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Fake news e o 8º Mandamento: o que a nossa fé nos ensina?

Entenda o que a Igreja ensina sobre a mentira, os boatos e o cuidado que precisamos ter antes de compartilhar uma informação

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Escrito por Luciana Gianesini

16 OUT 2026 - 10H32

pathdoc/ Adobe Stock

Um áudio alarmante no grupo da família, uma notícia que causa indignação ou um vídeo que parece revelar algo surpreendente. Quem usa o celular e as redes sociais provavelmente já recebeu mensagens assim.

Às vezes, o conteúdo parece tão convincente que dá vontade de encaminhá-lo imediatamente, principalmente quando confirma aquilo em que acreditamos.

Mas você já parou para pensar se aquela informação é mesmo verdadeira?

Antes de apertar o botão de compartilhar, precisamos ter cuidado. Uma mensagem falsa pode prejudicar alguém, provocar desentendimentos e levar outras pessoas a acreditar em algo que nunca aconteceu. Mesmo sem querer fazer mal a ninguém, podemos ajudar a espalhar uma mentira.

E o que isso tem a ver com a nossa fé? Tem tudo a ver com o 8º Mandamento da Lei de Deus.

“Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex 20,16)

Quando ouvimos esse mandamento, podemos pensar primeiro em uma mentira contada para prejudicar alguém. Mas o ensinamento da Igreja vai além. O Catecismo da Igreja Católica (nn. 2464–2513) nos lembra que somos chamados a viver na verdade, respeitar a reputação das pessoas e ter responsabilidade com aquilo que dizemos.

2464. O oitavo mandamento proíbe falsificar a verdade nas relações com outrem. Esta prescrição moral decorre da vocação do povo santo para ser testemunha do seu Deus, que é e que quer a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras ou por atos, a recusa em empenhar-se na retidão moral: são infidelidades graves para com Deus e, nesse sentido, minam os alicerces da Aliança. (Leia aqui o trecho completo)

Isso também vale para as mensagens que enviamos e para as notícias que compartilhamos nas redes sociais.

Na catequese de 14 de novembro de 2018, o Papa Francisco explicou que falsificar a verdade nas relações com os outros prejudica a convivência e dificulta a vivência do amor. Afinal, como podemos amar o próximo se espalhamos uma informação que pode fazer mal a ele?

Por isso, viver o 8º Mandamento também significa prestar atenção ao que falamos, escrevemos e encaminhamos. Nossa maneira de usar as palavras deve estar de acordo com aquilo em que acreditamos.

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Compartilhar uma notícia falsa é pecado?

Essa é uma pergunta importante, porque nem sempre quem compartilha uma notícia falsa sabe que ela é mentira.

Existe uma diferença entre inventar uma informação de propósito para enganar ou prejudicar alguém e repassar uma mensagem acreditando, de boa-fé, que ela é verdadeira.

Quem cria uma mentira, intencionalmente, age contra a verdade. O Catecismo explica que a gravidade da mentira depende, entre outros fatores, da intenção de quem mente e dos prejuízos que ela pode causar (CIC, 2484–2486).

2485. A mentira é, por sua natureza, condenável. É uma profanação da palavra, a qual tem por fim comunicar aos outros a verdade conhecida. O propósito deliberado de induzir o próximo em erro, por meio de afirmações contrárias à verdade, constitui uma falta contra a justiça e contra a caridade. A culpabilidade é maior quando a intenção de enganar pode ter consequências funestas para aqueles que são desviados da verdade.

Já quem compartilha uma informação falsa sem saber que ela está errada não está necessariamente na mesma situação. Isso não significa, porém, que podemos repassar qualquer mensagem sem pensar.

Ter boa intenção é importante, mas também precisamos ter responsabilidade. Antes de compartilhar uma notícia, vale conferir de onde ela veio e se há fontes confiáveis que confirmem o que está sendo dito.

E se descobrirmos que espalhamos uma informação falsa sem querer?

O melhor caminho é reconhecer o erro, corrigir a mensagem e avisar as pessoas que a receberam. Quando alguém é prejudicado, também precisamos fazer o possível para reparar o dano. O Catecismo trata dessa responsabilidade no número 2487.

2487. Qualquer falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever da reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando for impossível reparar publicamente um mal, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele que foi lesado não pode ser indenizado diretamente, deve dar-se-lhe uma satisfação moral, em nome da caridade. Este dever de reparação diz respeito também às faltas cometidas contra a reputação alheia. A reparação, moral e às vezes material, deve ser avaliada segundo a medida do prejuízo causado e obriga em consciência.

