Fr. Jonas Nogueira da Costa, OFM ¹
A piedade popular mariana é um conjunto de manifestações de afeto que o povo cristão dedica à Mãe do Senhor. Esse “conjunto de manifestações” não se dá de modo esporádico, mas é uma constante forma de permanecer num caminho de espiritualidade integrada e que se expressa na simplicidade de um coração apaixonado.
Essas manifestações constituem respostas à iniciativa divina, que nos convida a viver o mistério cristão de forma radical, envolvendo plenamente corpo e espírito, coração e mente. Sem desprezar os gestos, as cores e a poesia, elas se orientam sempre para expressar nossa confiança em Deus e na Virgem Maria diante das exigências da vida, bem como nossa gratidão pelas graças recebidas.
Por isso que a espontaneidade é um dos traços que mais caracteriza a piedade popular mariana. O fiel, tomado de sentimentos que naturalmente surgem em momentos de necessidade ou da gratidão pelas graças alcançadas, permite que “seu coração fale mais alto”, não como anarquia ou desprezo pela disciplina religiosa (longe disso!), mas como um imperativo do coração que o move naquela expressão de seus mais verdadeiros sentimentos.
E não tem como ignorar ou desprezar uma verdadeira exteriorização de sentimentos. Por isso, o Papa Francisco nos convida a
cada um a se perguntar se não há mais racionalidade, mais verdade e sabedoria em certas manifestações desse amor [...] do que nos atos de amor frios, distantes, calculados e mínimos de que são capazes aqueles que julgamos possuir uma fé mais reflexiva, cultivada e madura³.
O interessante é que, mesmo imerso em seus sentimentos, o fiel entra em íntima sintonia e solidariedade com os que estão vivendo a mesma experiência ao seu redor. O pulsar de um universo particular entra na cadência de outros universos particulares, numa uníssona exclamação de louvor à Grande Mãe de Deus, que nunca desampara os que a veneram.
Logo, percebemos que tudo depende da sinceridade dos sentimentos. Na multiplicidade das formas de expressão, a verdade do coração é uma regra inquestionável. Se vier a faltar esse visceral elemento, tudo se transforma numa coreografia sem música, num mecanicismo vazio ou numa vã tentativa de domesticar o sagrado com algo que beira à magia.
Por isso vale destacar a força que a palavra “piedade” traz consigo nesse contexto. Primeiramente porque ela se presta melhor ao uso teológico em detrimento da palavra “religiosidade”, que dada a sua carga sociológica, nem sempre se pergunta pela harmonia com a liturgia e pela sua forma de pertença ao contexto eclesial mais amplo. Isso não desmerece a religiosidade popular e suas manifestações. Apenas destacamos aspectos em que a piedade popular se integra melhor à dimensão eclesial em seu cuidado de não estar distante da liturgia, dos dogmas e do cotidiano da comunidade onde a pessoa está inserida4.
Mais ainda porque a palavra “piedade” deriva do termo bíblico “misericórdia” (eleéo), que, derivando do hebraico, evoca a imagem de “ventre”, de “vísceras maternas” (Jr 31,20; Os 11,8; Is 64,15; Mt 14,14). Deus em seu amor materno pela humanidade se comove no seu íntimo divino e se inclina cheio de ternura diante de nossa pequenez 5.
Logo, se falamos de uma “piedade popular”, é porque nos vemos diante de um Deus que se “contorce na sua intimidade” de amor por nós e a nossa resposta de amor é dada na medida da nossa humanidade, também expressando nosso amor do modo mais visceral e natural possível. Nas palavras de Santa Clara, a piedade popular, enquanto resposta de amor, é uma forma em que o fiel "ama totalmente Aquele que por [...] amor se entregou todo inteiro"6.
Tal compreensão já nos remete a um outro critério de observação em relação à piedade popular. Se é o “movimento interior externado” que pede sinceridade e pureza dos afetos, também ele só é autêntico quando provoca compaixão para com as outras pessoas.
Especificamente falando, não se vive uma piedade mariana se isso não provoca uma visão diferente e compassiva diante da questão da maternidade em situação de vulnerabilidade. Como alguém se pode dizer devoto de Nossa Senhora Aparecida e não ter posturas antirracistas?
Já fica muito claro que a piedade popular não são atos esporádicos de devoção, mas um movimento de vida que o Espírito Santo provoca no fiel.
E o Espírito Santo conduz a Igreja para seguir Jesus como Maria seguiu. De modo que, a piedade popular mariana é o modo como a Igreja segue Jesus caminhando com Maria.
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¹ Frei Jonas Nogueira da Costa, OFM. Doutor em Teologia Sistemática (pesquisa em Mariologia) pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Vice-presidente da Associação Brasileira de Mariologia; membro da Equipe Teológica da Academia Marial de Aparecida.
² CERVERA, Jesús Castellano. La pietà popolare alla madre della misericordia. In: DI DOMENICO, Piergiorgio; PERETTO, Elio (Org.). Maria Madre di Misericordia – Monstra te esse Matrem. Padova: Messagero di Sant’Antonio, 2003, p. 275.
³ FRANCISCO. Carta Encíclica Dilexit nos sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2024, n. 160.
4 BOFF, Clodovis M. Mariologia social. O significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulus, 2006, p. 550.
5 BUSCA, Gianmarco. A reconciliação “irmã do batismo”. Brasília: Edições CNBB, p. 44-45.
6 CLARA DE ASSIS, Cartas. In: TEIXEIRA, Celso Márcio. Fontes Franciscanas e clarianas. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 1708.
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