Espiritualidade

O que a Igreja ensina sobre a fraternidade

José Duarte de Barros Filho - sodalícios (Arquivo Pessoal)

Escrito por José Duarte de Barros Filho

02 MAR 2021 - 11H13 (Atualizada em 02 MAR 2021 - 11H31)

Shutterstock. Amar solidariedade paz fraternidade  (Shutterstock. )

A palavra “fraternidade”, de origem latina, remete a irmãos, e, para além da consanguinidade, somos legitimamente todos irmãos, em Cristo, pois todo ser humano é imagem e semelhança de Deus. E, por cada um de nós (e até, verdadeiramente, ainda que apenas por um de nós, um único que O aceitasse), Ele Se fez homem, para nos remir do Pecado Original e nos trazer a graça salvífica.

A partir de Cristo, todos temos o caminho novamente aberto para o Paraíso, não como utopia terrena, mas como realidade infinita após o Juízo Universal e a ressurreição dos corpos. Este caminho se resume no Primeiro Mandamento, “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo”: logo, se amamos a Deus, só o provaremos no amor ao próximo, o que implica em que de fato nos amamos (não egoisticamente, em vista de regalias terrenas, mas em vista de sermos capazes de nos sacrificar para merecer o Céu). E nada mais natural do que amarmos os irmãos – a partir do sentido familiar – mas, além disso, no sentido universal. A Igreja enfatiza ambos os aspectos.*

Porém, deveria ser este amor fraterno mais natural, mais comum, não fossem os pecados, erros e limitações humanas. Como estas situações existem e não podem ser desprezadas, necessário se faz o esforço para superar as diferenças que afastam entre si os seres humanos, e tal esforço só tem seu resultado pleno no seguimento às leis de Deus, no conhecimento e prática da Doutrina da Igreja, o que não é fácil; para segui-los, necessitamos das graças que nos foram dadas pelos Sacramentos instituídos por Jesus...

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Desde sempre, as diferenças entre os seres humanos são queridas por Deus, em primeiro lugar porque Ele nos cria original e individualmente, e assim jamais haverá igualdade absoluta entre as pessoas, a não ser, justamente, na sua dignidade de filhos de Deus e também porque, na Sua infinita bondade e sabedoria, Deus quis que as características próprias de cada um sirvam como complemento, como auxílio, como benefício para os outros, de forma a que todos possam contribuir, do modo que for, para o bem do próximo.

Não somos autossuficientes, e as nossas diferenças devem antes contribuir para efetivar o amor ao próximo, do que para desunir os indivíduos e povos. De fato, diversos são os dons concedidos pelo Espírito Santo (1Cor 12, 4-11), mas todos eles servem para o bem de todos. E mais: não apenas as diferenças de dons, mas também os inúmeros defeitos de cada irmão (começando pelos nossos próprios), devem ser caminho de santificação: por exemplo, é santificante fazer o esforço para superar um vício pessoal, e igualmente é santificante a verdadeira caridade para com um vício alheio (isto não significa simplesmente aceitar os vícios, mas, sim, ter a caridade de amorosamente corrigi-los, e tolerá-los sem agressões quando não se puder fazer mais – embora a oração e o sacrifício pelos outros nunca deixem de dar frutos).

Portanto, Deus nos quis diferentes, mas unidos na fraternidade da Sua filiação. A noção da fraternidade universal é, hoje, assunto de grande ênfase, e de constante preocupação da Igreja, e não há dúvida de que nos âmbitos social, político, cultural, econômico, é urgente uma mudança de atitude geral, em vista das profundas desavenças e discrepâncias globais. Mas nem mesmo a Igreja, através das suas orientações na sua Doutrina Social, poderá chegar a uma maior equidade e situação de paz, se não for considerada, antes de qualquer outra, a fraternidade essencial: a da família.

Leia MaisO que a Igreja ensina sobre o diálogo?O que a Igreja ensina sobre Indiferença?O que a Igreja ensina sobre preconceitoDas pessoas são formadas as famílias; das famílias as sociedades, maiores ou menores: não existe meio de forçar, da sociedade para a pessoa, uma fraternidade verdadeira, pois “sociedade” não é (a não ser para efeitos acadêmicos) um “ser” individual, mas sim a reunião de muitos indivíduos, isto é, cabe aos indivíduos as ações concretas de relacionamento. Só o caminho inverso, dos indivíduos para as famílias e daí para as sociedades, viabiliza um real relacionamento de fraternidade. E neste caminho, o primeiro passo é a família.

Se não amamos os nossos próximos mais próximos, como podemos ter a pretensão de um verdadeiro amor e fraternidade universais? Isto é absurdo, falso, e constatado diariamente em cada lugar do mundo... as relações sociais, no mais das vezes, e particularmente nesta nossa atualidade que rejeita e/ou deturpa a Deus, acontece em bases de afastamentos e injustiças, maldades e indiferenças, onde a ordem é imposta socialmente por algum tipo de força – militar, ideológica, política, econômica, muitas vezes até religiosa, como é comum em muitas nações não-cristãs - enfim, numa vivência prática que nada tem a ver com o amor a Deus e ao próximo, portanto sem qualquer vestígio de fraternidade, entendida, corretamente, como o amor entre irmãos, na perspectiva da filiação de Deus. Em família.

Mas ainda há um passo maior e anterior do que o do amor familiar: é o amor do indivíduo pela sua própria essência, que é Deus... pois somos Dele imagem e semelhança, não uma “entidade” totalmente à parte. Assim, para nos amarmos – condição pétrea para o amor ao próximo, à fraternidade – é preciso antes de tudo amar a Deus, pois Nele está o que somos. Isto que dizer: sem a busca da santidade pessoal, em primeiro lugar, “fraternidade” é só uma mentira. Ninguém pode dar o que não tem, a começar pelo amor.

*Catecismo da Igreja Católica, cf. nos 1939, 2207, etc.

Escrito por
José Duarte de Barros Filho - sodalícios (Arquivo Pessoal)
José Duarte de Barros Filho

José Duarte de Barros Filho é católico, biólogo, PhD em Zoologia pela UERJ, Pós-Graduado em Ensino Religioso (UCP), e integrante do Movimento de Vida Cristã, onde atua principalmente nas atividades do Centro de Estudos Culturais.

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