Por Academia Marial Em Artigos Atualizada em 19 MAI 2020 - 09H10

A opção preferencial pelos pobres e as dimensões da pobreza

A Igreja chega à terceira década do século XXI com a convicção de sua responsabilidade missionária, da sua opção sempre preferencial pelos pobres e do movimento ‘em saída’, convocado com maior ênfase no pontificado do Papa Francisco.

Contudo, dilemas que deveriam ter sido superados ou compreendidos, tornaram-se um turbilhão de incompreensão e discórdia, similares aos movimentos causados pelos sofistas da Grécia antiga, isto é, usam-se excessivas palavras, com raciocínios falaciosos e argumentos incompletos que não levam à compreensão do que vem a ser pobreza e como combater este mal sócio-cultural-antropológico que despe a humanidade de sua dignidade.

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Sob todos os aspectos, 
a pobreza é um crime contra a dignidade humana, talvez o mais pernicioso, porque a distribuição desigual dos recursos, que existem em abundância para todos, cria abismos e bolsões de miséria e todas as consequências ou ‘pobrezas colaterais’ que são desconsideradas, mas causam danos terríveis, às vezes, irreversíveis.

Os dois primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) partem de um pressuposto em que não seria admitida desigualdade, haja vista as expressões “todo ser humano terá capacidade para gozar os direitos e as liberdades” (art. I) e “não será feita nenhuma distinção” (art. II).

Obviamente, a condição de pobreza é oposta a tais declarações, porque é sabido que aos pobres é negado, direta ou indiretamente, direitos e o tratamento e distintivo, separatista e inferindo o ‘não direito’. Por exemplo, as instituições carcerárias brasileiras têm milhares de pessoas que, por não terem acesso a um advogado, permanecem no ostracismo do sistema penal, sem julgamento, sem pena, sem lembrança, normalmente afrodescendentes, pessoas e pouco potencial ofensivos e jovens que, ao invés de comporem a população economicamente ativa, são deixadas no ócio de um sistema que é racista e genocida.

É fato que a pobreza econômica é a mais desconcertante e visível, especialmente em um país como o Brasil, onde a concentração da renda e riqueza dá-se escandalosamente, há séculos, nas mãos das mesmas famílias que formaram os guetos, que chegaram nestas terras nos idos da posse pelos lusitanos, espanhóis, flamengos, franceses e outros povos europeus que, às custas da escravização de africanos, construíram sua ‘riqueza’ e ‘patrimônio’, legitimando tais sob o manto dos sistemas jurídicos, políticos, religiosos e sociais estabelecidos no século XIX, quando o Brasil torna-se emancipado.

Estas feridas criadas outrora desprezaram a realidade: um povo forjado do estupro de mulheres indígenas e africanas, que formaram a prole do caboclo, que se tornou o posseiro dos interiores destes rincões, até os dias atuais, caracterizados pelos modos violentos dos seus ancestrais e, como dizia Gilberto Freyre, os poucos caucasianos nas cidades, que formam amamentados pelas africanas, para depois dominarem sobre estas e sua descendência.

Assim, podemos afirmar, especialmente com o advento do século XIX e, posteriormente, no século XX, que a pobreza não se trata somente de algo material. Na verdade, a pobreza é uma condição ampla que envolve todo o ser, no campo intelectual, moral, físico e emocional.

Dois exemplos que descrevem este raciocínio estão ligados às aparições da Virgem Maria, a de Fátima, em 1917, e a aparição de Banneux nos anos 1930. Estas aparições marianas são muito esclarecedoras quanto à questão da pobreza, embora alguns tenham dado interpretações politizadas, esquecendo-se que a Virgem Maria, imaculada e assunta ao céu, tem visão da história humana de modo atemporal, analisando a história humana no período passado, presente e futuro, livre de preconceitos.

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Imagem de Nossa Senhora de Fátima (Portugal)


Em Fátima, Nossa Senhora do Rosário deu um alerta claro sobre o ‘erro da Rússia’ no ano de 1917. Aqueles que analisam superficialmente as palavras da Santa Mãe de Deus, esquecem-se da História da Rússia desde os dias que esta era apenas a Rússia de Kiev, por volta do século IX a.D., quando sequer eram cristãos. Os afoitos chegam a afirmar que a Virgem Maria estaria falando sobre o leninismo, que estabeleceu a União Soviética, algo que já não se trata da mensagem de Fátima, pois Santa Maria falou do erro da Rússia em 1917, não mencionando nada relacionado ao futuro, quando a Rússia deixou de existir independentemente.

