Por Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R. Em Artigos Atualizada em 02 OUT 2017 - 11H48

Salve-Rainha, oração antiga

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Terceiro dia da Novena Solene – Foto: Thiago Leon
Foto: Thiago Leon

A Salve-Rainha constitui uma oração antiga, dedicada à Virgem Maria. Trata-se de uma das mais belas antífonas marianas, muito recitada pelos cristãos.

A Salve-Rainha faz parte do patrimônio espiritual da Igreja. As comunidades cristãs costumam recitá-la à noite, em suas celebrações e orações. O texto da Salve-Rainha recebeu comentários de escritores e teólogos.

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ORIGENS

A Salve-Rainha originou-se na Igreja da Idade Média. Alguns estudiosos a atribuíam ao bispo Ademar de Puy, falecido em 1098.

Entretanto, a maioria dos estudiosos contemporâneos argumenta que o autor do texto da Salve-Rainha foi Germano Contractus, o monge, que viveu no mosteiro de São Galo, na Suíça, próximo do lago de Constança. É do século XI. Nasceu aos 18 de julho de 1013 e faleceu em 1054.

Paralítico desde seu nascimento, ele foi confiado pelos pais, aos sete anos, aos monges para ser formando em ciências e artes. Posteriormente, ingressou no mosteiro. Era astrônomo, físico, matemático, teólogo, poeta e músico. Todavia, sua existência foi caracterizada por muito sofrimento. Encarava o sofrimento como uma prova do amor de Deus e confiava-se aos cuidados de Nossa Senhora. Era muito devoto dela.

 

Aos 15 de novembro de 1049, experimentando muito sofrimento, recolheu-se em sua cela e orou diante do quadro da Virgem Maria.

Aos 15 de novembro de 1049, experimentando muito sofrimento, recolheu-se em sua cela e orou diante do quadro da Virgem Maria. Longo depois, dirigiu-se à capela de Nossa Senhora e continuou sua oração e meditação. Desta experiência formulou a Salve-Rainha.

A expressão “sempre virgem”, que se encontra na parte da Salve-Rainha “ó doce sempre Virgem Maria”, foi acrescentada mais tarde. Inicialmente a antífona dizia: “Salve, Rainha de Misericórdia”. No século XVI introduziu-se o termo “Mãe”, permanecendo assim: “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia”.

A jaculatória “Rogai por nós, santa mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo” foi acrescentada à antífona mais tarde.

O próprio Germano elaborou a melodia para se cantar a Salve-Rainha. Já os primeiros cruzados cantaram-na em 1099. Tal fato mostra que o povo também a conhecia.

Durante os séculos XII e XIII, mais e mais se propagou o costume de cantar a Salve-Rainha logo após as completas, são a oração da noite da Liturgia das Horas. Os cistercienses cantaram-nas nas completas desde 1218. Já os dominicanos entoavam-na desde 1226.

Em 1239 o Papa Gregório IX introduziu o canto da Salve-Rainha nas igrejas de Roma, Itália. Encaminham-se os monges, com velas acesas, para um altar lateral da igreja e aí a entoavam.

MÃE DA MISERICÓRDIA

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A Salve-Rainha começa com um termo típico: “Salve”. Esta palavra vem do latim, “salvere”, que significa “ter saúde”, “passar bem”. No português, exprime saudação. Em oração, o devoto se dirige à Virgem Maria e faz sua saudação com amor e respeito.

Com piedade, o devoto saúda Nossa Senhora como rainha. Este título foi atribuído a ela pela tradição cristã, a partir do século IV, para evidenciar sua preeminência e seu poder. Ela é rainha enquanto participa da realeza de Jesus Cristo, auxiliando-o e colaborando com Ele na realização do seu Reino no mundo. Ela é “associada de seu Filho nascido de Deus na sua procriação terrestre, no seu governo, na sua glória” (H. Cazelles, teólogo).

