A sinodalidade convida a Igreja a olhar para suas estruturas pastorais e perguntar se elas realmente favorecem a comunhão, a participação e a missão. Para isso, é preciso deixar de lado práticas muito centralizadas e abrir espaço para o diálogo, a escuta e a corresponsabilidade. Essa mudança vai além da forma de organizar as pastorais. Ela exige uma nova atitude, que coloque as pessoas e seus dons no centro da vida da comunidade.
O Pe. Anderson Costa Pereira, mestre em teologia, professor de teologia sistemática da Faculdade Católica do Maranhão (FACMA) e presbítero da Diocese de Pinheiro (MA), nos ajuda a compreender o que essa reforma das estruturas pastorais, que o documento do Sínodo da Sinodalidade convida a Igreja a fazer, significa na prática.
“Eu compreendo que não se trata simplesmente de criar novos cargos ou modificar a forma hierárquica como a Igreja está organizada. Trata-se, antes de tudo, de fazer com que as estruturas estejam verdadeiramente a serviço da missão, da comunhão e da participação de todo o povo de Deus. Uma estrutura eclesial precisa ajudar as pessoas a encontrarem Cristo e a participarem da vida da Igreja. Quando uma estrutura se torna fechada, excessivamente burocrática, autorreferencial ou distante da realidade concreta das comunidades, ela precisa ser revista”.
Ele ainda nos convida a refletir se as práticas realizadas hoje nas pastorais, elas são pensadas para promover a participação e a comunhão, ou elas seguem algo sem rever as necessidades. Outro ponto que o padre ressalta é que a mudança não é algo negativo, mas sim, um caminho positivo.
“Para mim, reformar as estruturas significa perguntar: nossas paróquias, nossas comunidades, nossos conselhos, nossas pastorais estão realmente favorecendo a participação, a missão e a comunhão? Ou estão mantendo práticas apenas porque sempre foram assim? Como nos ensina o teólogo Yves Congar, a Reforma não é inimiga da Tradição da Igreja. É uma renovação necessária para que a Igreja possa continuar sendo fiel à sua missão no mundo de hoje”.
Algumas pessoas escutam sobre as mudanças propostas pelo Sínodo da Sinodalidade e pensam que o documento do Sínodo nos pede para acabar com a Igreja como vivemos hoje, pelo contrário, existe a necessidade de melhorarmos e fazer com que a estrutura hoje seja mais participativa.
“Eu não compreendo a sinodalidade como uma tentativa de abolir a hierarquia da Igreja. A Igreja possui uma estrutura ministerial própria, e isso faz parte da sua identidade constitutiva. O Papa, os bispos, os presbíteros, os diáconos e os leigos possuem vocações e responsabilidades diferentes e nenhuma delas deve ser abolida. Mas a sinodalidade nos recorda que autoridade não deve ser confundida com autoritarismo e que liderança na Igreja deve ser exercida como serviço. Jesus mesmo nos ensina que aquele que deseja ser o maior deve ser o servidor”, explicou o padre.
Para que essas mudanças aconteçam na prática, é importante que as comunidades ampliem os espaços de participação, permitindo que leigos, religiosos e ministros ordenados contribuam de forma concreta para a vida pastoral.
“Eu penso que uma das grandes conversões necessárias é passar de relações de poder para relações de serviço. Ainda encontramos, em alguns ambientes eclesiais, a tentação de controlar, centralizar decisões e tratar a comunidade como simples executora de decisões já tomadas. Assim, precisamos converter relações marcadas pela competição entre pastorais, movimentos e grupos. Às vezes, vemos determinados grupos disputando espaço dentro da Igreja. Devemos olhar uns para os outros não como concorrentes ou ameaças, mas como irmãos e irmãs que caminham juntos”, refletiu.
Estruturas mais participativas favorecem o diálogo, fortalecem o trabalho em equipe e aproximam as decisões da realidade do povo de Deus. Assim, a ação evangelizadora se torna mais próxima das pessoas e mais sensível aos desafios do tempo presente.
“Outra realidade que precisa de conversão é a dificuldade de escutar quem pensa diferente. Muitas vezes, confundimos unidade com uniformidade. A unidade cristã não significa que todos tenham a mesma opinião, mas que saibamos caminhar juntos, buscando a verdade e o bem da comunidade. Também é necessário superar preconceitos, exclusões e julgamentos. Há pessoas que se afastam da Igreja porque não se sentiram acolhidas, escutadas ou compreendidas. Existem ainda relações marcadas pelo clericalismo, pela resistência à participação dos leigos e pela pouca valorização de mulheres, por exemplo”.
Rever as estruturas pastorais exige disposição para avaliar o que ainda faz sentido e o que precisa ser renovado. Isso não significa abandonar a organização, mas sim, fazer com que ela esteja a serviço da missão, e não se torne um obstáculo para ela.
“Na prática, isso significa valorizar mais os leigos na liturgia, na catequese, na formação, na evangelização, na caridade, na coordenação de comunidades e em tantos outros campos da missão. É importante, porém, que haja formação e acompanhamento. Um ministério não pode ser apenas uma função que alguém exerce. Deve ser compreendido como um serviço eclesial, realizado em comunhão com a Igreja e orientado para a missão. Eu acredito que uma Igreja sinodal não é uma Igreja na qual o padre faz tudo e os leigos apenas ajudam. É uma Igreja na qual cada pessoa compreende que possui uma responsabilidade própria na construção do Reino de Deus”.
De acordo com o padre, o modelo “Comunidade de Comunidades” pode ser uma resposta concreta ao desafio de aproximar a Igreja das pessoas.
