Em 1723, quando já despontava como um dos advogados mais célebres de seu tempo, apesar da pouca idade, Afonso de Ligório enfrentou o julgamento mais importante de sua vida. O jovem advogado napolitano era uma estrela em ascensão na advocacia e na sociedade de Nápoles. Conhecido por nunca ter perdido um caso em oito anos de profissão, precisou, inclusive, de autorização do rei para exercer o direito antes dos 20 anos, conforme determinava a lei.
Sob sua responsabilidade estava uma importante disputa feudal, de grande valor econômico, estimada em cerca de 600 mil ducados. O processo colocava o poderoso Duque de Gravina, seu cliente, contra o Grão-Duque da Toscana.
Estima-se que um ducado napolitano da época, principal unidade monetária do reino, tivesse um poder de compra equivalente a cerca de 50 euros atuais, embora o custo de vida, os salários e os preços dos alimentos fossem bastante diferentes dos de hoje. Na Nápoles do século XVIII, os rendimentos variavam muito: um trabalhador comum ou soldado podia ganhar frações de ducado ou poucos ducados por mês, enquanto funcionários públicos, oficiais e membros da nobreza movimentavam centenas ou milhares de ducados por ano.
No centro da disputa estava a posse do feudo de Amatrice. Afonso estudou o processo durante um mês inteiro, analisando cada documento com diligência meticulosa. Convencido da vitória, apresentou-se ao julgamento diante do presidente do tribunal, Domenico Caravita, com grande segurança em seus argumentos.
A narrativa biográfica frequentemente romantizou esse episódio, atribuindo a derrota a uma pequena palavra negativa, um simples “não” que Afonso teria ignorado ao ler o diploma de concessão. Segundo essa versão, o advogado da parte contrária teria apresentado o documento original ao jovem, que ficou atônito ao perceber que toda a sua linha de defesa se baseava em um erro de leitura.
No entanto, a pesquisa histórica do Padre Oreste Gregorio esclareceu que a questão central não foi uma falha gramatical, mas uma complexa discussão de direito feudal. A disputa dizia respeito à natureza da concessão: tratava-se de um feudo antigo, segundo a lei lombarda, ou de um “novo feudo”? Afonso defendia a tese de que era um feudo antigo.
Um documento fundamental, incluído em uma transação de 1693, menos de 30 anos antes do julgamento, continha, entretanto, a cláusula “In novum feudum”. Essa expressão alterava radicalmente a base jurídica do caso e contribuiu para a derrota do jovem advogado.
Alguns estudiosos chegaram a levantar suspeitas de corrupção e de possível suborno do juiz. Contudo, a questão parece estar relacionada a um documento que não foi considerado por Afonso, que pode ter se deixado levar pela certeza da vitória e acabado negligenciando esse elemento decisivo.
O feudo em questão, Amatrice, é hoje uma pequena cidade de aproximadamente 2,2 mil habitantes, situada na província de Rieti, na região do Lácio, na Itália. Conhecida por seu patrimônio natural, histórico e gastronômico, a cidade foi devastada por um forte terremoto na noite de 24 de agosto de 2016, que provocou muitas vítimas e destruiu grande parte do centro histórico. Dez anos depois, o complexo trabalho de reconstrução da comunidade e da cidade ainda está em andamento.
A decepção com a derrota não foi apenas profissional, mas também existencial, desencadeando uma forte crise que demoraria a ser superada. Deixando a corte atônita e fora de si, Afonso pronunciou a famosa frase:
“Mundo, agora eu te conheço... adeus, cortes!”
O que, a princípio, poderia parecer o primeiro fracasso de uma carreira brilhante, obrigando-o a enfrentar a ira e o prejuízo do Duque de Gravina, acabou se transformando em um verdadeiro golpe da Divina Providência. A partir daquele momento, Afonso decidiu trocar a toga pelo púlpito e pelo altar.
Primeiro, veio a decisão de seguir a carreira eclesiástica, apesar da contrariedade de seu pai, que sonhava para ele uma carreira célebre e um casamento promissor. Vieram, então, os preparativos e os estudos teológicos, que o conduziram ao diaconato e à ordenação sacerdotal.
Afonso passou a dedicar sua vida a um intenso apostolado junto aos mais abandonados de Nápoles. Tornou-se um grande pregador, capaz de reunir multidões nas igrejas e capelas por onde passava.
Uma segunda crise surgiu quando começou a questionar a continuidade de sua vida como sacerdote secular, que também poderia lhe garantir um futuro promissor, inclusive com a possibilidade de chegar ao episcopado. A resposta se concretizou em Scala, em 1732, quando fundou a Congregação do Santíssimo Salvador, com o propósito de evangelizar, “de um jeito novo e diferente”, os arrabaldes de Nápoles e a região.
Afonso de Ligório deixou de ser um afamado doutor em leis, mas se tornou um dos santos mais amados e influentes da história cristã, uma das mentes mais brilhantes de seu tempo e um luminar do chamado “século das luzes”.
O ensaio do Padre Oreste Gregorio apresenta um Afonso de Ligório menos lendário, mas muito mais humano: um homem que, por meio da humilhação provocada por uma derrota profissional em uma complexa batalha judicial, encontrou forças para mudar sua vida e se dedicar inteiramente ao serviço de Deus e dos mais pobres.
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Fonte: Instituto Histórico Redentorista
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