A saudação continua enumerando belíssimas invocações marianas: “Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança nossa”. Ela é a Mãe de Jesus Cristo, que revela em si mesmo a misericórdia e a bondade de Deus (Tt 3,4). Vida, doçura e esperança da humanidade, ela, como Mãe, cuida das pessoas com carinho e as encaminha para Jesus, o Salvador. Já glorificada e rainha do céu, ela “brilha aqui na terra como sinal de esperança segura e do conforto para o povo de Deus em peregrinação, até que chegue o dia do Senhor” (Concílio Vaticano II. L. G., nº. 68).

Com confiança e fé, os devotos suplicam a Nossa Senhora: “A vós bradamos, os degredados filhos de Eva”. Tal expressão significa que eles estão pedindo ajuda de maneira veemente. Bradar quer dizer pedir, gritar por socorro, rogar compaixão. Degredados são aqueles que são forçados a viver longe, presos, sozinhos. Isso faz referência à expulsão do ser humano do paraíso na criação, causada pelo pecado (Cf. Gn 4,23-24). Assim, os seres humanos, que estão na terra, longe do céu, gritam a Mãe de Jesus, rogando-lhe ajuda em sua miséria, pois buscam a pátria definitiva (Hb 13,14).

SOCORRO E ADVOGADA

Fieis no Nicho de Nossa Senhora Foto: Thiago Leon

“... a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”

Na Salve-Rainha, os devotos prosseguem rezando: “... a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Com tais palavras, eles continuam suplicando o socorro da Mãe do Salvador, pois sua situação humana é caracterizada, muitas vezes, pelo sofrimento, pela fragilidade e pelo desânimo.

A Salve-Rainha mostra que a segurança dos devotos, que ainda peregrinam no mundo, é a Virgem bondosa: “Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. A interjeição “eia” serve para animar, estimular. Assim Maria é a advogada dos seres humanos, que os anima e acalenta, assume sua defesa e o seu socorro, para que eles possam resolver suas dificuldades, permanecendo fiéis ao projeto de Deus. Com seus olhos misericordiosos, ela os ajuda a enfrentar os perigos e os males presentes na história da salvação.

A Salve-Rainha não deixa de se voltar para Jesus Cristo, o Filho bendito de Maria: “E, depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre”. Tal prece pede que ela mostre aos seres humanos Jesus, em sua entrada para a glória. A morte não é fim trágico, mas porta para a eternidade feliz, que é comunhão plena com a Santíssima Trindade. Jesus é o caminho que leva aqueles que acreditam nele ao Reino do Pai do Céu (cf. Jo 14,1-14).

Os devotos ainda lembram o amor de Nossa Senhora, rezando: “... ó clemente, ó piedosa, ó doce, sempre Virgem Maria”. Com estas palavras, eles louvam e elogiam a Mãe de Jesus, que está sempre disposta a auxiliar e cuidar, com bondade maternal, daqueles que recorrem a ela. São expressões que despertam neles a confiança em seus corações. Com solicitude, ela é a Mãe clemente e compassiva, que compreende seus filhos, olha para eles com misericórdia e os acolhe com ternura, para conquistá-los pelo amor.

Ao terminar a Salve-Rainha, os devotos rezam a jaculatória: “Rogai por nós, santa mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”. Com isso, eles pedem que Maria os ajude junto ao Salvador, para que possam receber o que Ele prometeu, isto é, o Reino de Deus. Com fé, caridade e esperança, confiam nas promessas de Cristo e buscam alcançá-las com a intercessão certa da Mãe de Deus.

Pe. Eugênio Antônio Bisinoto. C.Ss.R.
Missionário Redentorista
Ex-diretor da Academia Marial

Escrito por
Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R. (Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R.)
Pe. Eugênio Bisinoto, C.Ss.R.

Redentorista da Província de São Paulo, formado em filosofia e teologia. Atuou como formador, trabalhou no Santuário Nacional, onde foi diretor da Academia Marial.

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