Por Luciana Gianesini Em Assembleia Geral CNBB Atualizada em 08 MAI 2019 - 09H46

Dom Claudio Hummes: "O caminho é o diálogo"

Arcebispo Emérito de São Paulo fala sobre o Sínodo da Amazônia, que acontece em outubro, em Roma

Na quarta entrevista do Redação A12 ao vivo especial da 57ª Assembleia Geral da CNBB, o Arcebispo Emérito de São Paulo e Referencial para a Amazônia na CNBB, Dom Claudio Hummes, falou sobre o Sínodo programado para outubro próximo, em Roma, e as urgências para a Igreja na região amazônica.

Dom Claudio começou falando sobre a escolha de seu nome como relator do Sínodo da Amazônia: “Recebi este encargo com muita modéstia, muita humildade. É claro que tantos outros poderiam fazer este trabalho; qualificados, gente que vive ali na Amazônia. Agradeço muito, é claro, a confiança do Papa por me dar este encargo. Vou tentar dar o melhor de mim para realizar-se”, disse ele.

:: Papa nomeia Dom Claudio Hummes para ser relator do Sínodo da Amazônia

Gustavo Cabral
Gustavo Cabral


O que é o Sínodo

O jornalista Eduardo Gois perguntou, então, o que é o Sínodo e por que a pauta neste momento é a Amazônia. “O Sínodo é uma assembleia de bispos que foi instituída ainda pelo Concílio Vaticano II e, depois, de fato instituído por Paulo VI. Deveria dar uma continuidade, para não precisar reunir-se a cada pouco tempo, um concílio (que seriam todos os bispos, do mundo inteiro). Também porque, hoje, a história é muito rápida e os concílios deveriam também acompanhar esta rapidez. Então, o sínodo é como que um pequeno concílio, mas com esta diferença de que, até hoje o sínodo é apenas consultivo e não deliberativo, como é um concílio", esclareceu.

"Normalmente, nesses grandes sínodos ordinários (para todo o planeta), existem delegados, quer dizer, cada conferência episcopal elege alguns bispos, delegados segundo um certo critério que Roma apresenta. Estes, então, formam o sínodo, que trata de algumas questões importantes que a Igreja quer aprofundar, tratar e levar a efeito na pastoral depois", explicou Dom Claudio.

Por que falar sobre a Amazônia

Dando sequência, o arcebispo emérito explicou como surgiu a ideia de se realizar um sínodo especificamente sobre a Amazônia. "O sínodo específico para a Amazônia surgiu exatamente das grandes necessidades da região: em primeiro lugar, porque o Papa que quer uma igreja mais missionária, em saída, reformada. E a Amazônia é um território muito especial, aqui na América Latina, de missão. Então, como realizar a missão, dentro do espírito novo do Papa Francisco, nessa grande área que é a Pan-Amazônia? E também porque estamos numa crise climática e ecológica no mundo todo, como ficou muito claro na COP 21 de Paris, no acordo climático", esclareceu. 

Ele aponta que há uma crise grave e urgente e, nessa crise, a Amazônia joga um papel fundamental. Sem aquele bioma, segundo Dom Claudio, o planeta não tem condições de sobreviver de modo sadio. De acordo com ele, é necessário salvar a Amazônia, e isto é uma questão urgente e grave para o planeta todo.

"O Sínodo entra dentro deste contexto, e também preparado pela Laudato si, onde o Papa, já antes de Paris, tinha escrito aquele documento e apresentado essa problemática enorme, colocando a Amazônia como fundamental para vencer essa crise. Então, começou-se a pensar numa igreja mais unida em toda a Amazônia. Não apenas na área brasileira, que já tem uma história bastante grande, com muita atividade, muita presença.

Os bispos já fizeram, no passado, um grande encontro, que marcou toda a historia da igreja na Amazônia. Mas agora, com os outros 8 países que tem a região amazônica (Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Suriname, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa), como fazer um plano de pastoral, de igreja para toda a Amazônia, somando forças, de todo um processo de uma caminhada? Nesse contexto foi que o Papa convocou este sínodo, onde irão todos os bispos da Pan-Amazônia", concluiu.

Dom Claudio também disse que o atual governo brasileiro interpretou de uma maneira equivocada o que é o Sínodo. "O governo se pronunciou, vendo no Sínodo uma certa 'ameaça' para a soberania nacional, pela intervenção que houve pelo Gen. Heleno e toda a repercussão recente que tivemos. De fato, houve um equivoco muito grande. O sínodo não vai tratar de soberanias nacionais. O sínodo é da Igreja, para a Igreja e vai fazer um trabalho de Igreja para esta região. Nunca se pensou em algo diferente. A autonomia da Igreja, na sua atuação, está muito bem definida na Constituição e também no acordo do Brasil com a Santa Sé. É dentro destes parâmetros que trabalhamos", esclareceu.

Divulgação
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Diversidade de ministérios para uma Igreja em Saída

A respeito de uma eventual necessidade maior da formação de diáconos permanentes para atuarem em áreas remotas, como o interior da região amazônica, Dom Claudio disse ser o ministério do diaconato permanente fundamental, mas não apenas nestas regiões onde faltam padres.

"É um ministério que tem seu próprio âmbito de atuação; não é apenas uma suplência. Eles têm seu campo específico de trabalho, seja na Palavra, nos Sacramentos ou na Administração das igrejas. Eles têm seu lugar em qualquer diocese e em qualquer lugar do mundo. Quanto mais diáconos, melhor, mas não bastam apenas os diáconos. Tem que ter padres e bispos também.

A igreja é feita assim. Eles têm um campo comum e um campo específico. É necessário que se providenciem esses três. O que falta é o específico dos padres. Não há, por exemplo, Eucaristia no interior da Amazônia e isso é um dano fundamental. Uma comunidade que não tem Eucaristia, terá muitas dificuldades de sobreviver a longo prazo", apontou Dom Claudio.

Diálogo inter-religioso é o caminho

O último ponto do bate-papo com Dom Claudio Hummes foi a respeito das outras denominações cristãs que têm chegado onde a Igreja Católica não chega. "Não se trata de competição. O caminho é o dialogo. Muitas vezes, não há vontade - e tudo se complica. Na missão geral, independente das várias confissões cristãs que atuam na Amazônia e do modo como atuam e outras questões um tanto polêmicas, o que é necessário é o dialogo inter-religioso, principalmente com os indígenas. Eles têm seu próprio modo de se relacionar com a divindade e viver a espiritualidade da divindade. Deus sempre esteve presente na história deles. A igreja não pode simplesmente implantar uma igreja europeia, e ignorar isso, toda a sua identidade religiosa. O dialogo é fundamental", finalizou.

Confira a íntegra da entrevista no vídeo abaixo:


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