Por Pe. Joãozinho, SCJ Em Artigos Atualizada em 03 ABR 2019 - 11H50

A Origem da Salve Rainha

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Existem muitas histórias sobre a origem desta que é uma das mais populares orações da igreja católica. Muitas pessoas são indicadas como possíveis autores. Existe até quem sustente que seria um hino dos combatentes da Primeira Cruzada. Mas o mais provável é que tenha sido mesmo composta pelo monge alemão beneditino Herman Contrat, em 1050. Ele nasceu no dia 18 de julho de 1013, com graves problemas de saúde e num tempo de crises, pestes e calamidades. Os povos bárbaros vindos do Leste invadiam as cidades destruindo igrejas e conventos, provocando medo, sofrimento, dor e mortes. Conta-se que ao nascer, sua mãe, Miltreed, o consagrou à Virgem Maria. Era portador de uma doença chamada raquitismo que o deixaria progressivamente paralítico; tinha o palato fendido; era vítima de paralisia cerebral e esclerose amiotrófica ou atrofia muscular espinal. Resumindo: tinha enorme dificuldade para se movimentar e quase não era capaz de falar. Não foram poucos os desafios e sua vida. Era uma dessas pessoa que tinha tudo para dar errado e fracassar na vida. Seus pais não suportaram o peso de criar uma criança com estes problemas e o confiaram aos sete anos aos monges beneditinos que o acolheram no mosteiro para os estudos em regime de internato.

::Como surgiu a oração da Ave-Maria?

Naquele ambiente de silêncio, trabalho, estudo e oração, Contrat foi superando cada um dos seus limites por meio da disciplina perseverante. Jamais perdeu a fé na vida e a vida de fé. Era um apaixonado pela ciência e pelas artes. É notável seu exemplo de autosuperação. Tornou-se astrônomo, matemático, físico, teólogo, poeta e músico. Compôs diversas antífonas e canções para a liturgia. É preciso situar o tom dramático de seus poemas e melodias na Europa do século XI que passava por guerras, devastações e muitas calamidades. A Salve rainha é uma destas preces que reconhece as dificuldades desta vida em que muitas vezes “gememos e choramos neste vale de lágrimas”. Conhecendo um pouco a história deste autor é possível entender o significado da prece. Mas no último acorde, a oração não estaciona na tragédia. Contrat é um homem de fé e esperança. Ele acredita que Deus sempre prepara um final feliz para quem se coloca em seus braços e confia na sua misericórdia providente. A prece que sai de seus lábios é uma declaração de confiança amorosa do Deus que jamais nos abandona.


Herman Contrat

Aos vinte anos Herman Contrat se tornou monge beneditino e passou toda a sua vida na Abadia de Reichenau, que fica numa ilha no Lago Constança, no sul da Alemanha. Acabou se tornando o Mestre dos Noviços. Além da famosa Salve Rainha outras obras chegaram até nós. Compôs ofícios em memória de alguns santos; elaborou todo um tratado de música; tem alguns escritos sobre geometria e aritmética e são famosos seus tratados sobre astronomia. Ofereceu importante contribuição para o aperfeiçoamento do astrolábio, instrumento que iria tornar possível as grandes navegações. Foi um fecundo historiador que compilou em uma única obra os diversos relatos do cristianismo desde o nascimento de Jesus Cristo, até por volta do ano mil. Aprendeu diversos idiomas, inclusive árabe, grego e latim. Dedicou-se a construir novos instrumentos musicais e astronômicos.

Naquele ambiente de silêncio, trabalho, estudo e oração, Contrat foi superando cada um dos seus limites por meio da disciplina perseverante. 

Sua vida foi assim: os limites aumentavam e ele os ultrapassava um a uma. Ao final da vida, como se não bastasse mais nada, ficou cego. Parece que este seria o limite determinante para parar a força de superação de Herman Contrat. Mas foi justamente nesta fase que ele compôs a obra prima que deixaria sua marca diária na história da humanidade até os nossos dias: a Salve Rainha. Faleceu no mosteiro de Reichenau no dia 24 de setembro de 1054. Foi beatificado pela Igreja Católica em 1863.

Entre os textos profundos e marcantes deste homem santo selecionamos o seguinte, para que possamos ouvir o respiro de sua alma:

"De três modos pode-se sofrer: estando inocente, como Nosso Senhor na cruz; estando-se culpado, como o bom ladrão; e para fazer penitência. Eu quero carregar minha cruz para satisfazer por meus pecados e pelos pecados dos outros. É este o meio mais seguro de se chegar à glória do céu. Mas, sinto-me muito fraco. O demônio quer fazer-me vacilar. Mãe do céu, ajudai-me, para que, como vós, eu não murmure e não me queixe, mas reconheça no sofrimento uma prova do amor de Deus." 

Mas Contrat não compôs toda a Salve Rainha como a conhecemos hoje. A oração originalmente terminava na frase: “Mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Amém”. É curioso que o poema orante não pronunciava em nenhum momento o nome de “Maria”. Passaram-se cerca de cem anos. A prece se tornou rapidamente muito popular. Era cantada rezada com frequência em muitos lugares. Numa dessas ocasiões foi a oração escolhida para uma importante celebração na Catedral de Espira. Estavam presentes personalidades importantes como o Imperador Conrado. No meio do povo, quase anônimo, estava um jovem desconhecido que mais tarde o mundo conhecerá como São Bernardo, o “cantor da Virgem Maria”. Foi ele quem popularizou, por exemplo, o título de “Nossa Senhora”. O jovem Bernardo naquele dia se uniu ao coro que entoava a Salve Rainha na catedral. Mas quando todos terminaram e fez-se aquele silêncio reverente, a voz do jovem continuou com a inspirada frase em latim que ele criou naquele momento: “ó clemens, ó pia, ó dulcis Virgo Maria”. A partir daquele dia o verso improvisado passou a integrar a oração da Salve Rainha e é assim que a terminamos até hoje: “ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre, Virgem Maria”.

 Pe. João Carlos de Almeida, SCJ -  (conhecido como Pe. Joãozinho)
Membro da Academia Marial de Aparecida


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