Celebrada em 18 de outubro, a memória litúrgica de São Lucas Evangelista é uma oportunidade para aprofundar a leitura de seu Evangelho e conhecer aspectos da vida e da mensagem de Jesus.
Entre as características do terceiro Evangelho está a atenção à misericórdia divina, manifestada no acolhimento dos pecadores, no cuidado com quem sofre e na esperança oferecida a todos. Em diferentes relatos, Jesus revela o amor de Deus e convida as pessoas a uma mudança de vida.
O Papa Bento XVI já destacou essa característica ao refletir sobre o Evangelho de Lucas, que apresenta episódios nos quais a misericórdia de Jesus se manifesta de maneira particular. A leitura dessas narrativas ajuda a compreender como esse amor se traduz em atitudes concretas e continua a iluminar a caminhada dos cristãos.
Em Lucas 10,25-37, Jesus conta a parábola de um homem que, durante uma viagem, é assaltado, espancado e deixado ferido à beira do caminho. Um sacerdote e um levita passam pelo local, mas não o ajudam. Um samaritano, por sua vez, aproxima-se, cuida de suas feridas e providencia um lugar para sua recuperação.
A narrativa apresenta a misericórdia como uma atitude que vai além das palavras. O samaritano não se limita a reconhecer o sofrimento daquele homem, ele interrompe o próprio caminho e toma iniciativas para ajudá-lo.
Ao refletir sobre essa passagem, o Papa Leão XIV recordou que Jesus ensina a imitar o exemplo do samaritano, que oferece seu tempo e seus recursos para ajudar alguém que nem sequer conhecia.
“Todo ato de amor ao próximo é, de certo modo, um reflexo da caridade divina”, afirmou o Pontífice em mensagem publicada em março de 2026, por ocasião dos 50 anos da Rede de Filantropia Católica (FADICA).
A passagem convida o leitor a refletir sobre a maneira como se aproxima das pessoas que precisam de ajuda. A compaixão, nesse relato, se expressa por meio de gestos concretos de cuidado, independentemente de quem seja a pessoa necessitada.
A parábola narrada em Lucas 15,11-32 apresenta um pai e seus dois filhos. O mais novo pede sua parte da herança, deixa a casa e desperdiça os bens. Depois de enfrentar dificuldades, decide voltar e reconhecer seu erro.
Ao vê-lo de longe, o pai corre ao seu encontro, abraça-o e prepara uma celebração para recebê-lo. O filho mais velho, porém, demonstra indignação diante da acolhida concedida ao irmão.
A atitude do pai é central para compreender a misericórdia apresentada por Jesus. Mesmo diante do afastamento e dos erros do filho, ele não fecha as portas para o retorno. A reação do irmão mais velho também faz parte do ensinamento, pois questiona a dificuldade de acolher alguém que recebe uma nova oportunidade.
Ao comentar essa parábola no Angelus de 6 de março de 2016, o Papa Francisco destacou a figura do pai misericordioso e a importância de compreender a alegria de Deus diante do filho que retorna.
A narrativa recorda que o perdão abre caminho para a reconciliação e o recomeço. Também convida a examinar a própria postura diante de quem reconhece seus erros e busca reconstruir a vida.
Em Lucas 19,1-10, Jesus passa por Jericó e encontra Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos e homem rico. Como era de baixa estatura e desejava ver Jesus, ele sobe em uma árvore. Ao chegar ao local, Jesus olha para cima, chama-o pelo nome e anuncia que ficará em sua casa.
A iniciativa de Jesus chama a atenção porque Zaqueu era visto com desconfiança por parte da sociedade, devido à sua função e à associação dos cobradores de impostos com práticas injustas. Mesmo assim, Jesus se aproxima dele e estabelece um encontro que provoca uma resposta concreta.
Zaqueu anuncia que dará metade de seus bens aos pobres e restituirá quatro vezes mais a quem tiver prejudicado. A mudança aparece, portanto, não apenas em suas palavras, mas também no compromisso de reparar injustiças e partilhar seus bens.
O relato permite perceber que a misericórdia não se limita a acolher alguém em sua condição atual. O encontro com Jesus abre a possibilidade de reconhecer os próprios erros e assumir novas atitudes diante de Deus e do próximo.
A passagem mostra que a conversão também alcança as relações sociais e o uso dos bens. Ao anunciar a restituição, Zaqueu demonstra que a transformação vivida precisa repercutir na maneira como trata as outras pessoas.
No relato da crucificação, em Lucas 23,39-43, um dos condenados ao lado de Jesus reconhece a injustiça de sua própria situação e a inocência de Cristo. Em seguida, dirige-se a Ele e pede: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino”.
Jesus responde com uma promessa: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”.
Mesmo em meio ao sofrimento da cruz, o diálogo revela a esperança daquele homem, que reconhece Jesus e se dirige a Ele com confiança. A resposta de Cristo ocupa um lugar significativo na reflexão sobre o perdão e a misericórdia divina.
O episódio recorda que a misericórdia não deve ser confundida com a negação dos erros cometidos. O condenado reconhece a própria responsabilidade e manifesta confiança em Jesus, que lhe oferece uma resposta de esperança.
A passagem convida a confiar na misericórdia de Deus e recorda que a conversão e a esperança permanecem temas centrais da mensagem de Jesus, inclusive diante da proximidade da morte.
Nas quatro passagens, a misericórdia aparece em diferentes situações: no cuidado com quem sofre, no acolhimento de quem retorna, na transformação das escolhas e na esperança diante da cruz.
Ao recordar São Lucas Evangelista, o leitor é convidado a voltar às páginas de seu Evangelho e reconhecer como os gestos e as palavras de Jesus continuam a iluminar as relações humanas e a prática da fé.
As quatro passagens podem ser relidas na Bíblia como um convite a transformar a misericórdia em atitudes cotidianas de acolhimento, perdão, solidariedade e esperança.
Leia também: A mensagem do Evangelho de Lucas
Fonte: CNBB, Vatican News, Vaticano
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