracia dentro das organizações. Nele, o autor discute a concentração da propriedade empresarial e o crescimento da influência das grandes empresas na sociedade.
A proposta é analisar modelos organizacionais baseados em participação, sustentabilidade e promoção do bem comum.
Nesse sentido, a democracia econômica também envolve a forma como as decisões são tomadas dentro das instituições.
Graduado em Ciências Econômicas e Administração pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Também é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, mestre em Administração pela UEL e pós-doutor em Ciências Sociais.
É professor associado do Departamento de Administração da UEL e professor do Programa de Mestrado em Gestão e Sustentabilidade da universidade.
O pesquisador atua nas áreas de Socioeconomia, Democracia Econômica, Economia Solidária e Políticas Públicas.
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