Os 40 anos da ordenação episcopal de Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis foram celebrados em ação de graças no Santuário Nacional de Aparecida, durante a Semana Nacional da Vocação Sacerdotal, que neste ano também recorda a vocação episcopal.
A celebração reuniu bispos, padres, religiosos, missionários redentoristas, autoridades e milhares de fiéis para agradecer pelas quatro décadas de ministério do arcebispo emérito de Aparecida, que conduziu a Arquidiocese entre 2004 e 2017.
Estiveram presentes o reitor do Santuário Nacional, Pe. Eduardo Catalfo, C.Ss.R.; o ecônomo do Santuário Nacional, Pe. Fábio Evaristo, C.Ss.R. e demais missionários redentoristas; padres da Arquidiocese de Aparecida; Dom Orani João Tempesta, O. Cist., arcebispo do Rio de Janeiro; Dom Antônio Luiz Catelan, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro; Dom Mário Antonio da Silva, arcebispo de Aparecida; Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida e Dom Joaquim Wladimir, bispo da Diocese de Lorena.
Mais do que recordar fatos da própria história, Dom Damasceno transformou a liturgia do dia em uma leitura de sua caminhada como bispo. Cada oração, leitura e trecho do Evangelho serviu como ponto de partida para refletir sobre o sentido do episcopado.
Uma vida iniciada pela graça
A homilia começou a partir da antífona de entrada da missa e do Evangelho da mulher cananeia. Em ambos, aparece a mesma súplica: "Senhor, socorre-me".
Dom Damasceno explicou que essa oração resume também sua experiência enquanto pastor e bispo desta Igreja.
"Ao recordar 40 anos de ministério episcopal, nos quais 13 vivos a serviço dessa querida arquidiocese de Aparecida também eu desejo começar assim: 'Senhor, socorre-me'. Essa ação de graças quer ser uma confissão humilde de que tudo nasceu da graça, tudo foi sustentado pela graça e deve ser a ela atribuído."
A reflexão prosseguiu a partir da Primeira Leitura do profeta Jeremias (Jr 31,1-7), na qual Deus afirma: "Amei-te com amor eterno". Segundo o cardeal, toda vocação nasce dessa iniciativa divina.
"Antes de qualquer resposta nossa está o amor de Deus, antes do ministério está a vocação, antes do ofício está a graça."
Ao recordar sua trajetória, Dom Damasceno reconheceu que a missão episcopal continua sendo uma obra construída diariamente por Deus.
"Ao olhar para esses 40 anos vejo uma história de graça, responsabilidade, aprendizado, esperança e contínua construção pela mão de Deus, e os 13 anos vividos em Aparecida permanecem em meu coração como um dom precioso dessa fidelidade."
Inspirado pelo Salmo e pelas palavras de Santo Agostinho, Dom Damasceno refletiu sobre o verdadeiro significado do ministério episcopal.
"Para vós sou bispo, convosco sou cristão."
Em seguida, destacou que a responsabilidade de um bispo nunca pode ser compreendida como privilégio.
"Antes de ser bispo, sou cristão. Antes de qualquer responsabilidade está o Batismo, a dignidade de filho de Deus. Bispo é nome de ofício e de responsabilidade, cristão é nome de graça, salvação e comunhão."
Ao explicar essa dimensão do serviço, recordou que cabe ao bispo anunciar a Palavra, celebrar os Sacramentos, fortalecer a unidade da Igreja, acompanhar os pobres, consolar os que sofrem e conduzir o povo a Cristo.
O Evangelho da mulher cananeia também levou Dom Damasceno a falar da missão da Igreja diante do sofrimento humano.
Para ele, o pedido dos discípulos de que "mande embora essa mulher" continua sendo um alerta para todas as comunidades cristãs.
"A dor humana nem sempre chega de modo organizado, silencioso ou conveniente", afirmou.
Ao relacionar essa passagem com a realidade do Santuário Nacional, destacou que milhares de romeiros chegam diariamente trazendo histórias marcadas pela esperança, pela dor e pela busca por Deus.
"A missão dessa Igreja é ajudar cada pessoa a perceber que Deus está próximo e que Maria Santíssima caminha com seus filhos."
Ele também recordou que Aparecida recebeu uma missão especial. "Aparecida foi agraciada para servir, foi honrada para acolher."
Nesse contexto, agradeceu o trabalho dos missionários redentoristas e destacou ainda a importância da Rede Aparecida de Comunicação, que levam diariamente as missas para hospitais, casas, comunidades distantes e pessoas impossibilitadas de peregrinar até o Santuário.
