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Economia e democracia: o que o seu voto tem a ver?

Livro publicado pela Editora Ideias & Letras relaciona economia, ética e democracia e propõe ampliar o debate sobre participação social nas decisões econômicas

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Escrito por Beatriz Nery

24 SET 2026 - 10H30 (Atualizada em 24 SET 2026 - 11H30)

Marcio/Adobe Stock

Em ano eleitoral, temas como renda, pobreza, emprego, meio ambiente e políticas públicas ganham espaço no debate. Para o economista e pesquisador L.M. Luzio-dos-Santos, essas questões também estão relacionadas à forma como a democracia é compreendida.

Essa é uma das discussões apresentadas no livro "Ética e Democracia econômica: caminhos para a socialização da economia", publicado pela Editora Ideias & Letras. A obra propõe uma reflexão sobre a relação entre economia, ética, política e sociedade.

O autor defende que a democracia não deve ficar restrita à esfera política. Para ele, as decisões econômicas também interferem na vida coletiva e precisam ser analisadas a partir de princípios democráticos.

A discussão ganha relevância durante as eleições. Em 2026, os eleitores brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Cada cargo possui atribuições diferentes na administração pública e na elaboração de políticas.

Por isso, o livro apresenta uma reflexão que pode ajudar a compreender temas presentes nos programas e propostas discutidos durante o período eleitoral: distribuição de renda, participação social, desenvolvimento, sustentabilidade e atuação do Estado.

Mariana Joffre/A12 Mariana Joffre/A12

O que é democracia econômica?

Segundo o autor, a economia contemporânea se afastou de questões sociais e políticas ao assumir uma suposta neutralidade.

O autor questiona esse distanciamento. Na obra, ele afirma que a economia deveria considerar temas como distribuição de renda, erradicação da pobreza e preservação ambiental.

“A economia contemporânea revestiu-se de uma pretensa neutralidade, comum às ciências exatas, mas distante das ciências sociais, sua verdadeira gênese.”

A partir dessa análise, o livro apresenta o conceito de "democracia econômica".

A proposta envolve ampliar a participação da sociedade nas decisões que afetam a economia. Também inclui transparência, distribuição dos resultados do trabalho coletivo e descentralização dos mecanismos de poder.

O autor resume essa perspectiva ao afirmar que a democracia econômica busca "garantir as necessidades materiais básicas para o conjunto da população”.

A referência para o desenvolvimento, segundo a obra, deveria considerar a qualidade de vida das pessoas mais vulneráveis.

O que isso tem a ver com as eleições?

A relação aparece na própria compreensão de democracia apresentada pelo autor.

Para Luzio-dos-Santos, a democracia envolve soberania popular, direitos fundamentais, liberdade de expressão, igualdade de oportunidades e equidade econômica.

No contexto eleitoral, esses temas podem ser observados nas propostas apresentadas por candidatas e candidatos. O eleitor pode encontrar informações oficiais sobre candidaturas, partidos, propostas de governo e prestação de contas nas plataformas disponibilizadas pela Justiça Eleitoral.

Assim, a discussão proposta pelo livro amplia o olhar sobre o voto. Em vez de considerar apenas a dimensão política da democracia, a obra propõe observar também os efeitos das decisões econômicas sobre a sociedade.

A questão central passa a ser como diferentes projetos de desenvolvimento lidam com problemas como pobreza, concentração de renda e degradação ambiental.

Crescimento econômico significa desenvolvimento?

O livro também questiona a relação automática entre crescimento econômico e melhoria das condições de vida.

Para analisar um projeto de desenvolvimento, Luzio-dos-Santos apresenta três perguntas:

  •  Quais são os resultados esperados?
  •  Quem são os principais beneficiários?
  •  Quais são os possíveis custos desse processo?

A partir dessas questões, o autor apresenta diferentes formas de interpretar o desenvolvimento.

Uma delas está relacionada à teoria conhecida como trickle-down. Segundo essa visão, o crescimento da riqueza no topo da sociedade poderia beneficiar os demais grupos.

O livro também apresenta uma interpretação diferente. Nela, os recursos concentrados no topo da pirâmide não chegariam automaticamente às camadas mais pobres.

A obra defende que a sociedade e o Estado possuem papel na criação de regras, na democratização de oportunidades e na distribuição da riqueza produzida coletivamente.

Economia e poder político

Outro ponto abordado pelo autor é a relação entre concentração econômica e democracia.

O livro apresenta a ideia de que existe um descompasso entre a expansão dos regimes democráticos e a concentração do poder econômico.

“Democracia pressupõe equilíbrio de forças, não só na esfera política, mas em todas as dimensões que compõem a vida em sociedade”.

A afirmação resume uma das ideias centrais da obra.

Para o autor, não seria suficiente ampliar a participação democrática apenas nas instituições políticas. A democracia também deveria alcançar as dimensões econômica, social e cultural.

Essa perspectiva leva a uma questão importante em períodos eleitorais: quais são os efeitos das decisões econômicas sobre diferentes grupos da sociedade?

A distribuição da riqueza no centro do debate

O livro recorre a estudos de autores como Thomas Piketty e Karl Polanyi para discutir a relação entre economia, desigualdade e democracia.

A obra cita a análise de Piketty sobre a distribuição de renda e utiliza dados de estudos internacionais para abordar a concentração da riqueza.

O objetivo é mostrar que crescimento econômico e distribuição de renda são questões diferentes.

A partir dessa perspectiva, o desenvolvimento de um país não seria analisado apenas pelo tamanho de sua economia. Também seria necessário observar quem se beneficia dos resultados e quais são os impactos sociais e ambientais das decisões econômicas.

Seis capítulos sobre economia e democracia

O livro é dividido em seis capítulosO primeiro aproxima ética e economia. O autor retoma a relação entre esses campos e discute o afastamento da economia de questões sociais.

Os capítulos seguintes apresentam diferentes sistemas econômicos. Entre eles estão o liberalismo, o neoliberalismo, o socialismo e a economia mista de inspiração keynesiana.

A obra também relaciona esses sistemas às diferentes concepções de democracia. Os dois capítulos finais concentram-se na democracia econômica.

O quinto capítulo amplia o conceito de democracia e apresenta a ideia de uma democracia integrativa. Nessa perspectiva, as dimensões política, econômica, social e cultural são interdependentes.

O sexto capítulo trata diretamente da democracia econômica. O autor discute as estruturas de poder e a relação entre interesses econômicos e decisões políticas.

Empresas também entram na discussão

A reflexão não se limita ao Estado. O último capítulo aborda a democracia dentro das organizações. O autor discute a concentração da propriedade empresarial e o crescimento da influência das grandes empresas na sociedade.

A proposta é analisar modelos organizacionais baseados em participação, sustentabilidade e promoção do bem comum.

Nesse sentido, a democracia econômica também envolve a forma como as decisões são tomadas dentro das instituições.

Quem é L.M. Luzio-dos-Santos?

Graduado em Ciências Econômicas e Administração pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Também é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, mestre em Administração pela UEL e pós-doutor em Ciências Sociais.

É professor associado do Departamento de Administração da UEL e professor do Programa de Mestrado em Gestão e Sustentabilidade da universidade.

O pesquisador atua nas áreas de Socioeconomia, Democracia Econômica, Economia Solidária e Políticas Públicas.

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