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A causa perdida por Santo Afonso: o fracasso que mudou sua vida

Uma derrota judicial marcou a trajetória de Afonso de Ligório e se tornou um momento decisivo em seu caminho de dedicação a Deus e aos mais pobres

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

28 OUT 2026 - 10H59 (Atualizada em 28 OUT 2026 - 14H20)

Reprodução

Em 1723, quando já despontava como um dos advogados mais célebres de seu tempo, apesar da pouca idade, Afonso de Ligório enfrentou o julgamento mais importante de sua vida. O jovem advogado napolitano era uma estrela em ascensão na advocacia e na sociedade de Nápoles. Conhecido por nunca ter perdido um caso em oito anos de profissão, precisou, inclusive, de autorização do rei para exercer o direito antes dos 20 anos, conforme determinava a lei.

Sob sua responsabilidade estava uma importante disputa feudal, de grande valor econômico, estimada em cerca de 600 mil ducados. O processo colocava o poderoso Duque de Gravina, seu cliente, contra o Grão-Duque da Toscana.

Estima-se que um ducado napolitano da época, principal unidade monetária do reino, tivesse um poder de compra equivalente a cerca de 50 euros atuais, embora o custo de vida, os salários e os preços dos alimentos fossem bastante diferentes dos de hoje. Na Nápoles do século XVIII, os rendimentos variavam muito: um trabalhador comum ou soldado podia ganhar frações de ducado ou poucos ducados por mês, enquanto funcionários públicos, oficiais e membros da nobreza movimentavam centenas ou milhares de ducados por ano.

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O mistério do feudo de Amatrice

No centro da disputa estava a posse do feudo de Amatrice. Afonso estudou o processo durante um mês inteiro, analisando cada documento com diligência meticulosa. Convencido da vitória, apresentou-se ao julgamento diante do presidente do tribunal, Domenico Caravita, com grande segurança em seus argumentos.

A narrativa biográfica frequentemente romantizou esse episódio, atribuindo a derrota a uma pequena palavra negativa, um simples “não” que Afonso teria ignorado ao ler o diploma de concessão. Segundo essa versão, o advogado da parte contrária teria apresentado o documento original ao jovem, que ficou atônito ao perceber que toda a sua linha de defesa se baseava em um erro de leitura.

No entanto, a pesquisa histórica do Padre Oreste Gregorio esclareceu que a questão central não foi uma falha gramatical, mas uma complexa discussão de direito feudal. A disputa dizia respeito à natureza da concessão: tratava-se de um feudo antigo, segundo a lei lombarda, ou de um “novo feudo”? Afonso defendia a tese de que era um feudo antigo.

Um documento fundamental, incluído em uma transação de 1693, menos de 30 anos antes do julgamento, continha, entretanto, a cláusula “In novum feudum”. Essa expressão alterava radicalmente a base jurídica do caso e contribuiu para a derrota do jovem advogado.

Alguns estudiosos chegaram a levantar suspeitas de corrupção e de possível suborno do juiz. Contudo, a questão parece estar relacionada a um documento que não foi considerado por Afonso, que pode ter se deixado levar pela certeza da vitória e acabado negligenciando esse elemento decisivo.

O feudo em questão, Amatrice, é hoje uma pequena cidade de aproximadamente 2,2 mil habitantes, situada na província de Rieti, na região do Lácio, na Itália. Conhecida por seu patrimônio natural, histórico e gastronômico, a cidade foi devastada por um forte terremoto na noite de 24 de agosto de 2016, que provocou muitas vítimas e destruiu grande parte do centro histórico. Dez anos depois, o complexo trabalho de reconstrução da comunidade e da cidade ainda está em andamento.

“Mundo, agora eu te conheço”: o nascimento de um santo

A decepção com a derrota não foi apenas profissional, mas também existencial, desencadeando uma forte crise que demoraria a ser superada. Deixando a corte atônita e fora de si, Afonso pronunciou a famosa frase:

“Mundo, agora eu te conheço... adeus, cortes!”

O que, a princípio, poderia parecer o primeiro fracasso de uma carreira brilhante, obrigando-o a enfrentar a ira e o prejuízo do Duque de Gravina, acabou se transformando em um verdadeiro golpe da Divina Providência. A partir daquele momento, Afonso decidiu trocar a toga pelo púlpito e pelo altar.

Primeiro, veio a decisão de seguir a carreira eclesiástica, apesar da contrariedade de seu pai, que sonhava para ele uma carreira célebre e um casamento promissor. Vieram, então, os preparativos e os estudos teológicos, que o conduziram ao diaconato e à ordenação sacerdotal.

Afonso passou a dedicar sua vida a um intenso apostolado junto aos mais abandonados de Nápoles. Tornou-se um grande pregador, capaz de reunir multidões nas igrejas e capelas por onde passava.

Uma segunda crise surgiu quando começou a questionar a continuidade de sua vida como sacerdote secular, que também poderia lhe garantir um futuro promissor, inclusive com a possibilidade de chegar ao episcopado. A resposta se concretizou em Scala, em 1732, quando fundou a Congregação do Santíssimo Salvador, com o propósito de evangelizar, “de um jeito novo e diferente”, os arrabaldes de Nápoles e a região.

Afonso de Ligório deixou de ser um afamado doutor em leis, mas se tornou um dos santos mais amados e influentes da história cristã, uma das mentes mais brilhantes de seu tempo e um luminar do chamado “século das luzes”.

O ensaio do Padre Oreste Gregorio apresenta um Afonso de Ligório menos lendário, mas muito mais humano: um homem que, por meio da humilhação provocada por uma derrota profissional em uma complexa batalha judicial, encontrou forças para mudar sua vida e se dedicar inteiramente ao serviço de Deus e dos mais pobres.

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Fonte: Instituto Histórico Redentorista

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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