Por Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R. Em Artigos

Maria, Mulher Eucarística

Os fiéis são convidados a valorizar e aprofundar o sacramento da Eucaristia, tendo em vista sua importância na vida da Igreja. A Eucaristia é o centro e a raiz de toda a comunidade cristã, a fonte e ápice da existência cristã e de toda a evangelização.

A Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, ou seja, o próprio Jesus Cristo, morto e ressuscitado. É “o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar pelos séculos, até seu retorno, o sacrifício da cruz, confiando assim à sua Igreja o memorial de sua morte e ressurreição. É o sinal de unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, no qual se recebe Cristo, a alma é coberta de graça e é dado o penhor da vida eterna” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, nº. 271).


Os fiéis devem participar ativamente da Eucaristia e redescobrir seu valor na escola de Maria, a mulher eucarística. “Se quisermos redescobrir toda a riqueza a relação íntima entre a Igreja e a Eucaristia, não podemos esquecer Maria, Mãe e modelo da Igreja” (João Paulo II. Ecclesia de Eucharistia, nº. 53).

MARIA E A EUCARISTIA

Os documentos eclesiásticos e a teologia têm abordado a relação entre Maria e a Eucaristia, utilizando dados da fé cristã e do culto marial. Há fecundos e sugestivos textos que aparecem na tradição da Igreja e outros que são publicados hoje.

O Papa João Paulo II, de saudosa memória, entregou-nos a bela Carta Encíclica: 'Ecclesia de Eucharistia', em que aborda Eucaristia e sua relação com a Igreja. Para ele, a Igreja vive da Eucaristia, o sacramento por excelência, que está colocado no centro de sua vida. Presença salvífica de Jesus Cristo, a Eucaristia é o alimento espiritual da Igreja. Ela é o que de mais precioso pode ter a Igreja em sua história. Por isso, a comunidade cristã sempre reservou a cuidadosa atenção para com este legado de Cristo.

No capítulo VI da Carta Encíclica, o Pontífice reflete sobre a temática de Maria e a Eucaristia. De acordo com suas reflexões, Nossa Senhora pode guiar os cristãos para o sacramento da Eucaristia porque tem uma profunda ligação com ele.

O Papa afirma que, na narração da instituição da Eucaristia, não se menciona a presença da Mãe de Jesus, mas sim no Cenáculo, com os apóstolos e os discípulos (At 1,12-14). A partir daí, conclui que ela também não podia deixar de estar presente nas celebrações eucarísticas dos fiéis da primeira geração cristã.

ATITUDE INTERIOR DE MARIA

A relação de Maria com o mistério da Eucaristia está baseada fundamentalmente na sua atitude interior. “Para além de sua participação no banquete eucarístico, pode-se delinear a relação de Maria com a Eucaristia a partir da sua atitude interior. Maria é a mulher ‘eucarística’ na totalidade da sua vida. A Igreja, vendo em Maria o seu modelo, é chamada a imitá-la também na sua relação com este mistério santíssimo” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 53).

Olhando para a Virgem de Nazaré como exemplo, os devotos são conclamados a meditar e a descobrir sua maneira de relação com o mistério da Eucaristia. Esta relação deve ser bem original, criando e aprofundando um vínculo pessoal e comunitário com Jesus presente na Eucaristia, com seu corpo e seu sangue.

Na sua relação com a Eucaristia, a atitude adequada dos cristãos é aquela de Maria: total abandono ao Senhor. “Se a Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto a nossa inteligência que nos obriga ao mais puro abandono à Palavra de Deus, ninguém melhor do que Maria pode servir-nos de apoio, de guia nesta atitude de abandono” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 54).

A atitude de abandono de Maria é evidenciada pela passagem das bodas de Caná (Jo 2,1-12). Nesta cena evangélica os cristãos acolhem o convite que a Mãe de Jesus os faz para obedeceram a seu Filho sem hesitação “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). Eles celebram a Eucaristia porque cumprem um mandado de Jesus: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

FÉ EUCARÍSTICA

A Mãe de Deus praticou a fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus. Diante da proposta de Deus para ser a Mãe do Salvador, ela acreditou inteiramente em Deus e deu sua resposta de generosa aceitação, tal como narra a anunciação (Lc 1,26-38). Há “uma profunda analogia entre o fiat pronunciado por Maria, em resposta às palavras do Anjo, e o amém que cada fiel pronuncia quando recebe o corpo do Senhor. A Maria foi-lhe pedido para acreditar que Aquele que ela concebia ‘por obra do Espírito Santo’ era o ‘Filho de Deus’ (cf. Lc 1,30-35). Dando continuidade à fé da Virgem Santa, no mistério eucarístico é-nos pedido para crer que aquele mesmo Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria, torna-se presente nos sinais do pão e do vinho com todo o ser humano-divino” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 55).

Ao aceitar ser a Mãe do Salvador, ela se tornou o primeiro sacrário eucarístico da história. É significativa a cena da visitação (Lc 1,36-45). “Maria, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo ela serve de ‘sacrário’ - o primeiro ‘sacrário’ da história -, para que o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, se preste à adoração de Isabel, como que ‘irradiando a luz através dos olhos e da voz de Maria” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 55). As pessoas de fé são chamadas a contemplar, adorar e testemunhar o Cristo presente na Eucaristia e nos sacrários das igrejas.

DIMENSÃO SACRIFICAL

A Eucaristia torna presente e atual o sacrifício que Jesus Cristo ofereceu ao Pai na cruz, uma vez por todas, em favor da humanidade. A dimensão sacrifical da Eucaristia e a sua relação com a Mãe de Jesus acontecem ao longo de todo a sua existência.

Maria viveu a dimensão sacrifical do mistério eucarístico, desde a anunciação até o calvário. Associada a Jesus, ela o ofereceu na apresentação no templo de Jerusalém (Lc 2,25-45) e no calvário (Jo 19,25-27), oferecendo-se, ao mesmo tempo, a si mesma.

Em cada eucaristia, Jesus Cristo, vivo e ressuscitado, dá aos cristãos a Virgem Maria. “Viver o memorial de Cristo na Eucaristia implica também receber continuamente este dom” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 57). A Mãe de Deus faz parte dos dons que eles receberam de Jesus na cruz.

Tem perspectiva eucarística o Magnificat (Lc 1,46-55). É o que refere o Papa ao afirmar que, na “Eucaristia, a Igreja une-se plenamente a Cristo e ao seu sacrifício, com o mesmo espírito de Maria” (Ecclesia de Eucharistia, nº. 58). Como o cântico de Maria, a Eucaristia é também louvor e ação de graças. Os cristãos recebem o dom da Eucaristia, para que a sua vida seja toda ela um hino de louvor e de gratidão a Deus, à semelhança da Mãe de Jesus em seu cântico.

 

Escrito por
Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R. (Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R.)
Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R.

Redentorista da Província de São Paulo, formado em filosofia e teologia. Atuou como formador, trabalhou no Santuário Nacional, onde foi diretor da Academia Marial.

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