Palavra do Associado

Maria de Nazaré e Rainha da Amazônia

Escrito por Academia Marial

26 FEV 2021 - 21H38 (Atualizada em 26 FEV 2021 - 22H22)

Leonardo C. Almeirda

Título: Nossa Senhora de Nazaré
Padroeira: Pará
Festa: Segundo Domingo de Outubro

A figura de Maria é, seguramente, exemplo de discipulado e de crescimento na fé. O seu “sim” firme a Deus que lhe interpela pelo anjo Gabriel (cf. Lc 1, 26-38) não foi seguido de facilidades e privilégios que a blindaram de dores e dúvidas. Pelo contrário, ela foi uma mulher que fazia um profundo exercício de ouvir, acolher e meditar a Palavra de Deus em seu coração (cf. Lc 2, 19.39.51b) ... Sem isso, ela não produziria frutos. Isso é sinal de que Maria foi tomando consciência gradativamente do mistério que a envolveu e, tal como seu filho Jesus, pode-se dizer que Maria também cresceu, na fé, em sabedoria, graça e “estatura” espiritual. Sua humanidade contribuiu intensa e inevitavelmente à graça de Deus (cf. Lc 2, 48-52). ¹

Nesta perspectiva de crescimento na Fé a exemplo de Maria de Nazaré, centenas de peregrinos invadem as ruas de Belém do Pará todos os anos para celebrar a Rainha da Amazônia que veleja entre os fiéis devotos em sua berlinda. A devoção à Virgem de Nazaré tem sua origem em Portugal.

Um dos santuários mais antigos de Portugal é o de Nossa Senhora de Nazaré, cuja origem é contada, pelas crônicas antigas, da seguinte maneira. No ano de 1150, o primeiro Rei de Portugal, Afonso I, tinha entre seus vassalos um cavaleiro ainda jovem, mas cheio de coragem e virtude, chamado Fuas de Roupin, muito amigo de caça. No dia da exaltação da Santa Cruz, esse cavaleiro perseguia à disparada um veado. A região estava coberta de densa neblina, e ele não distinguia onde iria parar. De repente, viu-se no alto de um rochedo, à beira do mar, e, se o cavalo não tivesse estacado ali, ele se teria precipitado nas ondas espumantes. Cheio de horror, considerou o perigo supremo em que se achava e com toda a alma agradeceu a Deus sua salvação. Entretanto, ainda não estava livre do perigo, pois estava perdido, não podendo ir nem para diante nem para trás. Enquanto olhava ao redor para descobrir uma saída, viu de repente, numa pequena caverna, uma imagem de Nossa Senhora. Lançou-se de joelhos e tomou-a nas mãos, e, venerando-a com grande devoção, percebeu um papel que estava preso nela. Leu com grande pasmo que a imagem era muito antiga e já venerada em Nazaré nos primeiros tempos do cristianismo. Dizia o documento que, quando os imperadores de Constantinopla perseguiram o culto das imagens e mandaram destruí-las em todo o império, um monge levou-a para um convento da Espanha, nas vizinhanças de Mérida, onde foi venerada por causa de seus muitos milagres. ²

O círio é sem dúvida a manifestação devocional mais espetacular do culto de Nossa Senhora de Nazaré. Em Portugal e no Brasil, sobretudo, assumem diversas configurações, seja em forma de giro por diversas comunidades como acontece na região Oeste portuguesa, verdadeiras peregrinações organizadas e solenes; seja em forma de procissão percorrendo as principais artérias das cidades, como é o caso dos principais círios brasileiros, como o de Belém, Vigia ou Soure, no Pará, estado que tem a Virgem da Nazaré como padroeira, e que mobilizam cada um deles centenas de milhar de devotos todos os anos. Uma tradição secular, que se manifesta dos dois lados do oceano. Círio é, indubitavelmente, uma expressão indissociável do fenômeno de peregrinação ao longo dos últimos séculos e importantíssimo para pensar os cultos marianos em Portugal e Brasil. A palavra tem origem no latim “cereu”, de “cera”, e é vulgarmente utilizada para identificar uma vela de cera tradicionalmente colocada perto de uma imagem de devoção. A origem da sua associação a ritos e cerimonias religiosas é de difícil apuramento. É provável que a associação da luz e da cera, seu combustível, a contextos de culto seja um costume milenar, associada a muitíssimas práticas pré-cristãs. Contudo, é num contexto de celebrações e cerimonias religiosas cristãs que esta expressão e conjunto de práticas ganhará destaque, adquirindo um significando mais abrangente. Nesse contexto cristão, em sentido mais restrito devemos interpretar estas velas como guias, materializando a luz divina que devia acompanhar o penitente e peregrino. Em sentido lato estas velas funcionariam como um elemento de identificação da própria comunidade peregrina, que tradicionalmente as ofertavam como ex-voto à divindade no seu santuário. ³

