Por João Antônio Johas Em Espiritualidade Atualizada em 19 MAR 2018 - 17H23

São José e o silêncio

A palavra de hoje, 19 de março, é silêncio. Nesse quesito, São José é um personagem interessante das Sagradas Escrituras porque apesar de ser citado, nenhuma fala sua nos é relatada. São José aparece na Bíblia como um personagem, literalmente, silencioso. Mas será que esse não falar é o ponto fundamental para ser uma pessoa silenciosa? Talvez, o fato de que São José não diga nada na Bíblia pode nos ajudar a ver que o silêncio é muito mais do que apenas fechar a boca.


Quando José soube que Maria estava grávida, sua primeira reação não foi a de pensar que o filho que maria carregava era do Espírito Santo. Qualquer um entenderia isso. E porque era um bom homem, queria largar Maria de tal forma que ela não se visse prejudicada, que não tivesse sua fama manchada. Mas o ponto aqui não é esse. Nós sabemos que o plano de Deus estava se cumprindo, que não poderia haver pessoa mais pura que Maria além Daquele mesmo que tinha se encarnado em seu seio. Nós sabemos disso, José não sabia. Quantos pensamentos não lhe cruzaram pela cabeça? Até com boa intenção (Não difamar Maria), José tinha tanto barulho em sua cabeça que não pode discernir, a princípio, o que estava acontecendo.

Apesar de não falar nada, sua cabeça dava voltas e voltas em torno de si mesma. Foi preciso um silêncio mais interior que o de palavra para que as coisas se aclarassem. Em sonho, quando não temos controle sobre nossos pensamentos, um anjo do Senhor lhe avisa o que está acontecendo. A partir desse momento, José não duvida em tomar Maria como esposa. Percebe-se um silêncio diferente agora. Já não duvida. As vozes que o afastavam do Plano de Deus que se gestava já não o atingem. Pelo menos não com relação ao bebê e a virgindade de Maria.

Uma experiência comum quando se faz um retiro de silêncio é a de perceber que quando não se fala muito para fora, geralmente fala-se muito para dentro. Nos damos conta, então, que vivemos uma dupla distração no dia a dia. No meio do barulho, das conversas e da gritaria cotidiana, nos distraímos das vozes interiores. Quando silenciamos o externo, começamos a dar-nos conta da segunda distração: As muitas vozes interiores. Elas que podem ser até mais desnorteantes que as de fora, porque normalmente falam de coisas mais importantes. Quando suspendemos as preocupações mais ordinárias, começamos a nos perguntar qual é o sentido de tudo isso, para onde estamos levando nossas vidas, tentamos discernir o chamado de Deus para cada um de nós.

E responder a essas perguntas, além de não ser algo fácil de se fazer, normalmente implica uma conversão interior que pode dar medo, que pode assustar pela grandiosidade do chamado à vida cristã e a constatação da nossa fragilidade, do nosso pecado. Talvez esse tenha sido o motivo da reação de São Pedro quando diz a Jesus: “Afasta-te de mim, pois sou um pecador”. Viver de verdade a vida cristã, é abraçar a vida real com todo o drama que ela traz, com a esperança de salvação posta em Cristo.

E São José nos mostra esse caminho dramático de forma ímpar. Uma vez reconhecida a vontade amorosa de Deus, coloca-se a disposição desse Plano em um silêncio mais perfeito que o de antes do sonho que teve. Ele abraça a vocação de acolher uma mulher grávida, de custodiar um filho que não leva seu sangue. Ele assume esse drama. Os protege quando fogem para o Egito. Está a sua frente quando voltam de lá. Se preocupa quando Jesus se perde da caravana, educa o Senhor para que cresça em “estatura e graça diante de Deus e dos homens”. São José nos ensina, com seu silêncio, a abraçar a Vida em seu Filho, o Senhor Jesus.

Escrito por
Irmão João Antônio Johas (Redação A12.com)
João Antônio Johas

Licenciando em Filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis, Pós-graduando em Antropologia Cristã pela Universidade Católica San Pablo em Arequipa, Peru.

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