Por Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. Em Palavra Redentorista

Permaneça conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina!

biblia

No mês de setembro a Igreja dedica-o à Bíblia, relembrando à comunidade cristã a importância para o cultivo da vida espiritual tanto individual, quanto comunitária. Neste texto, buscarei refletir sobre o encontro de Jesus com a comunidade de Emaús, quando partilhavam a Escritura.

Escrituras, comunidade e partir o Pão

O relato de Lucas 24, 13-35, conhecido como os discípulos de Emaús é belíssimo. Relata a esperança humana despedaçada, sem rumo, em busca de sentido e o reconhecimento pela comunidade da pessoa de Jesus.

Após o diálogo sobre os últimos acontecimentos, os discípulos são interpelados pelo Mestre: Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! (v.25) A chamada de atenção é porque ainda não haviam assimilado em suas consciências o que de fato fora a vida de Jesus.

O texto é rico em detalhes, mas interessa-nos um momento crucial. Permanece conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles (v. 29).

A comunidade desiludida que ouviu a Escritura (=o próprio Cristo) ainda nãotinha tomado consciência plena da missão de Jesus. Ele era ainda o estrangeiro. Mas o coração ainda duvidoso, ardente, desconfiado, convida-o para permanecer.Foi no encontro relacional que os olhos deles se abriram para compreender o significado daquela realidade.

É da releitura que fazem, ouvindo de Jesus, de toda a caminhada da história de libertação e de salvação, começando por Moisés e pelos Profetas que entendem a Ressurreição de Jesus e a libertação de si próprios.

E é na Páscoa, que celebram juntos, depois de caminharem ao lado do Mestre, que chegam a reler este acontecimento, testemunhando a revelação de Jesus e à afirmação de que Jesus está mais vivo do que nunca.

Eles crêem que essa morte não foi em vão, mas caracteriza-se como um novo sopro vital. Re-significam a morte de Jesus e aquilo que parecia ser o abandono de Deus não o foi, pois a ressurreição era a prova de que Deus estava com Ele.

Não obstante, o mundo não O entendeu, porque foi capaz de condenar e matar o Justo, de tal maneira que Ele morreu como um blasfemo, alguém que compreendeu e falou erroneamente de Deus. Contudo, Deus-Pai se lembrou Dele e deu-Lhe o máximo de vida, de modo que coloca o mundo em julgamento.

Desse modo, a ressurreição é a última palavra de Deus sobre a morte. Renasce neles a esperança e estes não têm mais medo.

Os discípulos sentem a força do Espírito Santo e começam a refazer o caminho de Jerusalém à Galiléia, onde Jesus iniciou sua missão, e a reinterpretar sob um outro prisma, bem como a perceber a maneira como Jesus viveu.

Relêem a vida histórica de Jesus e percebem que Ele transformou a vida das pessoas. Agora, o Cristo pascal se revelava para eles na itinerância da fé e, paulatinamente, ia sendo compreendido à luz da vida que desceu à mansão dos mortos.

Assim, a ressurreição compromete a comunidade discipular. Eles renascem para uma vida nova e isto requer deles a maximização da fé-esperança e um olhar prospectivo, de tal modo que eles começam a falar de várias maneiras sobre Jesus, tendo como núcleo o evento pascal.

Repartir o pão e partir...

Os discípulos, isto é, a comunidade reconhece Jesus no partilhar do pão. Recorda a capacidade generativa de produção de vida, na Vida que não mais tem fim.

A partir daí, podemos perguntar: e nós, como estamos a praticar nossa partilha: cotidiano de vida – estudos, trabalhos, relações humanas e como reconhecer Jesus no partir do pão, se muitas vezes não há pão? Ou como reconhecer Jesus no pão que não é partilhado e fruto da exploração?

É preciso olhar os crucificados que a história tem produzido nas mais diferentes contradições históricas…os sem-pão que passam fome porque muitos o comem até regurgitarem. Frente a este escândalo é preciso voltar ao núcleo de nossa fé à Escritura que tornar-se-á letra morta se não for lida, rezada, meditada, contemplada.

Jesus pôs-se à mesa com eles, lugar da relação, tomou o pão, abençoou, depois partiu-o e distribuiu-o. Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele porém, ficou invisível diante deles. (vv. 30s). E o ápice é o reconhecimento do Senhor no partir do pão.

Partir tem duplo significado: o pão que se reparte, divide-se, parte em direção ao irmão, ao sem-pão, reforçado pelo verbo distribuir.

Agora o Mestre fica invisível, não precisam mais de uma suposta presença física. Quem o faz, perdeu as escamas dos olhos e tem a segurança de dizer: permaneça conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina!

Este já foi capaz de romper com a escuridão, com todos os medos e reconhecer Jesus. No partir do pão os discípulos renunciaram ao projeto de serem privilegiados, e aprenderam do Mestre o Lava-pés (Cf. Jo 13, 1-17).

A volta para Jerusalém

O texto apresenta-nos, após o reconhecimento, um movimento: levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam os onze reunidos e disseram que o Senhor havia ressuscitado e aparecido a Simão (v. 34). Por que voltam a Jerusalém? No início do texto estavam a sessenta estádios (11 km) de Jerusalém, mantinham certa distância...

Voltar a Jerusalém significa superar a fé primeira, ingênua, e recuperar todas as esperanças perdidas, ir ao centro do poder opressor e reafirmar que a vida venceu a morte e reafirmar a fé na ressurreição.

Jerusalém matou os profetas e Jesus. Sub-repticiamente o texto quer afirmar que o Crucificado é o ressuscitado e que de modo algum, a ressurreição tira-lhe esta característica.

Imprime um caráter de realismo e densidade teológica ao texto, pois os discípulos ganham coragem de ir ao centro do poder da morte e de onde, com a força da comunidade, das Escrituras e da Eucaristia saem anunciando às nações, porque estão repletos, plenos do Espírito Santo (At 2,1-14).

Se cada um de nós fizer a experiência pascal dos discípulos de Emaús, nutrindo nossa vida espiritual com a palavra e com o partir do pão em comunidade, podemos dizer com confiança: Permaneça conosco, Senhor, nem tudo está perdido! Seremos sinais da sua presença transformadora de vida.

Entretanto, se o medo for maior do que a graça da ressurreição e o nosso rosto for sombrio, continuaremos a caminhar com ele na incredulidade e nem permitiremos que ele nos chame à realidade: insensatos e lentos de coração para crer.

Escrito por
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R. (Foto Deniele Simões JS)
Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R.

Redentorista, formado em filosofia e teologia, graduado com doutorado em Teologia Moral. Lecionou no ITESP e na Academia Alfonsiana de Roma. Atualmente é Conselheiro do Governo Geral da Congregação Redentorista.

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Por Luis Henrique Santos Ribeiro, em Palavra Redentorista

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