Por Joana Darc Venancio Em Brasil Atualizada em 08 ABR 2019 - 11H28

Sistema Braille é divisor de águas na vida da pessoa cega

A humanidade já sofreu muitas consequências maléficas, oriundas de determinados avanços científicos. No entanto, também foi beneficiada com muitas invenções que defendem e promovem a dignidade humana. O Catecismo da Igreja Católica explica:

(...) A ciência e a técnica são recursos preciosos quando, postos ao serviço do homem, promovem o seu desenvolvimento integral em benefício de todos.
Mas, só por si, não podem indicar o sentido da existência e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, a quem devem a sua origem e progressos.
Por isso, é na pessoa e nos seus valores morais que encontram a indicação da sua finalidade e a consciência dos seus limites. (2293).

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Louis Braille, o inventor do “Sistema Braille” deixou para o mundo tão honrosa contribuição. Perdeu a visão aos três anos. Teve o olho esquerdo perfurado quando brincava na oficina em que seu pai fabricava arreios. O ferimento causou grave infecção, provocando a perda do olho direito também. Na adolescência, criou um código de escrita. O seu desejo de aprender era tão grande que logo ingressou, ganhando uma bolsa de estudos, no Instituto para Jovens Cegos de Paris, em 1819.

No Instituto, descobriu o sistema de leitura em textos impressos em relevo. A partir disso, alimentou sua curiosidade e determinação, na busca de novas formas para facilitar a leitura e a escrita dos cegos. Em 1829, marcou para sempre a história da humanidade, com a criação do “Sistema Braille”.

Vale conhecer o depoimento da Prof.ª Margareth de Oliveira Olegário Teixeira: "O Braille sem dúvida foi um divisor de águas na vida da pessoa cega. Fui alfabetizada através do sistema Braille, aos sete anos de idade, no Instituto Benjamin Constant. Hoje sou professora da Educação Básica nesta instituição centenária, milito na Educação de deficientes visuais há 12 anos e ministrei aulas para pessoas com deficiência no Município de Queimados (RJ). Fiz Graduação em pedagogia, Pós em psicopedagogia e Orientação Educacional e Mestrado em Educação. Nestas etapas, utilizei o computador".

O Braille é um canal insubstituível na alfabetização, possibilitando o acesso à leitura, à escrita e à inclusão social dos cegos. Evidente que, com os avanços tecnológicos, muitas outras ferramentas têm facilitado e dignificado o cotidiano das pessoas cegas, mas o Braille continua sendo um grande recurso, vindo de uma época que nada havia.

Prof.ª Maragareth, dando continuidade ao seu depoimento, explica: "Penso ser importante salientar que, além de escrever textos em Braille, também é possível registrar partituras musicais, cifras de músicas e eu sei fazer isso. O Braille foi muito importante para tal, pois me deu autonomia. Atualmente, utilizo também outras tecnologias assistivas para deficientes visuais, leitores de tela, smartfones, dentre outras. Porém, o Braille não deixou de ser importante e imprescindível em minha vida.

O Braille é essencial também para a inclusão escolar. Faz-se necessária a qualificação de docentes neste aprendizado. Não se recomenda a substituição do Braille por outras tecnologias, principalmente, na fase inicial da aquisição da escrita. O Braille jamais será obsoleto, embora eu o utilize de maneiras diferentes da fase em que não havia outros recursos".

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O Braille continua sendo referência, não somente histórica, mas concreta e real para os cegos. No site, Bengala Legal, ganhador de vários prêmios de acessibilidade, atualmente administrado por um grupo de cegos e criado por Marco Antonio de Queiroz – MAQ, falecido em 02 de julho de 2013, podemos confirmar a importância do Braille:

"Há mais de 150 anos que o 'Braille' é o meio usado por excelência pelos cegos para a leitura e escrita. 'Ler com os dedos' tornou-se tão vulgar para os cegos que, hoje em dia, não se pode pensar em qualquer programa de reabilitação que não passe pela aprendizagem do Braille. É interessante notar que, mesmo com o advento das novas tecnologias e o consequente aparecimento de formas de acesso alternativas, o Braille continua a ser o melhor meio de tomar contato com a escrita".

