A história de uma das datas mais emblemáticas do calendário cultural brasileiro não começou em uma reunião formal, mas em uma conversa de bastidores que mudaria para sempre o destino da música de raiz.
Foi em 1964 que a dupla Tonico e Tinoco e o apresentador Geraldo Meireles lançaram a semente do que viria a ser o Dia do Sertanejo. Segundo recorda o radialista Lima Fernandes, a iniciativa foi um desdobramento natural da convivência entre artistas e a emissora.
Antes mesmo da criação oficial da data, caravanas de artistas sertanejos já viajavam até Aparecida para participar da Santa Missa e agradecer à Mãe Aparecida pelas graças alcançadas. Após as celebrações, os violeiros costumavam se reunir em frente à Basílica Histórica para cantar ao povo, em encontros espontâneos que acabariam se tornando tradição.
A ideia amadureceu entre conversas de camarim e programas de rádio. Geraldo Meireles, conhecido como o “Marechal da Música Sertaneja”, percebeu que aquele movimento já tinha força suficiente para se transformar em uma grande homenagem nacional ao homem do campo e à cultura caipira.
A dupla Tonico e Tinoco em foto para a capa de disco lançado em 1963
O despertar de uma tradição
A relação entre a Rádio Aparecida e o universo rural é muito profunda e anterior à oficialização de datas comemorativas. No entanto, foi em 1964 que essa ligação ganhou um marco definitivo. Em um Brasil que se urbanizava rapidamente, enquanto atravessava uma série de outras transformações sociopolíticas, os Missionários Redentoristas perceberam a necessidade de criar um espaço que preservasse os costumes e a música do interior.
A Rádio Aparecida acolheu imediatamente a proposta e ofereceu estrutura para a realização do primeiro grande encontro oficial dos artistas sertanejos. O evento aconteceu no Cine Aparecida, no dia 3 de maio de 1964, reunindo nomes históricos como Tonico e Tinoco, Liu e Léu, Belmonte e Amaraí, Zico e Zeca, Cacique e Pajé, Duo Guarujá, Zé Carreiro e Carreirinho, além das Irmãs Galvão.
A escolha do dia 3 de maio também carregava um forte simbolismo popular. Tradicionalmente, o povo da roça celebrava nessa data a festa da Santa Cruz, expressão profundamente ligada à religiosidade sertaneja e às devoções do homem do campo.
.:: Dia do Sertanejo: saiba como tudo começou
Nesse contexto, o Dia do Sertanejo surgiu como uma resposta pastoral e artística para unir os romeiros que visitavam Aparecida à sua própria cultura. Essa experiência mostrou que o rádio poderia ser o grande espelho da vida sertaneja, levando a mensagem do Santuário através da linguagem que o homem do campo mais amava.
Mais do que um espetáculo musical, o encontro passou a representar a união entre fé, tradição e identidade popular. Em Aparecida, os acordes da viola encontraram espaço definitivo para ecoar como expressão de devoção, gratidão e pertencimento cultural.
O ex-locutor da Rádio Aparecida, Praianinho, foi um dos bastiões das primeiras comemorações do Dia do Sertanejo na Rádio Aparecida
A estruturação do evento exigiu uma curadoria rigorosa e uma logística que transformou o antigo Cine Aparecida em um verdadeiro templo da cultura popular.
Figuras como Praianinho, baluarte da música sertaneja, foram fundamentais para dar autenticidade ao palco da emissora. Sob sua liderança, a Rádio Aparecida recebia tanto duplas consagradas quanto novos talentos, sempre mantendo o compromisso com a fidedignidade da música sertaneja raiz.
Também tiveram papel importante nessa construção nomes como Tatú (Benedito Minas da Silva), um dos primeiros comunicadores sertanejos da emissora, além de Leite Sobrinho e Pascoal Blanque, responsáveis por fortalecer o relacionamento entre artistas, gravadoras e a Rádio Aparecida.
Os programas sertanejos passaram a ocupar espaço fixo na grade da emissora e ajudaram a consolidar a Rádio Aparecida como referência nacional da música caipira. O rádio se transformou em companhia diária do trabalhador rural, transmitindo não apenas canções, mas também notícias, fé e identidade cultural.
O livro "Rádio Aparecida: 50 anos de história", do Pe. Gilberto Paiva destaca, na página 179, como este projeto se tornou um dos pilares da programação definitiva da casa.
“O Dia do Sertanejo começou a se organizar em 1964 como forma de homenagear o homem do campo e, em segundo lugar, como forma de se tentar unir a classe sertaneja, reunindo cantores, duplas e compositores.”
Luiz Carlos de Oliveira, radialista, (Citado em: PAIVA, Gilberto. 50 anos de história, p. 179)
Registros históricos da época mostram auditórios lotados, evidenciando o papel da rádio como o "jornal do homem do campo" e um elo vital entre o sertão e o Santuário Nacional.
Com o passar das décadas, o evento ampliou seu alcance sem perder suas raízes. A programação passou a integrar transmissões especiais pela rádio, televisão e internet, mantendo viva a missão de valorizar a cultura caipira e aproximar os romeiros da Casa da Mãe.
.:: Reveja a transmissão da 62ª edição, em 03 de maio de 2026
Desde o seu início, o Dia do Sertanejo não foi planejado como um evento isolado, mas como parte da missão da Rádio Aparecida. A institucionalização da cultura popular dentro da grade artística, como já mencionamos, garante que o patrimônio imaterial brasileiro tenha voz e vez.
Hoje, após mais de 60 anos de história, a tradição da música caipira segue firme, acompanhando gerações de ouvintes e consolidando a Rádio Aparecida como a casa do sertanejo em todo o país. É uma trajetória que olha para o futuro sem nunca se afastar de suas origens e de seus valores.
O evento continua reunindo milhares de devotos, artistas e famílias que enxergam na música sertaneja raiz uma expressão legítima da alma brasileira. Em cada edição, a viola, o chapéu de palha e as canções do interior seguem reafirmando o elo entre cultura popular e fé mariana.
A criação do Dia do Sertanejo foi um dos grandes marcos da década de 1960. Clique abaixo para explorar outros momentos dessa trajetória, ouvir áudios históricos e mergulhar na evolução da comunicação que une o Brasil em torno da fé e da cultura.
Fonte: PAIVA, Gilberto. 50 anos de história: Rádio Aparecida. Aparecida: Editora Santuário, 2001.
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