A vocação, à luz da Sagrada Escritura e da tradição teológica da Igreja, é um mistério profundamente enraizado no coração de Deus. Não se trata simplesmente de uma escolha humana ou de um projeto pessoal construído ao longo da vida, mas de um chamado divino que precede a própria existência. Chamado esse que nasce de sua iniciativa amorosa e cheia da graça de Deus.
O testemunho do profeta Jeremias revela essa verdade com profundidade singular: “Antes de te formar no seio materno, eu te conheci” (Jr 1,5). Esta Palavra manifesta que a vocação nasce na eternidade do amor divino. A existência humana não é fruto do acaso, mas expressão de um desígnio providente, no qual cada pessoa é pensada, amada e chamada por Deus para uma missão única. Assim nos exortou São João Paulo II, afirmando que “toda vocação cristã encontra seu fundamento na eleição eterna de Deus” (Pastores Dabo Vobis, n. 34). Tal perspectiva confirma que o chamado vocacional é iniciativa divina e não mera construção subjetiva.
No horizonte bíblico, ser chamado significa entrar numa relação pessoal com Deus, que conhece integralmente a criatura. O verbo “conhecer”, nas Escrituras, ultrapassa a ideia de simples informação intelectual; refere-se a uma relação íntima, amorosa e eletiva. Deus conhece Jeremias em sua totalidade — suas forças, fragilidades, medos e limites — e, mesmo assim, o escolhe. Isso revela uma dimensão essencial da vocação cristã: ela não depende, em primeiro lugar, dos méritos ou capacidades humanas, mas da iniciativa gratuita de Deus. Antes de qualquer resposta humana, existe sempre a precedência da graça.
Tal como afirma Santo Agostinho: “Não fostes vós que me escolhestes, mas Eu vos escolhi; eis a graça, eis o fundamento” (In Ioannis Evangelium Tractatus, 86,1). São Tomás de Aquino também ensina que “a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa” (Summa Theologiae, I, q.1, a.8 ad 2), indicando que Deus chama a pessoa concreta, com sua história real, e nela opera sua obra santificadora.
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Entretanto, diante da grandeza do chamado, emerge a fragilidade humana. Nosso querido Papa Bento XVI observou que “quem entra na vontade de Deus não perde nada, mas encontra a plenitude da verdade sobre si mesmo” (Homilia, 24 de abril de 2005). O medo vocacional, portanto, não é sinal de ausência de chamado, mas espaço onde a confiança pode amadurecer.
Nosso saudoso Papa Francisco reforçou essa verdade ao afirmar: “Toda vocação nasce daquele olhar de amor com que o Senhor veio ao nosso encontro” (Mensagem para o 57º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 2020). Assim, discernir a vocação é aprender a escutar profundamente a voz de Deus e confiar em sua fidelidade mais do que nas próprias forças.
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Nessa esteira do chamado desde o nosso seio materno, à luz do profeta Jeremias, vem ser iluminada pelo Papa Leão XIV:
“A vocação, na verdade, não é uma meta estática, mas um processo dinâmico de amadurecimento, favorecido pela intimidade com o Senhor: estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida e reler tudo à luz do dom recebido significa crescer na vocação. A vocação, portanto, não é uma posse imediata, algo “dado” de uma vez por todas: é antes um caminho que se desenvolve de forma análoga à vida humana, em que o dom recebido, além de ser guardado, deve alimentar-se de uma relação quotidiana com Deus para poder crescer e dar fruto. “Isto tem um grande valor, porque coloca toda a nossa vida diante de Deus que nos ama, permitindo-nos compreender que nada é fruto dum caos sem sentido, mas, pelo contrário, tudo pode ser inserido num caminho de resposta ao Senhor, que tem um projeto estupendo para nós” (Mensagem para o 63º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 2026).
Afinal, o Senhor Deus de amor que nos chamou nos conhece desde o seio materno.
Ir. Maria Rita da Silva
Irmãs Mensageiras do Amor Divino
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