Ao comentar a imagem das migalhas mencionadas pela mulher cananeia no Evangelho, Dom Damasceno voltou o olhar para a Eucaristia.
"Na liturgia, Cristo não nos oferece apenas migalhas, mas a si mesmo."
Segundo ele, diante da mesa eucarística desaparecem os títulos e funções.
"Na celebração eucarística, os ministérios se distinguem na ordem do serviço, mas todos são reunidos na única dignidade de filhos e filhas de Deus."
O cardeal dirigiu ainda uma palavra aos leigos, lembrando que a missão da Igreja continua diariamente nas famílias, nos ambientes de trabalho, nas escolas, na política, na economia e em todos os espaços onde o Evangelho pode ser testemunhado.
Já próximo ao fim da homilia, Dom Damasceno comparou seus 40 anos de episcopado à oração das oferendas. "Celebrar 40 anos de episcopado é colocar novamente a vida sobre o altar."
Também fez um pedido de perdão.
"Se em algum momento falhei no serviço, se não soube escutar, se minhas palavras, decisões e omissões feriram alguém, peço perdão."
Encerrando a reflexão, confiou sua missão à intercessão de Nossa Senhora Aparecida.
"Que Nossa Senhora Aparecida nos ensine a transformar toda graça em missão, toda devoção em caridade e toda celebração em compromisso."
Após a homilia, representantes da Arquidiocese de Aparecida e dos Missionários Redentoristas prestaram homenagens ao cardeal.
Em nome da Arquidiocese, Pe. André Gustavo destacou a proximidade de Dom Damasceno com o clero e o povo.
"Quero agradecer ao senhor pela dedicação, pela oferta da vida, por nos ensinar aqui nesse chão a amar ainda mais a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fomentar a nossa devoção, a nossa espiritualidade mariana, por todo o bem que o senhor aqui fez e continua fazendo com a sua presença, seu testemunho, sua fidelidade, sua sabedoria, sua coragem e determinação."
Representando os Missionários Redentoristas, Pe. Fábio Evaristo, C.Ss.R. ressaltou o testemunho deixado pelo arcebispo emérito.
"Quando nos lembramos de Dom Raymundo, não nos vem primeiro à memória somente das importantes responsabilidades que o senhor exerceu na Igreja. Recordamos antes o pastor sereno, homem da escuta, bispo da comunhão, o cardeal cuja autoridade sempre se expressou pela simplicidade."
Como sinal de gratidão, entregou ao cardeal uma cruz peitoral com os símbolos da Família Redentorista.
"Que essa Cruz lhe recorde sempre que os missionários redentoristas de Aparecida continuam unidos ao senhor pela amizade, pela oração e pela missão."
Também o arcebispo de Aparecida, Dom Mário Antonio da Silva, agradeceu pelo legado deixado por seu antecessor.
"Vosso ministério deixou marcas nessa Igreja particular e alcançou tantas comunidades no Brasil onde vossa palavra encontrou espaço para anunciar Jesus Cristo e fortalecer a fé do nosso povo."
Ao final, invocou a proteção da Padroeira do Brasil.
"Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe da Igreja e Padroeira do Brasil, continue a proteger-vos com o seu manto materno e que Jesus, o Bom Pastor, vos conceda saúde, paz, serenidade e alegria para que continueis servindo a Igreja com a força da oração, a sabedoria da experiência e a esperança que nasce do Evangelho."
Depois da missa das 9h, Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis participou, no subsolo do Santuário Nacional, do lançamento do livro "Sob a Proteção da Mãe Aparecida", publicado pela Editora Santuário. Ao lado da organizadora Rita Elisa Sêda, o arcebispo emérito encontrou os fiéis para uma sessão de autógrafos.
O livro trata-se da organização de cartas mensais escritas pelo arcebispo emérito de Aparecida durante os 13 anos a frente dessa Igreja Particular, destinada aos romeiros e romeiras da Campanha dos Devotos, hoje Família dos Devotos.
Em entrevista ao A12, afirmou ser um livro para ser lido e meditado com calma.
"Trata-se de diversos temas e artigos, sejam eles religiosos, sociais, eclesiais, de modo que terá a oportunidade de aprofundar sua fé, seu amor a Nossa Senhora e também adquirir outros conhecimentos sobre a Igreja com esse livro à disposição aos devotos de Nossa Senhora Aparecida".
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