Por Academia Marial Em Palavra do Associado

Bioética do Cuidado e Teologia do Feminino

Quando a Bioética Cristã Converge para a Mariologia

Vivemos num período de secularização, que tem como uma de suas características o controle sobre os processos biológicos do início ao final da vida. A sociedade, impregnada pelo pragmatismo, nem sempre coloca como prioridade a atenção e cuidados voltados à pessoa humana considerando seus grupos mais vulneráveis. Assim, observa-se um contingente de enfermos, carentes da assistência espiritual, enquanto outro contingente de pessoas, principalmente mulheres na sua maturidade, sofrem a dificuldade de inserção numa atuação social, permanecendo até esquecidas dentro das comunidades. Nosso objetivo é revisar alguns textos Bíblicos e ensinamentos do Magistério, associados aos relatos de Autores contemporâneos, buscando a orientação sobre a atividade pastoral concernente que pode ser oferecida a estas duas populações. Procuraremos resgatar a experiência da Igreja nestes casos e propor adaptações ao momento pastoral da contemporaneidade.

Vamos apoiar-nos em dados estatísticos nos quais as mulheres, em sua maturidade, desfrutam de uma sobrevida em relação aos homens que as tornam produtivas e até majoritárias nas atividades comunitárias e paroquiais. Simultaneamente, preocupa-nos a diminuição de vocações religiosa femininas, que é suprida pela atuação do laicato. O acompanhamento espiritual aos enfermos tem beneficiado-se com esta dedicação leiga. Desta forma, a assistência cristã aos doentes, realizada por pessoas na maturidade, que já cumpriram funções familiares, e que se dedicariam ao trabalho voluntário, preencheria esta lacuna nas comunidades que assim o desejassem. Com a oração e oferecimento de Sacramentos, os irmãos necessitados teriam um amparo na convalescença ou final de vida, que amenizaria o sofrimento e os assistiria neste momento tão derradeiro e ao mesmo tempo muito solitário.

Inicialmente, abordaremos a interrelação entre a vida humana e sua dignidade, e como a teologia do feminino se entrelaça para valorizar estas características da pessoa humana. Após, analisaremos como oferecer aos irmãos de comunidade o acolhimento espiritual nos momentos de sofrimento pela doença ou aqueles que atingem o final de vida. Veremos, também, as orientações da Sagrada Escritura e do Magistério quanto a este tema. Por fim, a Mariologia vem coroar toda esta reflexão, ensinando-nos mais uma vez, a verdadeira ação cristã.

VIDA HUMANA E DIGNIDADE

A vida humana tem sua sacralidade desde a concepção até o seu final.

Neste início do século XXI, a sociedade secularizada elegeu paradigmas gerais que nem sempre correspondem a esta premissa(ENGELHARDT, 2005). A importância do cuidado integral à pessoa, incluindo a atenção às necessidades espirituais, em todas as fases da vida, tem deixado lacunas , com vácuos e carências (JOÃO PAULO II, 1987) . Simultaneamente, temos assistido a uma sobrevida significativa relativa às mulheres . Estas, após uma jornada dedicada à criação e educação dos filhos, tornam-se viúvas ou sozinhas, disponíveis ao serviço ao próximo. Ao mesmo tempo, há um grupo de enfermos em fase de convalescença ou não, que precisam de visitas e orações.