Leia MaisA pedagogia do presépioBrasileiros que ainda não “se inclinam para escrever” e “não se levantam para ler”Dia do professor: Pela Esperança, há o que comemorar!Professores: testemunhas de vida e de esperançaNos Institutos especializados o Braille é ensinado, mas também deveria ser ensinado nas escolas regulares. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 92394/96, Capítulo V, a educação especial é uma modalidade da Educação, que preferencialmente, deve ser oferecida na rede regular de ensino. No entanto, ainda não é uma realidade cotidiana nas escolas das redes públicas e privadas. Há grande lacuna na inclusão dos cegos. Alguns profissionais, em escolas espalhadas pelo Brasil, se esforçam, para que o Braille faça parte do cotidiano escolar. Há sistemas de ensino, bem estruturados em alguns estados e Municípios que se preocupam de forma coerente com a inclusão dos cegos. No entanto, é uma parcela mínima.

De forma geral, não há, nas escolas regulares, um plano prático de inclusão dos cegos, mesmo que Leis de Inclusão já existam. Há grande dificuldade de inclusão, levando em conta a falta de preparo dos profissionais e a ausência dos recursos didáticos para a aprendizagem.

A professora Marlise Viana da Nobrega Campos, Graduada em Letras, Mestre em Educação, Professora de Inglês do Ensino Fundamental II do Instituto Benjamin Constant, Rio de Janeiro, gentilmente nos ofereceu alguns pontos de reflexão sobre a Educação dos Cegos e o Sistema Braille:

A pessoa deficiente

Temos que ter em mente que a pessoa com deficiência não é um ser humano peculiar. Ela só necessita de recursos adequados à sua condição fisiológica para se desenvolver social, cultural e psiquicamente e, desse modo, serem incluídos nos diversos contextos sociais. A oferta de tais ferramentas adaptadas, bem como o atendimento educacional especializado é o que promoverá a sua independência e uma melhor qualidade de vida.

O Cego e o Braille

No que diz respeito à pessoa com deficiência visual, podemos classificá-la em cegos com perda total da visão e pessoas com baixa visão, que são os que apresentam ainda resquícios visuais. Nesse sentido, do ponto de vista pedagógico, o material em Braille é um recurso que permite o acesso da pessoa cega ao conhecimento, às informações, assim como o material ampliado é o meio usado para os que têm baixa visão.

Desafios da inclusão

No cenário educacional, vimos não só a falta de recursos adaptados, que vai desde um lápis adaptado a softwares mais elaborados, mas também professores despreparados para lidar com tal alunado e infraestrutura escolar precária, impedindo assim a igualdade de condições para a sua inserção na vida acadêmica e, consequentemente, no mercado de trabalho. Isto é um reflexo do abismo que há entre a realidade e o que preconiza a lei, pois temos todo um aparato legal que garante o acesso da pessoa com deficiência “à educação, à saúde, aos bens e serviços coletivos, dentre outros” (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988) para proporcionar a igualdade de condições, porém os obstáculos ainda existem na prática.

A Inclusão do Cego

O ponto de partida para a inclusão da pessoa com deficiência visual ou com qualquer outra deficiência não está em discutir, se as escolas regulares de ensino ou as especializadas é a mais adequada à sua formação integral. Isso cabe a decisão de seus pais. Mas sim na reestruturação que uma ou outra deve passar nas suas estratégias de ensino, nos currículos e práticas pedagógicas para oferecer um ensino de qualidade para a pessoa com deficiência.

As Escolas especializadas e as escolas regulares

Quanto à situação da manutenção das escolas especiais, o que prescreve a lei é que se deve preferencialmente matricular os alunos com deficiência nas redes regulares de ensino, e que os casos que necessitem de apoio pedagógico mais intenso sejam articulados com o atendimento dos serviços da Saúde, Trabalho e Assistência Social, devendo ser direcionados às instituições especializadas (Resolução n. 4, de 02 de outubro de 2009).

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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