Conhecido também como Ofício da Imaculada Conceição, é uma das orações mais antigas da Igreja. Escrita no século XV, já na Baixa Idade Média e às portas do Renascimento, período em que a Virgem Maria era invocada de forma veemente como auxílio e protetora dos cristãos. É desse período a apresentação iconográfica da Virgem com um manto amplo e, sob o mesmo, fiéis refugiados.
Segundo fontes, o Ofício foi composto pelo franciscano Bernardino de Bustis. A aprovação do Ofício ocorreu em 1678 pelo papa Inocêncio XI, e ele ganhou relevo após o papa Pio IX conferir-lhe importância e riqueza, especialmente após a declaração do dogma da Imaculada Conceição de Maria em 1854.
O costume de rezar o Ofício veio de Portugal, juntamente com a riqueza da devoção à Imaculada Conceição. Devoção que se expandiu por toda a colônia já nos primeiros anos da colonização; basta vermos o grande número de dioceses, paróquias e comunidades que trazem como titular a Imaculada Conceição.
Esta oração, embora longa, é repleta de beleza doutrinal acerca dos ensinamentos por parte da Igreja sobre a Virgem Maria. Podemos dizer que é uma oração com fundamentação bíblica, doutrinal e popular. O principal desta riqueza é que a Virgem é exaltada em vista de Jesus Cristo. Vemos tal verdade ao longo de todo o texto, em que referências são feitas à Virgem Maria.
No Ofício, a Virgem é invocada como Filha de Deus Pai e Virgem. Isso nos remete à criação de Maria por Deus. A reflexão sobre o mistério da encarnação nos mostra que Deus, ao querer se fazer presente entre a humanidade e encarnar por amor total, necessitou de uma mulher. Logo, se Deus desde sempre pensou em enviar seu Filho ao mundo, é certo que já pensava em uma mulher para colaborar com tal missão, e essa foi Maria.
Diante dessa tese, das tantas perguntas que não calam no coração das pessoas, uma é: a partir de que momento Deus pensou na Virgem Maria? Diante dessa interrogativa, podemos afirmar que Deus, ao pensar na encarnação do Messias, sempre pensou na Virgem Maria, ou seja, desde o Antigo Testamento. Vemos essa verdade, não de forma explícita, mas implícita em Isaías 7,14: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho...”
No Ofício, vemos sempre alusões à Virgem Theotokos (Mãe de Deus). Nos primeiros séculos da Igreja, esse título era destaque e foi confirmado pelo Concílio de Éfeso, em 431. Theotokos é o maior título dado à Virgem Maria, isso em virtude dos privilégios que recebera.
O dogma da Imaculada Conceição de Maria mostra que Ela foi concebida sem a mancha do pecado original, porque não era conveniente que a Mãe de Deus estivesse, nem que fosse por instante, sob o poder de Satanás. Permaneceu virgem porque a concepção de Jesus, Deus-Homem, não poderia dar-se de outra maneira, senão de forma excepcional, sem a contribuição humana, sendo o Filho de Deus, o Verbo eterno do Pai.
Outro título que vemos como destaque na oração em referência é o de Maria Virgem. Esse título, invocado desde os primeiros séculos do cristianismo, foi definido como uma verdade de fé, conforme mencionamos, destacando a concepção virginal de Jesus Cristo e ressaltando a virgindade perpétua de Maria, antes, durante e depois do parto (ante partum, in partum e post partum).
Trata-se de uma afirmação cristológica. Como já dito, os dogmas “marianos” são em vista de Jesus Cristo. Tal afirmativa é defendida pela Igreja para combater as teses que colocavam em dúvida a divindade de Jesus, bem como sua verdadeira humanidade.
A concepção virginal de Cristo torna-se uma das confirmações da divindade de Cristo. Assim, ao declarar a maternidade divina de Maria, também sua virgindade é afirmada como uma realidade que diz respeito não somente à pessoa da Virgem Maria, mas especialmente a Jesus.
Como vemos, uma realidade desencadeia outra. Se analisarmos os dogmas e verdades de fé acerca da Virgem Maria, notaremos que uma realidade está interligada a outra. Na maternidade divina de Maria, interliga-se a sua Virgindade Perpétua e a Imaculada Conceição de Maria, onde se fundamenta o Ofício de Nossa Senhora.
A partir dessa teologia, vemos que Maria ocupa lugar especial no projeto de Deus. Sua virgindade, antes, durante e depois, assegura que a concepção de Cristo não se deu a partir da união do sêmen masculino com o óvulo feminino, como acontece na concepção de qualquer ser humano. Se Jesus tivesse sido concebido a partir de sêmen mortal, teria tido um corpo mortal.
Vemos também a Virgem sendo invocada na oração como rainha e intercessora da humanidade. A Virgem Maria sempre foi invocada como intercessora. A doutrina de que Maria fora coroada como Rainha do céu remonta ao início da Igreja. Muitos Padres da Igreja escreveram a respeito e defenderam tal tese, como Gregório de Nazianzo e Efrém da Síria.
Eles defendiam Maria como mãe do “Rei do universo” e a “Virgem Mãe, de quem surgiu o Rei de todo o mundo”. Dessa tradição, o papa Pio XII toma fundamentação para a encíclica Ad Caeli Reginam (Rainha do céu), tendo essa como tema principal a realeza da Virgem Maria e a instituição de sua festa.
No capítulo VIII da Lumen Gentium também encontramos outra fundamentação, em que a Igreja destaca o papel especial da Virgem Maria que assunta ao céu: “com a multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna”.
Por isso, é invocada desde sempre na Igreja como “advogada, auxiliadora, intercessora, socorro, medianeira”, nos assegura a Lumen Gentium, deixando claro que, com isso, nada tira e nem acrescenta à dignidade do único mediador que é Cristo.
Destaco acima verdades de fé da Igreja que nos ajudam a compreender o teor fulcral da oração do Ofício de Nossa Senhora. É uma das mais belas orações marianas que se perpetua, sobretudo por meio dos lábios do povo simples que tem o costume de rezá-la, principalmente aos sábados, dia dedicado à Virgem Maria, ou de forma acentuada no mês de maio, mês mariano.
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