A que, então, referia-se Nossa Senhora com ‘erro da Rússia’? Bem, analisando a história da Rússia, especialmente após sua conversão, no século X, ao cristianismo, sob a orientação do Patriarcado de Constantinopla, seguiram-se muitos erros quanto à fé, injustiças sociais, fomes, massacres e caminhos contrários ao cristianismo, especialmente após o século XVIII quando o Estado passou a controlar esta Igreja, algo que só foi interrompido em 1917. Portanto, do ponto de vista teológico, a Rússia, em 1917, fez algo acertado: devolveu à Igreja sua autonomia, permanecendo assim até 1925. Os trágicos acontecimentos após isto são fruto do erro soviético, não russo.

Assim, analisando o Estado Russo, absolutista, feudal e extremamente poderoso, é chocante analisar que, em comparação com seus pares eurasianos houvesse tantas mortes por fome, exaustão e miséria, algo comum ao regime feudal que a Europa passou a substituir a partir do século XVII, permanecendo esse extremamente ativo na Rússia até o século XX. Ou seja, os trabalhadores, especialmente rurais, trabalhavam toda sua vida e nunca tinham direito a absolutamente nada; seu trabalho era explorado pelo senhor feudal que tinha servos, o intermédio entre escravo e trabalhador, obrigado a entregar quase toda sua produção em troca do ‘uso’ da terra. Esse era o erro da Rússia, que existia por séculos, gerando miséria, fome, medo, pânico e morte de milhares de inocentes.

A segunda aparição mencionada, nos anos 1930, em Banneux, Bélgica, amplia nossa visão sobre o que é pobreza, do ponto de vista da Virgem Mãe de Deus. A Europa foi extremamente abalada nos anos 1914-1945, devido ao conflito armado que arrasou o continente. A Bélgica, contudo, foi um dos poucos países que se manteve relativamente estável, com rápida recuperação econômica e com certo desenvolvimento no interstício entre 1919-1939. Ali apareceu Nossa Senhora, se declarando como Virgem dos Pobres. Ora, tantos países europeus estavam em miséria literal, com fome, sem emprego e vivendo as agruras do conflito de 1914-1918. Mas foi na Bélgica que Nossa Senhora quis ser conhecida como Virgem dos Pobres.

De fato, a vidente e sua família eram materialmente pobres. Todavia, ampliando o contexto histórico e social do mundo naqueles dias, compreendemos que a pobreza está além da mera pobreza material. A filosofia vivia os movimentos da fenomenologia, essencialismo, existencialismo, niilismo, isto é, o ser humano, especialmente após o vivido na Grande Guerra, passou a viver a crise de sentido e crise existencial. Freud passou a estudar a psique humana, definindo os primórdios da neurose e psicose. O ser humano se distanciava da sua vocação primordial: ser imagem e semelhança de Deus.

Neste contexto, Nossa Senhora aparece dizendo que é a Virgem dos Pobres, mas não fala que é pobreza, porque naqueles dias de pós-guerra, mesmo os mais ricos poderiam estar vivendo a pobreza existencial. A quebra da bolsa de Nova York, em 1929, levou muitos ao suicídio e, mesmo os ‘novos ricos’ não compreendiam o sentido da vida. Ali estava Maria, Mãe Consoladora oferecendo-se como mãe dos pobres ou empobrecidos, seja materialmente, emocionalmente ou em qualquer sentido que levasse a pessoa à perda de sentido na vida.

De fato, ao tratar, no século XXI, da opção preferencial pelos pobres, temos que ter em mente que a pobreza está em todos os lugares. Nossa Senhora demonstra este fato de maneira inequívoca, tanto em Fátima, denunciando o passado de barbáries, quanto na Bélgica expondo que a estabilidade financeira ou material não produziria a satisfação ou sentido à vida. É função da Igreja, principalmente neste momento de crises, em todos os sentidos, buscar ajudar, consolar e levar o Evangelho do Cristo que se traduz em liberdade dos filhos de Deus.

Esta missão é de extrema importância neste momento em que a Igreja está cheia dos ventos da malícia e das falácias. Tudo é chamado heresia, especialmente quando se refere aos escritos dos materiais da filosofia da libertação, outrora chamada teologia da libertação. A incompreensão, fruto do desconhecimento daquele material, gera a verdadeira heresia que adentrou na Igreja contemporânea, a saber, a ignorância.

Que possa a Igreja perseverar na sua missão, unida em todo mundo, em Comunhão com Santos, especialmente à Virgem Maria, apoiando o Papa Francisco em auxiliar e estender os braços aos pobres, sejam eles quem forem.

 Marcio José Silva 
Mestre em Educação, Arte e Cultura
Associado da Academia Marial

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