A dignidade da pessoa idosa e sua missão na Igreja

Portanto, deparamo-nos com duas necessidades sociais inseridas na Bioética e que pedem uma reflexão Teológica: a atenção aos enfermos em fases finais da vida, incapacitados ou convalescentes e o isolamento contingencial de pessoas em sua maturidade, que dispõem de saúde e podem servir às comunidades locais, assim como às paróquias particulares. Quando revisamos as orientações e ensinamentos cristãos de que dispomos sobre a abordagem de ambos os problemas, atenção aos doentes e a carência social de pessoas na maturidade, surpreendentemente detectamos que já os primeiros cristãos preocupavam-se com estes fatos. A disponibilidade de pessoas em fase madura da vida, predominantemente mulheres, e que estão aptas para dedicarem-se ao serviço de oração e cuidados aos mais idosos ou doentes, está explicitamente citada por Paulo em 1 Timóteo (PAULO, 2016; HALL, 2005) . No Novo Testamento, as mulheres se sobressaíam quanto aos cuidados que dedicavam aos demais, inclusive a Jesus. A solidariedade desta dedicação está relatada no Evangelho de João 19,25-30 com o acompanhamento de Maria, a Mãe do Senhor, a todo o processo de crucifixão e morte de Nosso Senhor jesus Cristo. No Antigo Testamento, o Livro de Ruth relata o cuidado e atenção dispensados a sua sogra Noemi que tornou-se viúva e também perdeu seus filhos(HALL, 2005). Ruth permaneceu com Noemi e juntas mudaram-se para Belém.

A Teologia do Feminino tem um profundo vínculo com a Bioética do Cuidado (ENGELHARDT, 2005) .Independente de papéis pré-determinados socialmente, observa-se uma tendência da natureza feminina expressar-se com fluidez e conforto nestas funções. Apoiar pessoas, que estão em fase de desafios pelas contingências evolutivas naturais, tais como o isolamento decorrente da desintegração familiar, doença, carência social são partes da Bioética do Cuidado, que se associa à Teologia do Feminino. Não significa a exclusividade feminina destes atos, mas uma adesão interior e alegria ao praticá-los. O CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O LAICATO (PONTIFÍCIO CONSELHO PARA OS LEIGOS, 1998) publicou um documento, intitulado “A dignidade da pessoa idosa e sua missão na Igreja e no mundo”, enfatizando a necessidade deste compromisso de atenção e cuidado com os doentes.


A disponibilidade de pessoas em fase madura da vida

O destaque para a Teologia do Feminino é imprescindível num período de tanta contestação relativa ao gênero. Embora esta função possa ser exercida também por homens, uma identificação do gênero feminino, com tendências caracterizadas desde o Livro do Gênesis(LIVRO DO GÊ- NESIS, 2016) é entendida como aspectos da antropologia Cristã e a vocação que leva em conta a natureza biológica, destacando-se a afinidade e o empenho das mulheres. Simultaneamente, temos um modelo a ser imitado por toda a sociedade, e não apenas por mulheres. Embora saibamos que as mulheres fiquem viúvas mais precocemente e que desfrutem de saúde em melhores condições que os homens, muitas ficam isoladas e excluídas de uma atividade social, pois desarticulam-se da atuação comunitária orientada. Além da tendência que elas possuem ao cuidado, deparamo-nos com sua disponibilidade, que não tem sido convenientemente utilizada em nossas paróquias e comunidades.

Estimular a inclusão deste grupo e preparar pessoas para uma vida de oração e evangelização como atividade pastoral, acarretam estímulos em relação à própria vida pessoal, além de consolidar a atuação fraterna dentro do grupo social.

Fundamentar a Bioética do Cuidado com a Teologia do Feminino nos elementos bíblicos, destacando o papel feminino não como contestação, mas como construção social, é uma forma do Teólogo colaborar com o Magistério da Igreja, para que se obtenha elementos que justifiquem tal ação.

Continuando nosso propósito de refletirmos sobre a Bioética do Cuidado em comunhão com uma Teologia do Feminino, adotaremos o método de revisão bibliográfica com a análise dos Autores selecionados, alicerçando com textos bíblicos, Tradição e Magistério.

Nosso objetivo é propor ações que supram as necessidades espirituais das pessoas em fase final de vida ou que estejam incapacitadas por limitações de saúde. Também queremos abranger com estas ações aquelas, que embora na alta maturidade, são capazes de participarem e contribuírem, além de aprofundarem sua santidade, dentro do contexto de pós-modernidade que vivemos.

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Dra. Sandra Irene Cubas de Almeida, Médica Otorrinolaringologista, Teóloga e Associada da Academia Marial.

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