Próximo ao fim do Mês Missionário, o A12 apresenta o relato de uma experiência de voluntariado cristão na Amazônia de uma jovem de 25 anos. Marceli Maria Rocha Silva é jornalista, católica e mineira, mas mora atualmente em Cachoeira Paulista, SP. No mês de outubro, ela realizou o desejo antigo de conhecer a Amazônia de perto por meio de um trabalho voluntário.
Antes de relatar essa experiência, vale recordar o que a Igreja ensina sobre a missão. Na Carta Encíclica Redemptoris Missio, São João Paulo II afirmou que, em primeiro lugar, é missão da Igreja anunciar o evangelho, convidando à conversão. Além disso, ela está a serviço da formação de comunidades de fé e da promoção dos valores evangélicos.
Essa missão da Igreja, segundo o documento pontifício, se concretiza no testemunho cristão, no diálogo, na promoção humana, na defesa da paz e da justiça e também no cuidado com os pobres, doentes e os mais vulneráveis.
Embora tenha participado de uma iniciativa organizada por um instituto cristão não católico, Marceli viveu essa experiência como católica e afirmou que o contato com a comunidade a ajudou a refletir sobre valores evangélicos, ampliar sua visão de mundo e aprofundar sua experiência pessoal com Deus.
A comunidade na qual a jovem passou dez dias, junto com outros doze profissionais de diferentes áreas de atuação, chama-se Ilha do Marrecão ou Costa do Marrecão e fica a duas horas de barco do município de Manacapuru, no Amazonas. Esta é uma entre as milhares de comunidades ribeirinhas no estado e ganhou notoriedade devido a ações de voluntariado e ao enfrentamento dos impactos das severas secas.
O cotidiano da comunidade, mesmo em meio à escassez de recursos, chamou a atenção de Marceli:
“Eles vivem muito juntos, as famílias pescam juntas, as mulheres fazem agricultura. Todos os dias que a gente estava lá, a gente observava. Quando o sol ia se pondo, em torno de 4, 5 horas da tarde, eles paravam todo o trabalho para se reunir, jogar futebol, vôlei. Eles têm os torneios, as refeições são feitas em família, aos finais de semana eles fazem as orações juntos, frequentam a mesma igreja, a mesma espiritualidade.”
Segundo a jovem, o instituto que reuniu o grupo de voluntários utiliza as igrejas evangélicas presentes nas comunidades como ponte para organizar as ações e distribuir recursos, especialmente na área da saúde. Marceli ainda ressaltou que o acesso às comunidades é difícil e que a presença do Estado é limitada.
“O acesso é muito difícil, então não tem tantas ações do Estado para realmente abastecer essas comunidades. Os moradores relatam que nada é como essas missões… de realmente ir e ficar ali pelo menos dez dias, como a gente ficou, dentro da comunidade, conhecendo as necessidades, conversar, conseguir levar um atendimento humanizado.”
Além disso, Marceli explicou que o instituto se organizou em duas frentes de atuação:
- Saúde: com consultas e atendimentos realizados por médicos, enfermeiros e outros voluntários da área;
- Crianças e educação: a frente em que Marceli auxiliou com atividades de conscientização sobre higiene, saúde básica e abuso infantil, além de ações educativas, brincadeiras e atividades lúdicas em parceria com as escolas;
A voluntária ainda explicou a rotina do grupo durante o período:
“A gente dorme dentro de um barco, vive dentro do barco. Mas passamos o dia com a comunidade. Dentro da comunidade mesmo, visitando, conhecendo as famílias. E eles sempre separam para nós um local para montar os consultórios. Os atendimentos improvisados.”
Os povos ribeirinhos enfrentam dificuldades de acesso a saneamento, saúde e educação, que são agravadas pela localização e dependência de barcos como transporte. Sobre os impactos dessa realidade, a jovem comentou:
“Eles carecem mesmo de direitos humanos básicos, sabe? Eles não têm água potável, eles cozinham, tomam a água do rio, e isso gera incontáveis doenças, vai virando um ciclo de questões negativas que vão gerando, né? Por exemplo, a gente estava fazendo atendimento odontológico e crianças de 3 anos já chegavam no consultório com graves problemas dentários.”
Ao falar da experiência pessoal e aprendizados da missão, Marceli destacou a percepção de diferentes formas de pobreza e riqueza e que conhecer a comunidade ampliou sua compreensão sobre a vida, a sociedade e o Brasil.
“Às vezes, naquilo que nós somos pobres, eles não são; naquilo que eles são pobres, nós não somos, então, a pobreza se apresenta de forma diferente para cada população, para cada cultura, para cada realidade de vida, sabe, e é bonito de perceber que eles, mesmo em meio a todas essas dificuldades, amam a própria cultura e encontram esses meios, formas de serem gratos, de viverem bem e em paz.”
Embora já participasse de iniciativas sociais desde a infância e ainda seja voluntária em uma associação em Cruzeiro (SP), essa foi sua primeira experiência em uma viagem missionária para outro estado. A missão permitiu que ela se encantasse com a diversidade cultural do país, com a valorização da vida em comunidade, com a simplicidade e alegria mesmo nas dificuldades, apesar do grande impacto da falta de acesso a direitos básicos.
Que este relato ajude a reconhecer a riqueza da vida comunitária ribeirinha e, ao mesmo tempo, a gravidade das dificuldades de acesso a direitos básicos. A experiência também nos recorda que a missão cristã une testemunho do Evangelho e serviço concreto às pessoas: anunciar Cristo, promover a dignidade humana e cuidar de quem mais precisa.
Leia também: Três documentos papais para uma Igreja missionária
Papa defende acesso de todos à educação e à cultura
Na Audiência Geral, o Papa destaca a educação como caminho para o desenvolvimento humano e defende oportunidades de formação para todos.
Livro de pedagogia aborda a formação humana dos alunos
Como educar em uma sociedade cada vez mais conectada? Conheça a reflexão de Hamilton Werneck sobre os desafios da educação e o papel do professor.
CNBB cobra dos eleitos compromisso com o bem comum
A CNBB publicou uma mensagem aos eleitos de 2026, destacando a responsabilidade com o bem comum, a justiça social, a democracia e a dignidade humana.
Boleto
Carregando ...
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:
Carregando ...
Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.