Errar pode acontecer. O importante é não insistir no erro quando descobrimos a verdade e não deixar de corrigir aquilo que pode ter prejudicado outra pessoa.

Quando uma mentira prejudica o próximo

Às vezes, uma mensagem parece inofensiva. Outras vezes, traz uma acusação grave contra alguém. Em ambos os casos, precisamos lembrar que, por trás das informações que circulam, existem pessoas que podem sofrer as consequências do que é dito a seu respeito.

O Catecismo da Igreja Católica também explica algumas maneiras pelas quais ferimos a verdade e a reputação do próximo (CIC, 2477–2479):

  • Julgamento precipitado: acreditar que alguém cometeu uma falta sem ter provas suficientes.
  • Difamação: revelar faltas de uma pessoa a quem não as conhece, sem uma razão realmente válida, prejudicando sua reputação.
  • Calúnia: atribuir falsamente a alguém uma falta ou uma atitude que prejudica sua imagem.

Essas situações podem acontecer nas conversas do dia a dia, mas também nos grupos de mensagens e nas redes sociais. Uma acusação compartilhada sem cuidado pode alcançar muitas pessoas em pouco tempo e ser difícil de reparar.

A orientação da Igreja

No Brasil, a desinformação também preocupa a Igreja. Em setembro de 2026, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) chamou a atenção para a responsabilidade dos católicos diante das informações falsas no contexto eleitoral. Esse cuidado, no entanto, é importante em qualquer época, porque a verdade não deve depender de quem será beneficiado ou prejudicado por uma notícia.

Também precisamos estar atentos aos conteúdos produzidos ou alterados com inteligência artificial. Na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 2026, o Papa Leão XIV refletiu sobre os desafios dessas tecnologias, que podem simular rostos, vozes e situações que nunca aconteceram.

Diante disso, não basta pensar que um vídeo é verdadeiro porque parece real ou que uma mensagem merece ser compartilhada porque veio de alguém conhecido. Precisamos verificar as informações e agir com prudência.

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Como saber se uma notícia é confiável?

1. Procure a fonte da informação

Quem publicou a notícia? Existe um link para a matéria original ou você recebeu apenas uma imagem com uma frase? Procure a publicação completa antes de tirar conclusões.

2. Confira a data

Uma notícia antiga pode voltar a circular como se tivesse acabado de acontecer. Veja quando o conteúdo foi publicado e em que contexto.

3. Leia a notícia inteira

Não compartilhe apenas com base no título. Às vezes, a chamada não conta toda a história, e uma frase retirada do contexto pode dar a entender algo diferente do que realmente aconteceu.

4. Procure outras fontes confiáveis

Veja se outros veículos jornalísticos reconhecidos ou os órgãos responsáveis pelo assunto confirmam a informação. Quando se trata de um comunicado da Igreja, procure também os canais oficiais da instituição citada.

5. Tenha cuidado com áudios, fotos e vídeos

Uma gravação pode ter sido editada, uma imagem pode estar fora de contexto e uma voz pode ter sido criada com inteligência artificial. Se o conteúdo parecer suspeito, não o encaminhe antes de buscar confirmação.

6. Não compartilhe só porque concorda com a mensagem

Uma informação não se torna verdadeira porque combina com aquilo em que acreditamos ou porque foi enviada por um familiar, amigo ou pessoa da comunidade.

7. Se descobrir que errou, corrija

Avise as pessoas para quem você enviou a mensagem e compartilhe a informação correta. Se alguém foi prejudicado, procure também reparar o dano.

Esses cuidados são uma maneira concreta de colocar em prática aquilo que aprendemos com o 8º Mandamento. Antes de compartilhar, podemos nos perguntar: "Eu sei se isso é verdade ou estou 'apenas repassando' o que recebi?"

Viver a verdade também é cuidar do próximo

Nossa fé nos ensina a amar o próximo e a respeitar sua dignidade. Esse amor precisa aparecer também nas conversas, nas mensagens e nas publicações que fazemos circular.

Isso vale para todos nós, independentemente de nossas opiniões, preferências políticas ou grupos de que fazemos parte. Não podemos exigir que os outros sejam verdadeiros enquanto compartilhamos informações sem saber se são reais.

Pequenas atitudes fazem diferença. Quando escolhemos verificar uma informação, não compartilhar uma acusação sem provas e corrigir uma mensagem falsa, mostramos que queremos viver de acordo com a nossa fé.

Antes de compartilhar, lembre-se: cuidar da verdade também é uma forma de cuidar do próximo.

LEIA TAMBÉM: Oração contra a fofoca

Fonte: Catecismo da Igreja Católica/ Vatican News/ CNBB

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