O tema da vocação perpassa a compreensão do ser humano segundo as Escrituras. Desde suas primeiras páginas, a Bíblia expressa claramente que o ser humano foi criado com uma destinação, como parceiro de Deus, capaz de entrar em relação com o seu Criador (cf. Gn 1,26). Mais tarde, essa concepção se amplia e se aprofunda através da ideia de uma eleição ou vocação. Ao ser humano, Deus dirige um apelo, confiando-lhe uma missão específica.
Vemos essa estrutura presente em diversos relatos, seja associada a indivíduos específicos ou de modo coletivo, como na história dos patriarcas, com Moisés, os juízes, os profetas, os reis de Israel e o próprio povo de Israel. Também no Novo Testamento encontramos a mesma noção, como no chamamento dos doze por parte de Jesus (cf. Mc 3,13-19), ou na experiência do apóstolo Paulo (cf. At 9,1-22; Gl 1,11-16). Esses relatos elucidam que a iniciativa da escolha é sempre de Deus, fruto de sua benevolência e segundo os critérios que só Ele conhece. Por outro lado, do ser humano se espera a abertura, a fim de que o eleito engaje sua liberdade na consecução do chamado.
Essa estrutura está presente, por exemplo, no chamamento do profeta Jeremias, que estamos meditando nesta 57ª Semana Vocacional. Em sua experiência vocacional, Jeremias foi chamado a encarnar a Palavra, tornando-se seu porta-voz, num contexto particularmente difícil na história do povo de Israel. Nesta experiência sobressaem dois momentos que estão intimamente relacionados, a escolha e a consagração. O profeta relata aquilo que é fruto de sua própria experiência da Palavra de Deus: “Antes que te formasse no seio de sua mãe, eu te conheci, antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jr 1,4-5). Desse modo, fica evidente que toda vocação surge de uma experiência concreta de fé, e não como mera ideia ou empreendimento humano desprovido de realidade.
De acordo com a perspectiva bíblica, há uma precedência da escolha sobre a existência, assim, todo chamado a uma missão específica só se torna possível porque há uma escolha fundamental. A eleição não se dá exclusivamente em função da missão que o profeta irá assumir, como se fosse algo meramente instrumental, pois “o Deus da vida tem para cada vivente um plano de amor, que, no caso da criatura humana, passa por um chamado e por uma livre resposta de aceitação ou de rejeição” (Bruno Forte). Sendo assim, pode-se dizer que na criação de cada um de nós, se atualiza a ação criadora de Deus ao criar o primeiro ser humano, segundo sua imagem e semelhança. Essa escolha é sempre um dom que nos antecede, fruto do pensamento e do amor de Deus por nós, e devemos viver para corresponder a essa escolha, pois só assim alcançaremos nossa realização essencial.
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Porque nossa vida pertence a Deus, somos íntimos d’Ele, chamados a viver para Ele, há também uma eleição específica, pois Deus imaginou algo especial para cada um de nós, e cada qual atualizará na particularidade de sua existência o chamado divino. Esta escolha não deve ser entendida como algo pré-fixado, pré-determinado, ao qual devamos nos conformar passivamente, mas implica em nossa aceitação na liberdade. Todo dom supõe uma tarefa, ou seja, o engajamento e a atualização do dom em nossa vida. Tanto é assim que os relatos sempre apresentam junto a percepção do chamado, também os traços da liberdade, da dúvida, do medo, da objeção, do pedido de explicação por parte daquele que é interpelado.
Também o profeta Jeremias apresenta objeções: “Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou apenas um menino”. Essa objeção de Jeremias e de tantos outros evidencia que esta escolha não é uma imposição ou condicionada aos possíveis atributos ou qualidades excepcionais que tenhamos. Os relatos sempre frisam a grandiosidade do chamado, o desafio da missão e o sentimento de pequenez ou inadequação do escolhido. A eleição ou escolha é, portanto, um ato imerecido, obra do próprio Deus, que se aceito com liberdade e generosidade por parte do parceiro humano, será um caminho de sentido e autorrealização. Em cada escolha há sempre um dom (“O Senhor estendeu a mão, tocou-me a boca e disse-me...”) e uma promessa (“Não tenhas medo deles, pois estou contigo para te livrar”), que capacitam e encorajam aquele que foi chamado.
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Uma vez aceito o desafio do chamado, há uma consagração em vista da realização da missão. O termo “consagração”, retirado do contexto cultual religioso, supõe a noção de separação ou purificação, isto é, Deus escolhe e separa algo ou alguém para que estejam sob o âmbito de sua santidade e, assim, sejam sinais de sua presença no mundo. Como em outros relatos sobre a vocação profética, logo após a objeção apresentada por Jeremias, o profeta experimenta uma espécie de teofania: “O Senhor estendeu a mão, tocou-me a boca e disse-me: ‘Eu ponho as palavras na tua boca. Vê: hoje eu te constituo sobre nações e reinos, para arrancar e para derrubar, para devastar e para destruir, para edificar e para plantar” (Jr 1,9-10).
Essa experiência vivida por Jeremias o consagra e o capacita para o serviço profético, doravante será a palavra viva de Deus. A consagração evidencia que a vocação supõe um caminho de dedicação a Deus, que cresce e se aprofunda à medida em que nos abrimos à graça santificadora. De igual modo, convida a deixar-se transformar e conduzir por Deus, porque Ele sabe operar com instrumentos limitados e insuficientes, fazendo-os sempre mais aptos e capazes. Embora “separado”, isto é, posto a serviço do Senhor, isso não alça o eleito a uma posição superior, como se fosse melhor ou mais importante que os demais, pois esta consagração é sempre para o serviço do povo, nunca para o benefício próprio.
Na vida do profeta Jeremias, encontramos dois momentos comuns a toda história vocacional: a escolha e a consagração. Assim, em nosso próprio chamado, nas circunstâncias próprias da nossa vida, somos convidados a experimentar a dom dessa escolha e a força da consagração, que nos capacita para toda boa obra.
Pe. Rodrigo Costa
Missionário Redentorista
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