Exaltação da Santa Cruz
Espiritualidade

A Cruz, símbolo máximo da nossa fé

joao-baptista (Arquivo Pessoal)

Escrito por Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB

01 ABR 2021 - 09H02 (Atualizada em 02 ABR 2021 - 13H04)

A Cruz é o sinal mais apropriado para sintetizar toda a vida cristã. Foi dependurado numa cruz que Jesus morreu por todos nós, derrotando a própria morte, pois a história não acabou ali. Muito pelo contrário, Ele ressuscitou três dias depois de sua entrega total. Como o próprio Jesus, muitos de seus seguidores também foram crucificados como forma de zombar deste sinal. Não sabiam eles que aquela era a maior honra para estes mártires.

Isto demonstra que os cristãos, desde os primeiros séculos, passaram a ser reconhecidos como seguidores da cruz. Mas há de se dizer que a representação artística de Jesus crucificado só se tornou algo comum alguns séculos depois do fato ocorrido. Ela só se popularizou no século 4º, já sendo o cristianismo a religião oficial do Império Romano.

Esta popularização da Cruz teve uma grande propagadora, que foi a mãe do Imperador Constantino (c. 272-337), Santa Helena (c. 250-330) que, entusiasmada, buscou os objetos de referência da fé em Jesus na Judeia. Ela mesma para lá se dirigiu em busca dos lugares exatos e de tudo o que dizia respeito ao Salvador. Em Jerusalém, seguindo pistas de pessoas do lugar e de testemunhos antigos, encontrou o Santo Sepulcro e, junto a ele, a Cruz onde Jesus foi crucificado. Desta cruz foram feitas muitas relíquias, depois espalhadas pelo Império.

Aos poucos, a representação de Jesus crucificado passou a tomar conta dos lugares santos e de milhares de igrejas que, a partir de então, passaram a ser construídas. Mas demorou um pouco até ela chegar ao altar. A representação de um homem crucificado não era tão fácil de aceitar em muitos lugares. Era repugnante olhar para aquela cena. Embora real e necessária, a imagem do crucificado foi, aos poucos e timidamente, ganhando espaço. Já a cruz (sem o Cristo) foi bem mais aceitável, e já nos séculos II e III, ela estava presente nas catacumbas romanas, mesmo que disfarçadas como âncoras. Séculos depois, ela passou a dominar o alto dos campanários e nas cúpulas, a indicar o lugar sagrado e como objeto de culto em casa ou de forma particular portátil, podendo ser carregada de maneira discreta no bolso, por exemplo.

Leia MaisA espiritualidade da Semana SantaAinda hoje, em diversos lugares a cruz vem sendo profanada, pisada, queimada, destruída por quem é contra o Cristo. Para estes, é um sinal horrível que os faz ter ódio. Quem a carregar é atacado e até mesmo morto, caso não venha a aceitar renegar sua fé na Cruz. Aliás, esta atitude é recorrente no cristianismo. Nunca deixou de existir.

Reconhecendo a grandeza do sinal da Cruz, a Igreja instituiu uma festa para ela. Isso se deu na dedicação da Basílica do Santo Sepulcro, em 335. Desde então, a festa da Exaltação da Santa Cruz é celebrada em 14 de setembro.

Os sacerdotes também se utilizam do sinal para abençoar pessoas, lugares e objetos, a fim de se obter a proteção divina e afastar o mal. Da mesma maneira, os fiéis, sempre que iniciam uma oração, fazem sobre si o sinal da cruz, assim como também quando se sentem ameaçados por algo, pedindo que o Senhor da Vitória esteja a lhes proteger.

É muito popular a Oração de São Bento, contida em sua famosa Medalha, pois é uma invocação de exorcismo, a confiança na Cruz, a luz contra as trevas, a cruz contra o dragão:

A Cruz Sagrada seja a minha luz, não sejas o dragão o meu guia.
Retira-te, satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs.
É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo do teu veneno.
Amém!

Há diversos modelos de cruz, com significados específicos: Cruz de São Pedro, Cruz de Santo André, Cruz de Santiago, Cruz de São Clemente, Cruz de Jerusalém, Cruz Latina, Cruz Grega, Cruz de Malta, Cruz Celta... é uma variedade imensa, muitas vezes ligada à cultura de determinado lugar. Apesar disso, todas elas apontam para a Vitória de Cristo e nós somos vitoriosos com Ele.

Na Semana Santa, de modo particular na Sexta-feira da Paixão, na solene celebração das 15h, o sacerdote adentra o templo com um grande crucifixo velado. Numa procissão na qual ele faz três paradas a desvelar o crucifixo e a bradar em alto e bom som para que todos ouçam que aquele é o sinal máximo de nossa fé. Por fim, ao chegar ao altar, já com o crucificado totalmente desvelado, prostra-se diante da imagem e a beija com sincera devoção. Os fiéis o acompanham com aquele gesto, formando uma fila acompanhada por cantos lamentosos.

Este ano, a cena ritual desta celebração será diferente devido à realidade da pandemia que impede a participação dos fiéis, com o intuito de evitar aglomeração e a propagação do coronavírus. É obvio que tudo isto é muito triste. É como se a nossa cruz pesasse ainda mais. Por isso mesmo, a proposta é caminharmos juntos com Jesus. Ajudá-lo a carregar a cruz de todos nós. Contemplá-lo de maneira que nós possamos reconhecer nossa imagem n’Ele, pois a cruz que ele carrega é justamente a nossa. Ele mesmo nos diz que irá nos ajudar se nos juntarmos a Ele.

Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e vos dareis descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11, 28-30)

Aceitar a CRISTO é aceitar a sua CRUZ, o sinal mais belo dos cristãos.

Escrito por
joao-baptista (Arquivo Pessoal)
Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB

Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB Monge do Mosteiro de São Bento (SP) e escreve sobre Espiritualidade e Vida Monástica.

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