Padroeiro de: Povo Russo
Localização: Kazan, Rússia
Por: Luciana Gianesini
Nossa Senhora de Kazan é uma das mais veneradas representações marianas da tradição cristã russa. O ícone recebe o nome da cidade de Kazan, onde, segundo a tradição, foi encontrado em 1579, após um grande incêndio. A celebração litúrgica ortodoxa da imagem ocorre em 8 de julho segundo o calendário juliano, correspondente a 21 de julho no calendário gregoriano. Há também uma segunda comemoração em 4 de novembro, ligada à libertação de Moscou em 1612.
O ícone pertence ao tipo Odighitria, termo grego que significa “Aquela que indica o caminho”. Maria é representada em meio corpo, com o Menino Jesus ao lado. O Menino, quase de pé, volta-se para a Mãe e ergue a mão direita em atitude de bênção. A origem exata da imagem venerada em Kazan não é conhecida com segurança; estudos sobre o ícone tradicionalmente o relacionam à arte bizantina.
O ícone possui uma cobertura metálica ornamental, conhecida como riza ou oklad, que deixa visíveis principalmente os rostos da Mãe e do Filho. Ao longo dos séculos, essas coberturas receberam ornamentos e pedras preciosas oferecidos pelos fiéis como expressão de devoção.
Em 1579, um grande incêndio atingiu Kazan e destruiu parte da cidade. Segundo a tradição, a Virgem Maria apareceu em sonho a Matrona, uma menina de nove anos, indicando o lugar onde estava escondido um ícone. Depois de procurar entre as ruínas, a menina e outras pessoas encontraram a imagem, que foi levada para uma igreja e passou a ser venerada pelos cristãos de Kazan. O relato tradicional também registra numerosos milagres atribuídos à intercessão da Mãe de Deus.
O sacerdote e posteriormente patriarca São Hermógenes, que naquela época servia em Kazan, registrou em 1594 um relato sobre o aparecimento do ícone e os milagres atribuídos à sua intercessão. A partir de então, a devoção se difundiu por diferentes regiões da Rússia.
A devoção a Nossa Senhora de Kazan ganhou especial importância durante o Tempo das Perturbações, período de graves conflitos políticos e sociais na Rússia. Em 1612, uma das cópias do ícone acompanhou as forças lideradas por Kuzmá Minin e Dmitri Pozharski na campanha que levou à retirada das tropas polonesas de Moscou. A partir desse acontecimento, Nossa Senhora de Kazan passou a ser especialmente associada à proteção da cidade e do povo russo.
Em Moscou, foi construída a Catedral de Nossa Senhora de Kazan, na Praça Vermelha, dedicada ao ícone. A devoção também se espalhou para São Petersburgo, onde outra importante cópia passou a ser venerada na Catedral de Nossa Senhora de Kazan.
O texto original desta devoção também relaciona o ícone à batalha de Poltava, em 1709, vencida pelas forças de Pedro, o Grande contra o exército sueco de Carlos XII. A referência correta é, portanto, 1709, e não 1790.
Em 1904, o ícone venerado em Kazan desapareceu juntamente com outros objetos preciosos do santuário. Décadas depois, uma imagem identificada como o ícone de Kazan reapareceu no Ocidente e chegou aos Estados Unidos. Em 1970, foi adquirida pelo Apostolado Mundial de Fátima, então conhecido como Exército Azul.
O ícone esteve em diferentes locais nos Estados Unidos e retornou a Fátima, Portugal, em 9 de maio de 1982. Em 1993, o Apostolado Mundial de Fátima transferiu sua propriedade e seu título à Santa Sé, para uso do Papa. O ícone permaneceu no apartamento pontifício de São João Paulo II e tornou-se também um sinal do desejo de aproximação entre católicos e ortodoxos.
Em 25 de agosto de 2004, São João Paulo II realizou no Vaticano uma celebração da Palavra diante do ícone e rezou especialmente pela unidade dos cristãos. No dia 28 de agosto de 2004, a imagem foi entregue por uma delegação da Santa Sé ao Patriarca Aleixo II e retornou à Rússia. O gesto foi apresentado pelo Vaticano como expressão do desejo de avançar no caminho do conhecimento, da reconciliação e da unidade entre católicos e ortodoxos.
A oração composta por São João Paulo II diante do ícone de Nossa Senhora de Kazan pede a intercessão de Maria pela unidade dos cristãos e pela reconciliação entre Oriente e Ocidente. O texto foi pronunciado pelo Papa durante a celebração de 25 de agosto de 2004.
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