“Uma paróquia muito grande pode se tornar distante para muitas pessoas. A comunidade menor permite relações mais próximas, um acompanhamento mais humano e uma participação mais concreta. Quando as pessoas se conhecem, rezam juntas, celebram juntas e enfrentam juntas os desafios da vida, a Igreja deixa de ser percebida apenas como um lugar para onde se vai e passa a ser experimentada como uma comunidade à qual se pertence. Ao mesmo tempo, é importante que essas pequenas comunidades não se fechem em si mesmas. Elas precisam estar em comunhão com a paróquia e com a Igreja diocesana. O modelo de uma Igreja articulada em uma rede de comunidades é fundamental para acolher e aproximar as pessoas, sendo a Igreja local o espaço principal onde a comunhão se torna real e concreta”.
Quando as estruturas facilitam a participação e o diálogo, a comunidade expressa de forma mais concreta o desejo de caminhar unida, discernindo a vontade de Deus e anunciando o Evangelho de forma mais próxima e autêntica.
As OSCs - Organizações da Sociedade Civil também podem contribuir para essa mudança de estruturas, com o olhar de fora do ambiente, elas contribuem para a compreensão de novas estruturas por meio de ações realizadas com grupos, fora da Igreja.
Desde 2023, a Casa Galileia tem apoiado o caminho da sinodalidade na Igreja por meio da comunicação e da formação de comunicadores e lideranças. Esse trabalho começou com o monitoramento das conversas sobre o Sínodo da Sinodalidade nas redes sociais, que revelou desafios como a desinformação, a polarização e a dificuldade de compreensão do tema.
A partir desse diagnóstico, nasceu a Casa Emaús, dedicada à produção de conteúdo, materiais formativos e iniciativas que aproximam a sinodalidade da vida das comunidades. Em 2025/2026, esse caminho avançou com a criação do Conexão Emaús, programa que reúne comunicadores de diferentes regiões do Brasil para refletir, aprender e construir, juntos, formas de comunicar a fé com mais escuta, diálogo e participação.
Ricieri Benedetti, coordenador do projeto Conexão Emaús, contou ao A12 como é o trabalho realizado por eles.
“Nas ações da Casa Galileia, a sinodalidade não é trabalhada apenas como um tema a ser explicado, mas como uma experiência a ser vivida. Por isso, buscamos construir processos em que escuta, participação, conversa, discernimento e corresponsabilidade estejam presentes tanto nos conteúdos quanto nas metodologias utilizadas”.
Segundo Ricieri, a sinodalidade se fortalece quando alcança os espaços onde as pessoas convivem e se comunicam. Por isso, a Casa Galileia forma comunicadores para promover o diálogo e enfrentar a desinformação com uma linguagem próxima e acolhedora.
“Uma das contribuições mais importantes do Sínodo foi justamente sua metodologia participativa, especialmente a conversa no Espírito. O processo sinodal mostrou que pessoas de diferentes realidades, territórios, formações, experiências e sensibilidades eclesiais podem se sentar à mesma mesa para escutar, partilhar e discernir juntas os caminhos da missão. Para nós, retomar e adaptar essa metodologia às diferentes instâncias da vida comunitária é uma forma concreta de fortalecer a cultura sinodal”.
Para Ricieri, a Igreja sinodal se fortalece quando as pessoas dialogam, participam e tomam decisões juntas, promovendo maior corresponsabilidade nas comunidades.
“Nossas ações procuram ajudar comunidades, pastorais, equipes de comunicação e lideranças a compreenderem que a sinodalidade não se limita ao funcionamento interno da Igreja. Como recordou o Papa Leão XIV, Deus criou o mundo para que vivêssemos juntos, e “sinodalidade” é o nome eclesial dessa consciência. Essa perspectiva nos desafia a responder, também pastoral e comunicacionalmente, a um tempo marcado por polarizações, desigualdades, fragmentações e pela urgência do cuidado com a Casa Comum.
Assim, trabalhamos a sinodalidade como caminho de conversão pastoral, comunicacional e missionária. Ela nos ajuda a perguntar quem participa, quem é escutado, como as decisões são construídas e de que modo a comunicação pode favorecer encontros, criar pontes e ampliar a corresponsabilidade de todo o Povo de Deus na missão”.
Ricieri destacou que a missão da Casa Galileia vai além da produção de conteúdo e da formação de comunicadores. Seu propósito é ajudar a tornar a sinodalidade uma experiência concreta no dia a dia das comunidades, fortalecendo o diálogo, a participação e a construção coletiva na vida da Igreja.
“Nesse caminho, entendemos que a comunicação é uma das chaves para a conversão sinodal. Não uma comunicação reduzida à divulgação de atividades, mas uma comunicação capaz de escutar os territórios, ler contextos, reconhecer conflitos, construir confiança e criar pontes. Quando uma equipe de comunicação aprende a escutar antes de produzir, quando uma pastoral constrói suas decisões com mais participação, quando uma comunidade cria espaços reais de conversa e discernimento, a sinodalidade começa a ganhar corpo na vida concreta da Igreja”.
As iniciativas da instituição buscam transformar a sinodalidade em prática, promovendo escuta, corresponsabilidade e ação conjunta nas comunidades.
“Acreditamos que rever estruturas pastorais passa por formar uma cultura eclesial mais aberta, corresponsável e missionária, em que a participação de todo o Povo de Deus não seja apenas desejada, mas efetivamente praticada”.
:: Saiba mais sobre o caminho sinodal, acessando A12.com/sinodalidade
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