Por Padre José Anchieta Tavares, C.S.s.R Em Notícias Atualizada em 12 DEZ 2018 - 08H37

Cordel: Como cuidar de almas e corações feridos

Padre Anchieta Tavares escreveu esse cordel dentro da reflexão sobre a evangelização redentorista em um mundo ferido.

Shutterstock.
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RETRATO DE UM MUNDO DOENTE

Olhando a atualidade, na bruta realidade, em que vive o ser humano,
Sem esforço percebemos que o planeta em que vivemos
Segue sem rumo e sem plano.
A inversão da consciência faz gerar a violência, que onde passa causa dano.
Vai semeando doença, idolatria, descrença, incerteza e desengano.

Deus fez tudo com bondade, “fez nascer a eternidade num momento de carinho”.
Nos fez dotados de fé, fez o homem e a mulher,
Pra ninguém viver sozinho.
Com o seu agir preciso, nos botou num paraíso e nos traçou um caminho.
Nos entregou o universo, mas o pecado perverso nos prendeu em seu domínio.

E foi assim que o pecado, virou mal estruturado e alastrou-se entre nós.
Virou praga matadeira, delinquência sem fronteira,
É o bicho mas feroz.
Esse jeito de ofender invadiu o nosso ser de forma triste e veloz,
Virou comunicação no mundo da relação e nos fez seu porta-voz.

Assim, toda a sociedade virou presa da maldade, que onde chega finca o pé,
Impõe suas condições, envenena as relações,
Sem escrúpulo qualquer.
Dissemina a violência, infecta com indecência, seja homem ou mulher.
Essa doença surgiu, se alastrou e invadiu e 'salve-se quem puder'.

E essa selvageria deixa a humanidade fria, sem piedade e sem amor.
Grandes pisam nos pequenos, quem pode mais chora menos,
Só os grandes têm valor.
Nos palcos da impunidade desfila a banalidade, sem vergonha e sem pudor.
Quem devia governar, inventou de se aliar ao sistema malfeitor.

O mundo está revirado, religião virou mercado, a graça hoje tem preço.
Muitos fiéis iludidos, tantos milagres vendidos,
O céu já tem endereço.
Pilantragem vergonhosa, com pregações enganosas, coisa pior não conheço.
E acredite se quiser, é tudo em nome da fé. A terra virou do avesso.

Vejo que não tem mais jeito, ninguém se dá o respeito, já se foi a educação.
No universo do banal, o derrotismo cultural
Virou letra de canção.
A mensagem apelativa, com letra repetitiva já chegou lá no sertão.
Eu rezo horas inteiras: Deus, leve embora essas sujeiras e devolva o Gonzagão.

No espaço esportivo, eu reflito, apreensivo, vendo a coisa como é.
Um futebol feio e chato, em que só tem pé de rato
E cartolas de má fé.
Eles são ruins de bola, não conhecem a escola de Rivelino e Pelé.
Quando os vejo dando bico, sinto saudade do Zico e do eterno Mané.

No mundo da educação, vejo com apreensão o futuro do Brasil.
A burrice estrutural solapou nosso quintal
E o cenário estudantil.
Escolas são depredadas, as leis são desrespeitadas, a velha ordem sumiu.
Vendo tudo como está, nós podemos constatar que o mundo está doentio.

No tocante à saúde, só um tonto é que se ilude e acha que melhorou.
A coisa está piorando, hospitais estão fechando
E a pobreza aumentou.
Cada vez aumenta o tédio da espera por remédio que o governo não mandou.
Pobre sofre todo dia, esperando a cirurgia, mas o dinheiro acabou.

O pobre sofre amiúde, sem ter plano de saúde para ter atendimento.
O rico pode pagar, tem quarto particular,
Não sabe o que é sofrimento.
O País do carnaval é um País desigual, onde há pobre e avarento.
E essa desigualdade é uma enfermidade que causa dor e lamento.

No campo da moradia, até louco desconfia dos absurdos que há.
Lá tem gente sem escola, passa fome, pede esmola
E não tem casa pra morar.
Um pecado estrutural nega aos pobres um quintal e um espaço pra habitar.
Lá, um clamor indiscreto diz que nosso irmão sem teto merece ter o seu lar.

Na grande população existe uma danação que devia ser banida.
A maldita violência, que traz dura consequência
Aos que lutam pela vida.
As pessoas de bondade se escondem atrás da grade, pelo medo construída.
Nossa gente amedrontada, vive sempre apavorada e não encontra saída.

E falando em sofrimento, quem quer um atendimento não encontra um ombro amigo.
Se alguém quer desabafar, ser ouvido e até chorar,
É visto como um perigo.
Neste mundo desigual, em que tudo é pessoal, há um mal que é antigo:
Ninguém imita Jesus, cada um leva sua cruz e suporta o seu castigo.

Se alguém procura um irmão, pra falar de sua aflição, do seu mundo machucado,
Já se ouve a hipocrisia, indicando terapia
Com quem é qualificado.
Ele engole o seu lamento, esconde seu sofrimento e sai meio desolado,
Pois queria só bondade, amor na gratuidade, não amor terceirizado.

Pra curar um mal antigo, busca em outro ombro amigo o remédio pra sua dor.
E encontra atendimento, pois não foi com pagamento
Que ele recebeu amor.
Ali encontrou remédio, pra curar todo o seu tédio e todo aquele pavor.
Como uma ovelha ferida, ele encontrou acolhida no ombro de outro Pastor.

