Por Pe. Paulo Henrique Ribeiro Inácio, C.Ss.R. Em Notícias

A Missão Redentorista em Rodrigues Alves (AC)

A Vice-Província Redentorista de Manaus vem, corajosamente, expandindo suas frentes de missão em terras amazônicas. Apesar do campo de atuação dos Missionários Redentoristas no estado do Amazonas ser amplo e o número de confrades reduzido, abriu-se, em 2013, uma nova frente missionária no estado do Acre, em Rodrigues Alves, no Vale do Juruá. 

Padre Paulo entre crianças de uma comunidade
Padre Paulo entre crianças da comunidade (foto: arquivo pessoal)

Comunidades isoladas sem receber atenção pública

O município de Rodrigues Alves tem uma população de aproximadamente 15 mil habitantes, sendo que 70% vivem nas comunidades rurais/ribeirinhas. Muitas dessas comunidades são praticamente isoladas na floresta tropical. Há bairros povoados, outros praticamente extintos por conta do êxodo rural e da ocupação de grandes fazendas de boi. O povo vive na simplicidade de suas casas, quase todas de madeira, cobertas com telhas de “Brasilit”ou zinco e, sempre muito coloridas.

A principal atividade econômica é a agricultura de subsistência e a pecuária, destacando-se a produção de farinha de mandioca que é o alimento básico da população e para a criação de gado de corte, além do extrativismo vegetal (madeiras, castanhas, açaí, buriti, etc.) e animal (caça e pesca). A alegria de viver do povo consolida a paz dessa terra longínqua, onde todos parecem pertencer a uma família patriarcal.

Percebe-se na região uma carência muito grande, pouco desenvolvimento social: ruas esburacadas, estradas muito mal conservadas, etc. Um descaso muito grande do poder público, seja em nível federal, estadual ou municipal. A população vive oprimida pelo alto preço das mercadorias e poucas oportunidades de emprego, isso porque o setor público é o grande empregador. Devido a essas dificuldades, muitas pessoas dependem, exclusivamente, dos programas sociais do governo federal para sobreviver. Apesar de todas as mazelas, o povo arrisca-se na possibilidade de construir um mundo melhor. 

Os operários são poucos

No campo religioso também não é diferente, a situação é bastante preocupante. A população da Diocese de Cruzeiro do Sul, estimada pelo IBGE de 2001, é de 236.837, totalizando 12 municípios e 12 paróquias. Sua extensão geográfica ocupa partes do estado do Acre e do Amazonas, contabilizando 126.633 km². Poucos são os padres trabalhando na diocese. Entre religiosos e diocesanos são 22. Infelizmente, essa realidade se repete em toda a Região Norte do país. Muitas paróquias ainda não têm sacerdotes; bairros imensos sequer têm uma capela.

Há uma presença bastante significativa de congregações religiosas na diocese. Os pioneiros são os missionários da Congregação do Espírito Santo, estes vindos da Alemanha e da França. Estão presentes no Vale do Juruá, há muito tempo, empreendendo a aventura das viagens missionárias (desobrigas) pelos rios da região. Hoje, são poucos, devido à escassez de vocações, mas continuam firmes na missão que é, para muitos, exigente demais, tendo em mente as adversidades próprias da região.

Estão presentes também os seguintes institutos religiosos: a Congregação das Dominicanas de Santa Maria Madalena (desde 1937); os Irmãos Maristas (desde 1968); a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora (desde 1971); a Congregação das Irmãs Franciscanas do Mártir São Jorge (desde 1972); a Congregação do Santíssimo Redentor (desde 2013). Essas congregações realizam um trabalho diferenciado no campo social, educacional, catequético e missionário nos municípios da diocese. 

Redentoristas chegaram em 2013

A paróquia São José, onde atuamos, é composta por mais de 80 comunidades rurais/ribeirinhas. Além do município de Rodrigues Alves, ela ocupa uma extensa área rural do município vizinho, Cruzeiro do Sul. A muitas dessas comunidades, só se chega de barco, – meio de transporte da maior parte da população, – e o padre só vai uma vez ao ano fazer as “desobrigas”, no período do novenário (festa do padroeiro). Mas é essa visita anual e o protagonismo dos leigos engajados que constituem a força dinamizadora e o sustentáculo necessário da fé do povo ribeirinho.

Os novenários movimentam tanto as cidades quanto as vilas e bairros do interior. É um fenômeno religioso que reúne até milhares de pessoas. Para se ter uma ideia, na procissão de encerramento do novenário de Nossa Senhora da Glória, Padroeira da diocese de Cruzeiro do Sul, participaram, em 2015, mais de 50 mil fiéis. Uma expressão de fé maravilhosa na qual o povo renova sua crença e agradece a Deus pelas graças alcançadas por intercessão da Virgem. Esse é tido como o segundo maior evento religioso de toda a Região Norte do país.

A missão nessa região é exigente, mas necessária. As dificuldades são muitas, diante da vasta extensão territorial e das condições precárias de acesso às comunidades. Além disso, somos apenas três confrades, e os recursos econômicos escassos impossibilitam-nos a um maior dinamismo missionário. Contudo, enfrentamos corajosamente os ramais lamacentos ou poeirentos, rios e igarapés, as picadas dos insaciáveis mosquitos, o calor que não dá trégua, mesmo em período de chuvas: de carro, no barco, a pé, inscrevemos na vida dos cabreiros do nosso tempo a presença do Redentor.

Que Deus, por intercessão de Santo Afonso e da Mãe Aparecida, conceda-nos sempre um espírito de entrega comprometida para irmos ao encontro dos mais abandonados e pobres, os preferidos de Jesus. Afinal de contas, como diz Dom Hélder Câmara: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: A humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E, se para descobri-los e amá-los, é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo”.

A bravura dos Missionários Redentoristas, há quase 75 anos em terras amazônicas, tem-se mantido. E a missão evangelizadora tem caminhado a passos largos. “No Senhor está a Misericórdia e com Ele Abundante Redenção!”. (Sl 130, 7). 

Pe. Paulo Henrique Ribeiro Inácio
Missionário Redentorista

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