Há diversas versões para o início da devoção por Nossa Senhora de Nazaré em Belém. Pesquisadores descrevem fatos que tentam explicar a origem, embasados em documentos ou nas narrativas apresentadas ao longo da história. Ainda em 1653, os Jesuítas iniciam a devoção a Nossa Senhora de Nazaré na localidade de Vigia de Nazaré, no Pará. Apesar da origem ser atribuída àquele local, o Círio enquanto romaria foi instituído somente a partir da metade do século XIX, vários anos após o de Belém. Na capital Paraense, Dom Frei João Evangelista, quinto bispo do Pará (1772 a 1782), que pertencia à Terceira Ordem Regular de São Francisco, transcreve em um manuscrito, atribuído ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, em Portugal, sua conversa com Plácido José de Souza, sobre como teria sido encontrada a imagem de Nossa Senhora de Nazaré em 1700. O Prelado visitou a ermida de Plácido logo após sua chegada a Belém. De acordo com o documento histórico, o achado acontecera ao final do mês de outubro, há poucos passos ao sul da estrada do Maranhão, sobre pedras lodosas, à margem de um córrego onde o gado se saciava. O bispo relata que à época os pais de Plácido ainda eram vivos e que ao falecerem foram sepultados à margem do igarapé. Plácido imaginou que a imagem poderia ser de algum peregrino em viagem para o Maranhão, já que os viajantes paravam ali para beber água. Também poderia ser de algum cristão que, surpreendido pelos indígenas, fugira ou morrera sem poder abrigar a estatueta. A choupana de Plácido, próxima ao ponto de água, era bastante procurada como pousada na estrada do Maranhão e por isso muitas pessoas conheciam a imagem, que começou a receber ceras e outros donativos. Ele lamentava não ter recursos para preparar um oratório mais decente, mas, de acordo com o relato de Dom Frei João Evangelista: “O coração do humilde era o melhor abrigo para a Rainha dos Céus”. O historiador Almeida Pinto confirma a existência do manuscrito, acrescentando que em 1773 foi iniciada a construção da segunda ermida por Plácido, com a primeira pedra abençoada pelo prelado. Outras versões para os fatos também estão presentes na tradição repassada ao longo de várias gerações entre os devotos, algumas relatando a origem de Plácido e da imagem, bem como a forma como foi encontrada e seus retornos misteriosos e que Plácido, no momento do achado, poderia estar recolhendo lenha, caçando ou levando o gado para beber água. As narrativas o apontam como agricultor, caçador, fidalgo e outras como caboclo. Filho de Manoel Aires de Souza, era sobrinho de Aires de Souza Chichorro, que foi um dos capitães lusos do Grão-Pará. Ana Maria de Jesus, esposa de Plácido, era natural do Pará, filha de Fernão Pinto da Gaia, irmão além-tejano Antônio Pinto da Gaia, também capitão-mor, que teria doado as terras na estrada do Maranhão, conhecidas ainda como Utinga. Relatos apontam que Plácido encontrara a imagem em uma bifurcação de um taperebazeiro (árvore do taperebá) e outros de que seria em uma espécie de nicho natural em meio a trepadeiras. E que, após achar a imagem, que estaria com um manto, percebeu costurado na parte interna um papel onde se lia “Nossa Senhora de Nazaré do Desterro”. Ele a levara para sua casa e a colocara em um pequeno altar de miriti, onde estavam um crucifixo e outras imagens de santos de sua devoção. No dia seguinte, a imagem teria sumido. Ao retornar ao local do achado, percebeu que ela se encontrava no mesmo lugar do dia anterior. O fato repetiu-se durante alguns dias e a notícia do “desaparecimento” se espalhou, provocando a intervenção das autoridades civis e eclesiásticas, fazendo com que fosse levada para o Palácio do Governo, para o Paço Episcopal e à recém-erguida Catedral, de onde ela também sumiu, sendo encontrada no mesmo local. Por conta dos desaparecimentos, Plácido teria entendido que a imagem deveria ficar no local onde fora encontrada e ali construiu uma ermida para abrigá-la. O local do achado é onde hoje se encontra a majestosa Basílica Santuário. O chamado milagre da “fuga da imagem” é tido como um prodígio que indica que o lugar teria sido escolhido por Deus para que ali a fé de seus filhos fosse manifestada.