Nesta triste realidade, falta sensibilidade pra acudir quem está sofrendo.
No mundo do egoísmo, reina o individualismo;
Nosso amor está morrendo.
Cada um só quer ganhar, pra isso tem que lutar e o tempo está correndo.
Não é loucura, nem engano; nos falta um samaritano pra ouvir quem está gemendo.

Na opção que fizemos, muitas vezes nós sofremos com nossos próprios pecados.
Fazemos e desfazemos, e às vezes nos esquecemos
Que também somos julgados.
Tratamos com aspereza, sem bondade e com dureza nossos irmãos consagrados.
Agimos como leões, invadimos corações e os deixamos machucados.

Na convivência diária, uma lepra hereditária afeta o nosso agir.
A tal da maledicência, tem uma forte potência
Pra manchar e denegrir.
Com seu jeito ardiloso, faz comentário maldoso com força pra destruir
Tacha o nosso pobre irmão, que apesar da vocação, ele pensa em desistir.

A inveja destruidora, também é a causadora desse mal que nos afeta.
Ela provoca intriga, desconfiança e briga;
Sua maldade é discreta.
É uma praga perigosa, é serpente venenosa, sua ruindade é completa;
Puxar pessoas pra trás, sujar o que o outro faz é sua arma predileta.

O ciúme desmedido é outro mal embutido na consciência da gente.
É um sentimento feio, que se instala em nosso meio
Deixa a pessoa doente.
A doença do ciúme é algo que se resume como um ser deficiente
Quem tem ciúme tem medo, não sabe guardar segredo e é muito impertinente.

Há também a vaidade, que vem com tudo e invade nossos puros pensamentos
Chega impondo sua norma, nos envolve e nos transforma
Muda os nossos sentimentos.
A busca pelo poder e a ganância pelo ter são nossos contentamentos
Com isso nos esquecemos do lugar onde nascemos e ficamos avarentos.

Com o impulso da vaidade, se temos autoridade, somos diferenciados
Carro novo em nossa mão, dinheiro à disposição
E outros bens reservados.
Esses males perigosos, que nos deixam vaidosos, nos mantêm escravizados
A vaidade causa danos, nos faz viver de enganos e nos deixa enfeitiçados.

A maldita prepotência e a auto suficiência também causam danação.
Há elemento empinado, porque é mais estudado
Ofende sem compaixão.
Arrota sabedoria, não aceita companhia, vai sempre na contra mão
Esquece que algum dia vamos fazer moradia debaixo do mesmo chão.

A disputa vergonhosa é outra peste danosa que invadiu nosso meio.
Há sujeito à toda hora correndo sempre por fora
No embalo do devaneio.
Usa o fim como proposta, apunhala pelas costas e não tem nenhum receio
Vai sem ver o mal que faz, passando os outros pra trás e não acha isso feio.

A falta de humildade é outra triste verdade que temos que encarar.
Geralmente é quem foi pobre, que se reveste de nobre
Se camufla pra esnobar.
Usa seu potencial de ser sujeito do mal para ferir e pisar
Esse tipo de pessoa não pode ser coisa boa e nunca vai melhorar.

Outro veio da maldade chamada infidelidade, eu não posso esquecer
Esta age com lisura, deixa nossa estrada escura
Faz a gente se perder.
Nos coloca em confusão, provoca decepção, problemas pra resolver
Mancha nossa integridade, fere nossa identidade, nosso sim e o nosso ser.

Outro mal que causa arraso, é o chamado descaso, tenho que salientar.
É doença enraizada, é uma marca registrada
Ninguém pode duvidar.
A triste realidade apresenta propriedade começando a se estragar
Quem olha com mais cuidado percebe prédio estragado prestes a desmoronar.

Outro fruto da maldade, a danosa falsidade impregnou o nosso agir.
Essa gente causa medo, não sabe guardar segredo
E tem fama de fingir.
Não usa a consciência, ignora a confidência de alguém que quis se abrir
Aborta nossa esperança, não inspira confiança, é falso até no sorrir.

Em nossa sociedade, a ausência da verdade provoca destruição.
A pessoa mentirosa, é serpente perigosa
E mãe da corrupção.
A mentira causa briga, provoca ódio e intriga, faz surgir separação
Quem mente não tem moral, caminha num lamaçal, é estada de perdição.

Querer ser dono do alheio, esse é o vício mais feio que mancha o nosso ideal.
Numa atitude tão feia, mete a mão na coisa alheia
E acha tudo normal.
Essa coisa doentia, também chamada mania, que é doença universal
Desvia o comportamento, causando constrangimento e mancha a nossa moral.

Nosso mundo está doente; é mundo feito de gente, é obra da criação.
Deus criou tudo perfeito, planejou com muito jeito
E indicou a direção.
Mas chegou o triste dia, em que o homem, sua cria, levado pela ilusão,
Com o apoio da mulher, desvirtuou sua fé, e assim nasceu a ambição.

A autossuficiência, mãe de toda violência, autora de todo mal,
Confundiu o ser humano, chegou ditando seu plano,
Fez ali o seu quintal.
Esbanjando competência, invadiu a consciência, sem precisar de aval.
Com seu jeito dominante, fez nascer, naquele instante, nossa doença moral.

Num momento inesperado, apareceu o pecado, pra trazer destruição.
Prontos pra fazer besteira, o homem e a companheira
Mancharam a reputação.
E o casal iludido, vendo o fruto proibido, cedeu à corrupção.
Hoje nos resta a esperança: para que haja mudança, tem que haver a Conversão.


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