Revista de Aparecida

Como viver a sinodalidade na Semana Santa?

Leia a entrevista de Dom Gilson Andrade, presidente do Regional Leste 1 da CNBB

Escrito por Matheus Azevedo

20 MAR 2026 - 09H22 (Atualizada em 20 MAR 2026 - 12H00)

Thiago Leon

O Magistério da Igreja nos orienta em diversos pontos de nossa caminhada de fé, rumo à glória celestial, bem como sobre como viver os tempos litúrgicos com suas especificidades. Uma delas, vamos conhecer neste texto: a Semana Santa e sua relação com a sinodalidade.

A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, de 1963, expressa, de forma catequética, que a Semana Santa e o Tríduo Pascal são, respectivamente, a “Semana Maior” e o “Ápice do ano Litúrgico” (SC n. 102 e 106).

Por meio de uma analogia, observamos, por exemplo, que as expressões populares da fé, a Liturgia, a Palavra de Deus, os sacramentos e tantas outras possibilidades que nos aproximam de Deus são oportunidades de todo o Povo de Deus caminhar em sintonia com a Mãe Igreja em missão, em especial neste período em preparação para a Páscoa.

Com o objetivo de colaborar nesta reflexão sobre a Semana Santa e a vivência sinodal, Dom Gilson Andrade, bispo de Nova Iguaçu (RJ) e presidente do Regional Leste 1 da CNBB (Estado do Rio de Janeiro), contextualiza e nos orienta sobre a temática.

1.⁠Como a caminhada de Jesus até a cruz pode inspirar a Igreja a caminhar junta, ouvindo e acolhendo a todos?

Dom Gilson Andrade: A Semana Santa nos ajuda a aprofundar e experimentar o essencial da nossa fé e isso é indispensável para viver a sinodalidade de forma integrada no seguimento de Jesus.

Para Jesus, o caminho da cruz foi expressão do amor que não volta atrás na decisão de amar. Naquela difícil caminhada Ele encontrou muitas pessoas, cada qual teve o seu lugar na sua Paixão: sua Mãe, as mulheres que choravam, o Cirineu, o Bom Ladrão, a Madalena, o discípulo amado etc. Na cruz Ele reuniu os filhos de Deus dispersos, segundo afirma São João (11, 52). Na vocação sinodal da Igreja todos os batizados têm o seu lugar, que é preciso assumir. Porém, só é possível viver o compromisso da caridade que a sinodalidade requer, estando muito unidos a Cristo no mistério de sua doação máxima. É o seu amor que torna possível a união na missão de pessoas tão diferentes, mas todas marcadas pela vocação e a missão próprias da vida cristã. Os sacramentos celebrados, de forma especial no Sagrado Tríduo, são o lugar concreto do encontro com Cristo que reúne os filhos de Deus e os associa a uma mesma missão na Igreja a favor do mundo.

Diocese de Nova Iguaçu - Ascom Diocese de Nova Iguaçu - Ascom Dom Gilson Andrade, bispo de Nova Iguaçu (RJ)

2.⁠ ⁠De que modo as celebrações da Semana Santa podem favorecer uma maior participação e corresponsabilidade do povo de Deus?

Dom Gilson Andrade: A experiência de nossas paróquias e comunidades demonstra um interesse vibrante de participação nas celebrações da Semana Santa. É um momento do ano litúrgico que, por excelência, tem a força de unir todos os fiéis ao redor dos mistérios essenciais de nossa fé e inclusive os que habitualmente não frequentam nossas assembleias. A própria piedade popular, marcada pela ampla participação dos fiéis leigos e leigas, tem na Semana Maior uma de suas grandes expressões. Quantas tradições e associações foram criadas ao redor desses dias sagrado! A compaixão pelo Cristo sofredor é polo de atração e de comunhão e, por si mesmo, gera desejo de compromisso para estar ao lado do Senhor. Esta mística da Semana Santa pode sustentar o empenho que a sinodalidade pede no compromisso com a missão de toda a Igreja de anúncio do Evangelho do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus.

3.⁠ ⁠Como a experiência do lava-pés, na Quinta-feira Santa, nos ensina o estilo sinodal de serviço e humildade?

Dom Gilson Andrade: Na Quinta-feira Santa o maior se coloca a serviço de todos e, com seu gesto humilde, revela que a vida dos discípulos, na imitação fiel ao Senhor, tem a ver com a doação de si. Não há vivência de sinodalidade sem disponibilidade para o serviço. Não importa o lugar que se ocupa, o que de fato conta é a disposição para doar-se de modo desinteressado. O estilo sinodal pede a todos o despojamento de interesses pessoais e, ao mesmo tempo, a humildade para estar a serviço onde o Senhor estiver. O interesse pela projeção pessoal enfraquece a missão e desloca o foco de quem deve estar no centro: Cristo Jesus. O estilo sinodal nasce do amor que se doa e não de uma estratégia. A sinodalidade pede reciprocidade: todos têm algo a oferecer, mas também algo a receber. Servir e deixar-se servir.

4.⁠ ⁠Que passos concretos nossas comunidades podem dar para que a Semana Santa seja uma experiência de comunhão, participação e missão, sendo, de fato, uma caminhada sinodal?

Dom Gilson Andrade: Sintonizar com o sentido que a Igreja atribui a cada celebração e a cada rito. Viver com intensidade a renovação pessoal e comunitária através das celebrações dos sacramentos pascais. As celebrações por si mesmas requerem ampla participação ativa dos fiéis. Elas oferecem oportunidades de uma experiência particular de comunhão, envolvendo muitas pessoas na preparação, acolhendo sugestões, incluindo pessoas que habitualmente não colaboram nas atividades da Igreja. Além disso, as diversas celebrações da Semana Santa guardam em si um forte apelo missionário, uma vez que comunicam com o mundo externo, fora dos muros da nossas Igrejas. Desse modo, é importante um bom serviço de comunicação para alcançar outras pessoas que possam ter interesse nas celebrações.

5.⁠ ⁠Qual mensagem o senhor gostaria de encaminhar a todo o povo de Deus para a Semana Santa e para a Páscoa?

Dom Gilson Andrade: Deixemo-nos tocar pelo mistério do amor de Deus que está no centro de todas as celebrações da Semana Santa e, de modo especial, do Tríduo Pascal. A repetição anual desses ritos nos ajude a renovar nosso encontro com Cristo e nosso compromisso com a missão que Ele confiou à sua Igreja. Nossa vida manifeste através de gestos concretos de solidariedade e de acolhida que o Cristo está vivo e acompanha este momento desafiador da nossa história. A nossa comunhão em Cristo seja profecia de um mundo capaz de reconciliação, onde as pessoas se amem de verdade, para além de suas diferenças. A paz reine nos corações e, a partir dos corações, neste nosso mundo.

Conheça mais sobre a sinodalidade

Leia os textos sobre sinodalidade e se aprofunde nas temáticas no site a12.com/sinodalidade.

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