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Brasil

É preciso voltar a se indignar!

Mariana Mascarenhas (Mariana Mascarenhas)

Escrito por Mariana Mascarenhas - Redação A12

07 OUT 2021 - 09H05 (Atualizada em 07 OUT 2021 - 09H26)

Onde foi parar nosso senso de compaixão? Essa é uma pergunta que eu me faço todos os dias, especialmente nestes tempos conturbados em que vivemos, marcados por pandemia, corrupção, aumento da pobreza, do desemprego, da ganância, do desrespeito e de tantas outras questões presentes na sociedade. Mas, afinal, tudo não passa de problemas que sempre existiram? Sim! Porém, a anormalidade mundial causada pelo novo coronavírus exacerbou uma série de outros agravantes, que se intensificaram ainda mais.

Aqui no Brasil, se compararmos o período de agora (outubro de 2021), com o cenário de um ano atrás, certamente perceberemos um avanço no combate à pandemia da Covid-19, em razão da chegada da vacina, e a consequente diminuição do número de mortes e de internados devido à doença, permitindo um aumento da flexibilização do comércio e de outras atividades. No entanto, será que temos motivos para comemorar?

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Há algumas semanas, dados e imagens trágicas trazidos pelas mídias surgiam em nossas telas a todo o momento. Um forte exemplo é a extensa e a duradoura fila de pessoas em diferentes regiões do país à espera de ossos e pedaços de carne, descartados por supermercados e açougues, que foram distribuídos em caminhões para a população mais carente. Foram diversas as fotografias e vídeos exibidos de um grande tumulto em torno dos veículos, que faziam a distribuição das sobras. Cenas tristes, resultante de dados preocupantes.

De acordo com o CadÚnico, o Cadastro Único do Governo Federal, entre 2019 e junho deste ano, ao menos 2 milhões de famílias brasileiras caíram para a extrema pobreza, o que significa uma renda per capita de até R$ 89 mensais. O resultado desse panorama é o aumento de pessoas em situação de rua, incluindo famílias inteiras. E muitos que não chegaram a tal situação, também enfrentam dificuldades, afinal, no segundo trimestre deste ano, o Brasil atingiu a marca de 14,4 milhões de desempregados, com uma inflação de 10,05% no acumulado em 12 meses – é a primeira vez que ultrapassa dois dígitos, desde fevereiro de 2016.

Leia MaisO que São Francisco nos ensina sobre o amor a Deus e ao próximo?Santuário Nacional lembra 600 mil vítimas da pandemiaObviamente, não podemos creditar à pandemia como única responsável por tal panorama, afinal a forma como ela foi conduzida, principalmente pelo Governo Federal, com atrasos na vacinação, descrença na gravidade dos fatos, má distribuição do auxílio emergencial, entre inúmeras outras questões, contribuíram para o caos.

No entanto, a explosão informacional midiática, ao invés de conscientizar a população a respeito de tais questões, muitas vezes, gera indiferença em razão da superficialidade com que muitos absorvem os fatos.

Assim, de modo paradoxal, o excesso de conteúdo virtual, no lugar de instigar a leitura, provoca uma repulsa por uma pesquisa mais aprofundada. Basta ler apenas o título e, no máximo, o primeiro parágrafo de uma notícia, para nos definirmos como detentores da informação.

Percebemos, então, como o mau uso das mídias virtuais está aniquilando nosso senso de compaixão. Não há mais tempo para absorver o conteúdo passado. A imagem de pessoas brigando por ossos ganha uma visibilidade momentânea que, no máximo, será compartilhada em posts nas redes, os quais, logo em seguida, serão substituídos por outros.

Da mesma forma, percebemos tal indiferença com a explosão de outras situações, como o depoimento da advogada Bruna Morato, representante dos médicos que trabalharam na Prevent Senior, que denunciou uma série de atrocidades do convênio, entre elas a redução do fornecimento de oxigênio a pacientes internados por Covid, para reduzir custos e liberar leitos. “Óbito também é alta” seria um dos lemas da empresa. Palavras e imagens que deveriam nos indignar e inquietar, mas são aniquilados pela freneticidade das redes.

plo/Shutterstock
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Diante de tudo isso, qual a solução?

No dia 15 de outubro de 2020, o Papa Francisco lançou para o mundo o Pacto Educativo Global, um chamado para discussão e mobilização de instituições, igrejas e governos em torno de políticas educacionais e institucionais pautadas em uma educação humanista e solidária. Humanização e Solidariedade! Eis duas palavras que urgem nestes tempos difíceis e que, inseridas na educação, são essenciais para que voltemos a ter compaixão pelo próximo.

Somente por meio de uma formação integral, que dê voz e vez a todos e que gere inconformismo e inquietação com a realidade apresentada, a fim de construirmos uma sociedade mais justa e fraterna, é que poderemos romper as bolhas do egoísmo e da indiferença, para alcançarmos a compaixão. A educação é o primeiro passo e o chamado do Papa Francisco para o Pacto é a esperança de um mundo melhor.

Que voltemos, então, a nos indignar com a realidade!

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Mariana Mascarenhas (Mariana Mascarenhas)
Mariana Mascarenhas - Redação A12

Mariana da Cruz Mascarenhas é Jornalista e Mestra em Ciências Humanas. Atua como Assessora de Comunicação e como Articulista de Mídias Sociais, economia e cultura.

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