Por Ana Alice Matiello Em Artigos Atualizada em 01 OUT 2018 - 15H38

São Frei Galvão, o escravo de Maria


São Frei Galvão (1739 – 1822) nasceu provavelmente em Guaratinguetá e é considerado o primeiro santo brasileiro. Segundo Maristela, na obra Frei Galvão, Bandeirante de Cristo, a própria cidade ocupava um lugar geologicamente importante na história, pois ela foi o centro de onde convergiam os bandeirantes, como também, foi nas margens do rio Paraíba do Sul que três pescadores encontram, em 1717, a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Sem dúvida Deus repousou o seu olhar sobre esse pequeno vilarejo e culminou-o de bençãos ao dar-nos os inúmeros milagres por intermédio de Nossa Senhora Aparecida e, vinte e dois anos depois, o nascimento de um homem que edificaria na história, não somente o Mosteiro da Luz em São Paulo, como também, nos corações humanos, a escravidão em Maria.

Eduardo Gois/A12
Eduardo Gois/A12

:: Santuário de Frei Galvão: O santo que falava nossa língua

 

Ora, o temor que São Frei Galvão sentia na presença de Deus não foi escamoteado na segurança de que vivia segundo os Seus mandamentos e, por isso, deu-se completamente a Maria, lhe confiou toda a sua condição conflituosa de homem.

Defendendo o dogma da Imaculada Conceição que, em sua época, ainda não havia sido proclamado, São Frei Galvão nos deixa um legado que não poderá ser negligenciado à consciência humana, a saber, de que laços o homem deve libertar-se e de que laços o homem deve escravizar-se. Se a queda significa, dentre outros significados, que diante de Deus estamos sempre no erro, o homem deveria a cada instante angustiar-se no interior da sua condição de pecador. Não se pode falar de humildade sem antes compreender a angustiante possibilidade de nossas ações e palavras estarem, diante de Deus, sempre no erro. A humildade é a profunda consciência daquilo que os salmos de Davi já cantavam, “porque ele sabe de que é que somos feitos, e não se esquece de que somos pó”. (Sl 103, 14). Ora, o temor que São Frei Galvão sentia na presença de Deus não foi escamoteado na segurança de que vivia segundo os Seus mandamentos e, por isso, deu-se completamente a Maria, lhe confiou toda a sua condição conflituosa de homem. E aguardou, em sua escravidão amorosa, os auxílios da Mãe para a sua plena realização humana.

Diferente da postura socrática, cujo método maiêutico consistia em auxiliar o indivíduo a se lembrar da verdade que possuía dentro de si, e que, portanto, não fazia sentido a parteira acreditar que o filho que ela ajudou a nascer pertence mais a ela do que a mãe, o Cristianismo, por sua vez, ao introduzir na história o novo homem, nos arrematou em dívida infinita à Verdade. E não é de se espantar que o pensamento humano chegasse num momento de profunda inquietação. Foi pouco a pouco, na Idade Moderna, que surgiram pensadores livres cujas ideias não respondiam a um centro comum de verificação e contestação das hipóteses. Surgiram, desse modo, ideias que falavam a partir de contextos diferentes e incomunicáveis entre si. O pensador Descartes foi antes um sintoma da época do que o seu fundador, a insegurança e confusão que predominavam a época fez com que Descartes buscasse um novo centro, cuja verdade seria nada menos que apodítica. Se o pensamento insiste em nos dar uma certeza abstrata, a existência continua incerta e insegura – tribulações, angústias e aflições continuam nos testemunhos dos santos. Resta-nos saber de qual laços devemos nos libertar e de qual nos escravizar.

Ora, o temor que São Frei Galvão sentia na presença de Deus não foi escamoteado na segurança de que vivia segundo os Seus mandamentos e, por isso, deu-se completamente a Maria, lhe confiou toda a sua condição conflituosa de homem.
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