Por Eduardo Gois Em Brasil Atualizada em 08 NOV 2017 - 11H44

Relação do homem com a imagem é tema de livro

Elas estão por todos os lados sempre atuantes e, mesmo quando fechamos nossos olhos, continuam a permear nossos pensamentos, inclusive, e até nossos sonhos: as imagens. Surgidas na humanidade desde que esta se fez presente, elas se traduzem em expressões culturais, históricas, sociológicas, religiosas, entre inúmeros outros aspectos e que, por isso mesmo, transcendem à história dos indivíduos, exercendo forte influência sobre eles.


Reprodução
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Assim, a leitura das imagens é fundamental para entendermos o poder de persuasão que elas podem exercer. Será mesmo então que uma simples fotografia pode ser interpretada como o registro de uma realidade, reflexo do mundo e do homem? O que seria essa realidade? Reflexo sob o ponto de vista de quem? Essas reflexões são colocadas no livro "Imagem: reflexo do mundo e do homem? – Questões acerca da iconologia, iconografia e iconofotologia".


Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

A obra é fruto do grupo de pesquisa CONDESIM-FÓTOS DGP/CAPES da Universidade de Santo Amaro (UNISA), além de ter a participação especial de grandes outros pesquisadores da área, tendo como organizador o Prof. Dr. Jack Brandão – Mestre e Doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP) –, que desenvolveu o conceito de iconofotologia, com o qual mantém sua linha de pesquisa. O Portal A12 bateu um papo com o organizador do livro para refletir algumas questões.

Portal A12 - A ideia de organizar o livro partiu de qual necessidade?

Prof. Dr. Jack Brandão - Primeiramente, da necessidade acadêmica de divulgação dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa, do qual sou coordenador; além de, acredito ser o mais importante, mostrar às pessoas a importância de se ter uma relação de “respeito” para com as imagens, isto é, que saibam de seu poder e de sua influência sobre nós.

A12 - A imagem influencia o ser humano de que forma?

Jack Brandão - É por meio das imagens que lemos o mundo que nos cerca, isso pressupõe que tenhamos uma grande dependência em relação a elas, não só para poder enxergar tudo o que existe em nossa volta, como também para enxergar aquilo que não está presente, como os sonhos e a imaginação; ou o mundo mítico e o divino. Há, porém, um grande problema: à diferença dos chamados homens “primitivos” que possuíam um respeito quase sacramental em relação às imagens, nós – os “civilizados” – não acreditamos em tal dominação, negamo-la continuamente, como se isso fosse mera superstição; mas, enquanto agirmos dessa maneira, mais elas nos dominam, já que são muito bem empregadas por aqueles que sabem de seu poder e dos meios para empregá-lo. Exemplos não faltam na história humana.

A12 - Estamos mergulhados em imagens e não percebemos?

Leia Mais"Chega de celulares na missa", diz Papa FranciscoJack Brandão - Mais ou menos... Não temos mais é a consciência delas, tamanha é sua enxurrada sobre nós. Ao contrário dos povos da Antiguidade, que não apenas sabiam ser dominados por elas, como também as viviam intensamente, respeitando-as, nós sequer as percebemos mais! Costumo sempre explicar tal fenômeno da seguinte maneira: ao recebermos um presente, podemos nos encantar, momentaneamente, com sua embalagem, com o papel que o cobre. Mas, uma vez aberto, descartamos o invólucro, jogamo-lo no lixo, não nos serve mais, sequer lembramos que existiu! Assim, ocorre com o excesso de imagens de hoje: não temos tempo de retê-las, de degluti-las, nem conseguimos retroalimentar o manancial de nossa própria “iconofotologia” – que é como eu chamo o repertório imagético que construímos ao longo de nossa vida –, simplesmente as rejeitamos, não nos levam mais à reflexão e à compaixão, não nos atingem mais, tornam-se indiferentes, instáveis e passam despercebidas. Perde-se, dessa maneira, toda a excitação que a novidade tende a trazer. A tendência é sempre piorar tal situação, já que o ser humano é um ser que eu denomino de “iconotrópico”, ou seja, tem a necessidade de buscar imagens, assim como a planta busca a luz: precisamos delas, chega a ser uma luta doentia! Basta verificarmos esse vício hoje em nossa relação com os celulares e com as imagens por eles veiculadas. Olhe o sucesso do Instagram, por exemplo.

A12 - De que forma o mundo midiático nos controla?

Jack Brandão - Fazendo-nos acreditar em tudo o que eles querem. No entanto, para que isso seja possível, é necessário fazer com que acreditemos que somos livres, que dominamos as imagens, que elas existem para nos servir, e são representantes “verdadeiros” do mundo que procuram representar! Junta-se a tudo isso a não aceitação do jugo imagético e de seu poder sobre nós, torna-nos “presas” fáceis de seus desmandos, levando a humanidade a aceitar e a compactuar com aberrações e atrocidades contra seus semelhantes, normalmente sob os auspícios de se “fazer o bem”. Os nazistas, por exemplo, por meio de imagens, reconfiguraram o conceito que os alemães possuíam dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais ao associar-lhes, de maneira constante e por diversos meios, a figuras horrendas, caricatas e demoníacas. Isso acontece porque a lógica da não aceitação do jugo imagético é apenas um polo da questão, que leva a outro ainda pior: o fato de a massa nunca questionar aquilo que vai receber, mesmo que sejam inverdades, factoides, ou dados, simplesmente inventados, a partir da história, pois para que a imagem em uma propaganda, por exemplo, surta o efeito desejado e seja eficiente, é indispensável que contenha pouca informação, mas que essa seja empregada à exaustão, de forma persistente, contínua, constante.

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