Por Joana Darc Venancio Em Brasil

Educar não se reduz à formação de competência tecnológica

Visivelmente verificamos a grandiosa importância dos aspectos técnicos à formação do sujeito. Não é possível negar a importância dos mesmos, mas é preciso interrogar-se sobre concepção de que a boa educação é a que prepara para o desenvolvimento da capacidade de lidar com os desafios da sociedade tecnológica. Papa Francisco, no Discurso à União Católica Italiana de Professores, Dirigentes, Educadores e Formadores, em 14 de março de 2015, afirmou: "Vós deveis ensinar tanto os conteúdos de uma determinada matéria, como os valores e os hábitos de vida. São estes os três pontos que vós deveis transmitir. Para aprender os conteúdos é suficiente o computador, mas para entender como se ama, compreender quais são os valores e os hábitos que criam harmonia na sociedade, é necessário um bom professor".

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As mudanças ocorridas em larga escala nas últimas décadas fizeram das tecnologias um marco determinante para a produtividade e para a “suposta formação do sujeito”. Sendo assim, é exigido, que os indivíduos sejam educados para viverem em um mundo no qual o processo de mudanças é tão radical e veloz, que o objetivo da educação passou ser o desenvolvimento de competências. O catecismo da Igreja Católica ensina:

A ciência e a técnica exigem, por seu próprio significado intrínseco, o respeito incondicional dos critérios fundamentais da moralidade; devem estar a serviço da pessoa humana, de seus direitos inalienáveis, de seu bem verdadeiro e integral, de acordo com o projeto e a vontade de Deus. (§2294)

A exigência de formação de sujeitos competentes tecnicamente para a sociedade tecnológica aparece como uma condição indiscutível. Até certo ponto, esta concepção está marcada por uma abordagem semelhante à confiança, de gerações anteriores, no progresso humano ilimitado através das descobertas científicas. Papa Francisco, no Discurso à plenária da Pontifícia Comissão para a América Latina, em 28 de fevereiro de 2014, alertou: "O primeiro critério da educação é a constatação de que educar (...) não consiste apenas em transmitir conhecimentos e conteúdos, mas implica outras dimensões: transmitir conteúdos, hábitos e sentidos dos valores, estes três elementos juntos".

As tecnologias podem assumir a marca de nossa identidade? Somos por elas determinados? Caberia à Educação formar para a utilização das tecnologias como a essencial ação indispensável à condição humana? O Catecismo da Igreja Católica nos permite responder com segurança essas interrogações:

(...) A ciência e a técnica são recursos preciosos postos a serviço do homem e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos; contudo, não podem indicar sozinhas, o sentido da existência e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, do qual provêm sua origem e seu crescimento; portanto, encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua finalidade e a consciência de seus limites. (§2293)

A questão também diz respeito aos avanços tecnológicos no âmbito das muitas ciências e que na medicina fica ainda mais fácil perceber o que nos ensina a Igreja quando afirma que a ciência e a técnica “encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua finalidade e a consciência de seus limites”. Assim, nem todas as inovações devem ser admitidas pelo simples fato de acelerar um procedimento, ou supostamente a cura de uma doença há muito combatida. Não foi esta a discussão sobre as células-tronco embrionárias, ou sobre o uso de cobaias humanas – ainda que voluntárias – em procedimentos cirúrgicos? Vale lembrar o filme Medidas Extremas, de 1996, que trouxe à tona esta discussão, embora não explicitamente.

As tecnologias não devem ser fins em si mesmas, mas canais, que ajudam o sujeito a situar-se no contexto de sua condição humana e de sua identidade planetária em busca do Bem Supremo. Na lógica da formação de competência tecnológica, a humanidade do sujeito se racionaliza e para que não seja perdida a importância da mesma é o conhecimento científico, que controla sua condição humana.

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O sujeito da educação, neste sentido é reconhecido como um sujeito que precisa do aprendizado de uma técnica, de um currículo, de um método; a administração de uma espécie de disponibilidade natural, comum a todos os homens, que pode ser controlada e aprimorada. O conceito de competência ganha no Brasil espaço e estatuto privilegiado a partir das orientações do sociólogo suíço Phillippe Perrenoud. Em sua obra Dez novas competências para ensinar, (2002.p.14) Perrenoud indica aos professores, o desenvolvimento de dez competências que julga essenciais á sua ação docente. Seriam elas:

1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem.

2. Administrar a progressão das aprendizagens.

3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação.

4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho.

5. Trabalhar em equipe.

6. Participar da administração da escola.

7. Informar e envolver os pais.

8. Utilizar novas tecnologias.

9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão.

10. Administrar sua própria formação contínua.

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1. As competências não elas mesmas saberes, savoir-faire ou atitudes, mas mobilizam, integram e orquestram tais recursos.

2. Essa mobilização só é pertinente em situação, sendo cada situação singular, mesmo que se possa tratá-la em analogia com outras, já encontradas.

3. O exercício da competência passa por operações mentais complexas, subentendidas por esquemas de pensamento, (...) que permitem determinar (mais ou menos consciente, e rapidamente) e realizar (de modo mais ou menos eficaz) uma ação relativamente adaptada à situação.

4. As competências profissionais constroem-se, em formação, mais também ao sabor da navegação diária de um professor, de uma situação de trabalho à outra (Le Boterf, 1997).

O conceito de competência se aproxima da ideia de uma capacidade humana de dominar recursos cognitivos (raciocínio, cálculo, identificação, compreensão, etc.). Não se trata de uma rejeição à ideia da formação de competências, pois esta é uma dimensão necessária e importante na formação do sujeito, mas um alerta de que Educar não se reduz à formação de competência tecnológica.


Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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