Por Redação A12 Em Santo Padre Atualizada em 29 NOV 2017 - 08H59

"Paz" é a tônica principal de visita apostólica a Mianmar

Nesta quarta-feira, 29 de novembro, o Papa Francisco falou do perdão e da compaixão no tão aguardado encontro de Francisco com a comunidade católica de Mianmar. “O caminho da vingança não é o caminho de Jesus”:

Cerca de 150 mil fiéis participaram da celebração no complexo esportivo de Kyaikkasan Ground, a poucos quilômetros do Arcebispado de Yangun, para a primeira e única missa pública no país.

O Pontífice recordou que Jesus não nos ensinou a sua sabedoria com longos discursos ou por meio de grandes demonstrações de poder político ou terreno, mas com a oferta da sua vida na cruz. “O Senhor crucificado é a nossa bússola segura. Sei que muitos em Mianmar carregam as feridas da violência, quer visíveis quer invisíveis. A tentação é responder a estas lesões com uma sabedoria mundana que, como a do rei na primeira leitura, está profundamente deturpada. Pensamos que a cura possa vir do rancor e da vingança. Mas o caminho da vingança não é o caminho de Jesus.”

O caminho de Jesus é radicalmente diferente, afirmou Francisco, pois quando o ódio e a rejeição conduziram Cristo à paixão e à morte, Ele respondeu com o perdão e a compaixão.

O Pontífice falou do empenho da Igreja em Myanmar, que faz o que pode para levar o “bálsamo salutar da misericórdia de Deus” aos outros, especialmente aos mais necessitados.

Há sinais claros de que, mesmo com meios muito limitados, numerosas comunidades proclamam o Evangelho a outras minorias tribais, sem nunca forçar ou constringir, mas sempre convidando e acolhendo. No meio de tanta pobreza e inúmeras dificuldades, muitos de vocês prestam assistência prática e solidariedade aos pobres e aos doentes”, destacou o Papa.

Ressaltando a missão caritativa “sem distinções de religião ou de origem étnica” da Caritas local e das Pontifícias Obras Missionárias, Francisco encorajou os católicos a continuarem a partilhar com os demais “a inestimável sabedoria” de Deus, que brota do coração de Jesus.

A mensagem de perdão e misericórdia de Cristo, disse ainda Francisco, obedece a uma lógica que nem todos querem compreender e que encontra obstáculos. E concluiu usando mais uma de suas metáforas:

“Contudo, o seu amor é definitivamente inabalável. É como um GPS espiritual que nos guia infalivelmente rumo à vida íntima de Deus e ao coração do nosso próximo. Deus abençoe a Igreja em Mianmar! Abençoe esta terra com a sua paz!”

Compromisso com a justiça e respeito pelos direitos humanos

No encontro com as autoridades, a sociedade civil e o Corpo diplomático – após a cerimônia de boas-vindas e visita de cortesia ao presidente da nação –, na capital Nay Pyi Taw, o Santo Padre ressaltou sua satisfação ao visitar o país depois do estabelecimento formal das relações diplomáticas entre Mianmar e Santa Sé e o esforço do estado do sudeste asiático na prossecução do diálogo e da cooperação construtiva dentro da comunidade internacional.

“Gostaria também que a minha visita pudesse atingir toda a população de Mianmar e oferecer uma palavra de encorajamento a todos aqueles que estão trabalhando para construir uma ordem social justa, reconciliada e inclusiva”, disse o Pontífice.

Reconhecendo a beleza extraordinária e numerosos recursos naturais do país, Francisco ressaltou que seu maior tesouro contudo é, sem dúvida, “o seu povo, que sofreu muito e continua sofrendo por causa de conflitos civis e hostilidades que duraram muito tempo e criaram profundas divisões”.

Uma vez que agora a nação está trabalhando para restaurar a paz, a cura destas feridas não pode deixar de ser uma prioridade política e espiritual fundamental”, acrescentou.

Para o Santo Padre a Declaração Universal dos Direitos Humanos é base dos esforços da comunidade internacional para promover a justiça, a paz e o progresso humano em todo o mundo e para resolver os conflitos através do diálogo, e não com o uso da força.

“O futuro de Mianmar deve ser a paz, uma paz fundada no respeito pela dignidade e os direitos de cada membro da sociedade, no respeito por cada grupo étnico e sua identidade, no respeito pelo Estado de Direito e uma ordem democrática que permita a cada um dos indivíduos e a todos os grupos – sem excluir nenhum – oferecer a sua legítima contribuição para o bem comum.”

A este ponto de seu discurso, o Santo Padre chamou a atenção para o papel privilegiado que as comunidades religiosas têm a desempenhar no imenso trabalho de reconciliação nacional.

O Papa concluiu seu primeiro discurso em Mianmar com um encorajamento à pequena comunidade católica evocando um papel importante também para ela nesta nova fase histórica do país do sudeste asiático.

Papa e Suu Kyi: dois líderes, único ideal

O discurso do Papa às autoridades na capital birmanesa marcou também o encontro entre Francisco e a Conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi.

Antes da cerimônia pública, os dois se reuniram a portas fechadas no Palácio Presidencial. “The Lady”, como é conhecida, representa a peça fundamental deste momento político em Mianmar.

O seu ativismo vem de berço, pois Suu Kyi é filha do General Aung San, Secretário do Partido Comunista Birmanês assassinado por opositores políticos em 1947. Ele é considerado o principal artífice da independência do país dos colonizadores britânicos.

A filha seguiu os passos do pai e sua luta paciente e não-violenta pela democracia é comparada a de ícones como Nelson Mandela. Passou anos na condição de prisioneira política e hoje é Presidente da Liga Nacional pela Democracia (NLD) e ocupa o cargo de Conselheira de Estado.

A trajetória de Suu Kyi não a exime das críticas, sobretudo oriundas da comunidade internacional sobre a gestão do conflito na fronteira com Bangladesh. Mas o seu poder é limitado, pois ainda estão nas mãos dos militares a pasta da Defesa e a segurança das fronteiras. De fato, Mianmar ainda não goza de uma democracia plena.

Todavia, “the Lady” tem o apoio popular e é vista pela população como pessoa imprescindível neste processo de transição.

Com esta autoridade, Suu Kyi se dirigiu ao Papa Francisco manifestando sua alegria e satisfação em recebê-lo no país, arriscando duas frases em italiano: "obrigada por estar aqui conosco" e "continuemos a trabalhar juntos com confiança". Num discurso sensível e incisivo, com referências ao Evangelho e ao magistério do Pontífice, a Conselheira recordou os anseios que moveram os pais fundadores da nação de conciliar liberdade com justiça e mencionou os desafios atuais, sendo a paz o mais urgente.

Fonte: Rádio Vaticano

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