Olhando para as Sagradas Escrituras, encontramos histórias inspiradoras que relatam os encontros de tantos homens e mulheres com Deus. Ele chama, revela uma missão e envia. Ainda hoje continua a falar aos nossos corações, apresentando-se no cotidiano de nossas vidas e chamando-nos pelo nome. Discernir o chamado e acolhê-lo no coração é a atitude esperada pelo Senhor. A disponibilidade interior permite que Ele siga realizando seu projeto no mundo através da nossa colaboração, ainda que sendo frágeis e limitados. O Senhor, mesmo conhecendo os nossos medos e incertezas, confia-nos uma missão e nos garante que permanecerá ao nosso lado em todo o tempo e até o fim.
O profeta Jeremias, que tem nos inspirado nessa 57ª Semana Vocacional, nasceu no ano de 650 a.C em Anatote, e sua família era responsável por cuidar de um santuário, inclusive o seu pai era um dos sacerdotes. Desde cedo, o jovem teve proximidade com o sagrado. Sua vocação de profeta nasce da intimidade com o Senhor que o consagrou e já o conhecia ainda no ventre de sua mãe (v.5). Enfrentou muitos desafios num contexto de exploração e opressão, resistência e domínio, mas seguiu confiante Naquele que o chamou, e todos os dias de sua vida foram consumidos por uma única causa: anunciar a verdade de Deus. Recebe do Senhor o mandato de ir para arrancar e demolir, mas também edificar e plantar. Como entender essa realidade?
O profeta é o porta-voz de Deus e leva um anúncio de conversão e vida nova. Muitas vezes precisa anunciar em realidades insensíveis, resistentes à conversão e dominadas pela lógica do mundo. A Palavra proclamada precisa chegar às profundezas do coração. Não basta repetir frases, slogans e citações bíblicas. É preciso assumir o compromisso de quem deseja criar nos ambientes e nos corações uma condição minimamente acolhedora para que a semente lançada possa um dia germinar. Essa missão exige purificar e renovar os corações e as mentalidades para que o novo aconteça e seja possível o despertar para uma vida na graça de Deus.
Recorda que no Novo Testamento Jesus dizia que não se deve colocar “remendo novo em pano velho”? (Mt 9, 16) ou ainda na mesma parábola “Vinho novo em odres velhos”? (Mt 9,17). E quando Jesus conta a Parábola do semeador que encontrou diversos tipos de solos ao lançar a semente? No caso dos solos, eles não podem ser vistos como um estado imutável. Pensemos em um estágio de transição. O mensageiro de Deus deve arrancar espinhos, retirar pedras, adubar, possibilitando o encontro verdadeiro com Deus. Esses textos nos ajudam a entender essa preparação necessária para que a missão seja eficaz. Palavras de Jesus que explicitam a necessidade da renovação, o abandonar as coisas antigas para acolher o novo. Trabalho exigente e persistente que requer tempo, paciência, compromisso e confiança em Deus. Arrancar o pecado, as ideologias contrárias ao Reino, o egoísmo e a indiferença que fere e mata. Destruir estruturas que excluem, oprimem e sufocam o projeto de Deus.
:: Em agosto, reze todos os dias a oração vocacional
Algo ainda chama atenção nesse mandato do Senhor ao profeta Jeremias. Sua missão não se encerra no arrancar e destruir, mas precisa também dar a sua vida para edificar e plantar. Podemos perceber que seu apostolado desenvolve-se em um processo crescente. O arrancar é em vista do novo que será plantado e carrega a esperança de aproximar as pessoas de Deus. Já dizia um Missionário Redentorista bem experiente: “Se não irá dedicar tempo para construir, não destrua!”. É preciso ter a consciência desse atributo como no todo. Em tempo de facilidades virtuais, talvez seja fácil arrancar e destruir. Apontar erros, julgar comportamentos, a partir de citações do Catecismo e das Escrituras, acendendo alertas de culpas, mas sem abrir espaço para o que verdadeiramente importa e é o objetivo da profecia: Possibilitar que as pessoas abracem um caminho maduro e sadio de conversão, despertando-se para o seguimento autêntico a Cristo e para a vida em comunidade.
A realização vocacional não está no destruir, mas no plantar. É preciso ter muito cuidado para que não sejamos traídos pelo nosso ego no prazer de apenas desfazer, por isso o profeta vivia na escuta atenta da Palavra de Deus, realizando não a sua vontade, mas aquilo que o Senhor desejava. O melhor seria que nada precisasse ser destruído por já nos encontrarmos em uma realidade de fidelidade e abertura à Palavra de Deus. Porém, não é assim que vivemos, e precisamos realizar neste momento da história, com os desafios próprios deste tempo, a nossa missão no mundo.
Todos nós, neste mês vocacional, devemos revisitar o chamado que o Senhor nos fez desde o ventre materno e que, no caminho da vida, fomos tomando consciência e nos permitindo vivê-lo. É preciso responder com amor e compromisso a cada dia o nosso sim, tendo consciência da árdua tarefa, mas ao mesmo tempo fortalecidos e confiantes da presença do Senhor ao nosso lado, para que possamos, inspirados pelo profeta, viver como anunciadores da verdade do Evangelho num mundo de tantas fake news e ilusões.
:: A vocação redentorista é uma resposta de amor
É preciso sermos homens e mulheres destemidos na denúncia de todo sistema que fere a dignidade humana, alimenta o ciclo de violência e morte, favorece a injustiça e constrói muros. É preciso semearmos incansavelmente o amor, a esperança, a paz e os valores do Reino que aprendemos na escuta atenta da Palavra de Deus.
Recordemos, ao final dessa reflexão, do trecho da canção inspirada na vocação de Jeremias e cantada em tantas comunidades neste tempo vocacional: “Tenho que gritar, tenho que arriscar, ai de mim se não faço. Como escapar de ti? Como calar? Se tua voz arde em meu peito.”
Pe. Marcos da Silva Santos
Missionário Redentorista
Solenidade do Santíssimo Redentor é celebrada pelos redentoristas
Na solenidade do Santíssimo Redentor, Dom Alfonso Amarante, C.Ss.R., destacou a Copiosa Redenção e a misericórdia de Deus como centro da missão redentorista.
“Levanta-te e vai dizer o que eu te ordenar”
Levantar-se significa colocar-se diante de Deus e da vida com coração novo e disponível para servir; é assumir a fé de forma autêntica e comprometida.
“Ponho em tua boca minhas palavras”
Mesmo diante da incapacidade e da imaturidade que permeava o coração do jovem Jeremias, Deus o capacita para a missão divina de transmitir a sua mensagem.
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