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Migração e fé

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fé, fidelidade, migração,

“Sai da tua terra e vai” (Gn 12,1): assim começa a caminhada de Abraão, pai da fé, segundo a tradição judaico-cristã. A fé tem, portanto, uma dimensão itinerante que começa com a experiência de migrar... Quando saí do Brasil, para uma missão em Moçambique, tive a oportunidade de vivenciar a fé na simplicidade da vida e no simbolismo dos gestos e ritos. A acolhida foi a porta de entrada num mundo fascinante e encantador. Fui envolvido pela cultura, tradição e alegria do povo que me ensinou a ressignificar o que é essencial para a fé, para a vida. E, acredito que em cada povo, por meio das suas tradições, línguas, danças e estilos de vida, podemos contemplar “o rosto plural da fé”[i].

Abrir-se ao próximo, fazer-se presente na vida da comunidade e viver em família para além dos laços de sangue são valores tão fortes que rompem com a lógica do ter, do poder e do prazer. Ainda hoje, na região de Furancungo, onde morei, o anfitrião lava as mãos dos seus convidados antes das refeições e todos partilham do mesmo prato; quando alguém fala, os outros sentam para ouvir com atenção; sempre que você entrega ou recebe alguma coisa deve fazer isso com as duas mãos, gesto que significa a totalidade da pertença na troca de vivências.

Em Moçambique, fui missionário e fiz a experiência de ser migrante. Tive a oportunidade de perceber que sou diferente, de aprender outra cultura e língua (chichewa), de me encantar com a pluralidade da nossa fé comum. O encontro com o outro na gratuidade da vida, é o encontro amoroso proposto por Jesus. A fé se incultura quando percebemos que Deus foi se revelando e se dando a conhecer ao ser humano, respeitando a história e a caminhada dos povos. Em Jesus, a revelação plena de Deus Pai se faz assumindo a nossa humanidade: Ele é o Verbo encarnado (Jo 1,1).

Jesus assumiu a identidade humana em sua totalidade. Sentiu frio, fome, sede, alegrias e tristezas. Esteve ao lado dos mais pobres, abandonados, doentes, viúvas, órfãos, estrangeiros. Jesus se aproximou e se envolveu com a realidade das pessoas sem fazer pré-julgamentos. Essa foi a atitude de Jesus e deve ser a nossa, através de quem Ele continua atuando na história da humanidade.

Disse o Papa Francisco aos participantes do encontro sobre mobilidade humana na Cidade do México: “é necessário passar de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse ou de marginalização – que, no final, corresponde precisamente à ‘cultura do descartável’ – para uma atitude que tem por base a ‘cultura do encontro’, a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor”.

Ver o mundo com o olhar de Jesus é perceber a diversidade cultural e promover a cultura do encontro. A pluralidade da fé, dos povos e dos costumes se fazem cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia em virtude da globalização e da migração. No passado, foi criado um senso comum no qual as tradições indígenas eram tidas como ritos folclóricos e as raízes africanas eram estigmatizadas como rituais demoníacos. Precisamos superar essas falsas ideias e sentir a Boa-Nova de Jesus viva nos diversos povos.

O rosto de Deus nos fascina pelo amor, o rosto da fé nos encanta pela abertura ao próximo. Somos verdadeiramente filhos e filhas de Deus independentemente de cor, raça, sexo ou nacionalidade. Que Deus nos inspire a exercitar e promover a cultura do encontro com tantos migrantes que se encontram no meio de nós e, muitas vezes, nem percebemos.

[1] Título do livro de Pedro Rubens, edições Loyola, 2008.

Assinatura padre junior

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