Ainda hoje a graça do Pai se manifesta por meio da intercessão da Vigem Santíssima, que acolhe seus filhos para celebrar, louvar, bendizer e suplicar ao Senhor. A imagem é em si a memória e representação da Mãe que, trazendo o Filho amado nos braços, acolhe toda a humanidade N’Ele simbolizada. A doutrina Católica ensina que não são as imagens que fazem milagres, mas sim Deus Trino, que por intercessão de Maria, que nos antecede no Reino Celeste, realiza o impossível. Ao longo da história incontáveis são os relatos de graças alcançadas por intercessão de Nossa Senhora de Nazaré aos que acorrem ao templo dedicado à Rainha da Amazônia, comprovando que se trata de um lugar abençoado e consagrado a Deus, onde seu poder se manifesta de maneira inigualável. A verdadeira origem da imagem é desconhecida, supondo-se que seja de Portugal, visto que à época não haveriam “santeiros” habilitados para a elaboração desta espécie de escultura em Vigia de Nazaré, local onde a devoção foi primeiramente implantada pelos colonizadores. A estatueta possivelmente teria sido trazida pelos missionários Jesuítas, responsáveis pela difusão da devoção por este título mariano em outros locais no território amazônico. A maioria dos pesquisadores contesta a versão de que a imagem teria sido transportada por terra da localidade de Vigia pelo fato de que o caminho era perigoso por conta da presença de povos arredios ao longo do seu curso, fazendo com que só fosse possível a comunicação com Belém pelos rios. 4

O primeiro Círio foi realizado na tarde do dia 8 de dezembro de 1793, saindo do palácio do governo. Este roteiro se manteve até 1881. O segundo domingo de outubro só foi definido como o dia de realização da procissão do Círio em 1901.

Em 1854 o Círio passou a ser realizado de manhã, para evitar as chuvas que são mais comuns no período da tarde. A partir de 1882, o bispo Dom Macedo Costa, de comum acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Ferreira Carneiro, resolveu que o ponto de partida seria a Catedral de Belém, como acontece até hoje.

A imagem que participa das procissões é uma réplica, já que a santa encontrada por plácido tem mais de 300 anos. Apenas no Círio 200, em 1992, a Imagem que saiu na procissão foi a Imagem Original. 5

Essa celebração foi inscrita na Lista Representativa do Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, em dezembro de 2013, durante a 8a. seção do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, realizada em Baku (capital do Azerbaijão). Considerado uma das maiores concentrações religiosas do mundo, o Círio tem como ponto alto a procissão da qual participam mais de dois milhões de pessoas do Estado e de diversas partes do Brasil. Os paraenses consideram essa festa um grande momento anual de demonstração de devoção e solidariedade, de reiteração de laços familiares e manifestação social e política. 6

Vinícius Aparecido de Lima Oliveira
Associado da Academia Marial de Aparecida

Bibliografia:

1. CONTEÚDO aberto. In: Instituto Humanitas Unisinios. Disponível em:<http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598632-maria-de-nazare-a-luz-da-mariologia-desenvolvida-a-partir-do-concilio-vaticano-ii> . Acesso em: 15 fev 2021.
2. ADUCCI, Edésia. Maria e seus títulos gloriosos. São Paulo: Edições Loyola, 3 edição: fevereiro 2003.

3. CONTEÚDO aberto. In: Candidatura Unesco Patrimônio Imaterial: Nossa Senhora da Nazaré. Disponível em: . Acesso em: 15 fev 2021.

4. CONTEÚDO aberto. In: Círio de Nazaré. Disponível em:<https://cultosenhoradanazare.org/os-cirios/> . Acesso em: 15 fev 2021.

5. CONTEÚDO aberto. In: Portal G1. Disponível em: <http://g1.globo.com/pa/para/cirio-de-nazare/2015/noticia/2015/10/entenda-origem-da-devocao-e-do-cirio-de-nazare-em-belem.html>. Acesso em: 15 fev 2021.

6. CONTEÚDO aberto. In: IPHAN: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Disponível em: < http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/55>. Acesso em: 15 fev 202

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