Por Pe. Evaldo Souza, C.Ss.R Em Espiritualidade

Uma conversa sobre Penitência

Nessa época do ano, especialmente nesses dias de Quaresma e Semana Santa, muitos se perguntam sobre o sentido da Penitência. Por meio de algumas perguntas, vamos tentar entender um pouco mais sobre esse assunto!

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1- De que modo nasceu o ato de fazer penitência?

Acho que devemos esclarecer o sentido da palavra penitência. Aqui quero falar dela referindo-me aos gestos e atitudes exteriores que me fazem aproximar-se de Deus e do seu amor. Não há aqui um sentido sacramental da Penitência, este relacionado com o sacramento da Reconciliação.

Fazer penitência quaresmal, no contexto desta nossa conversa, é dedicar algum tempo da minha quaresma para realizar um gesto de mortificação que me faça perceber minha finitude diante da grandeza absoluta de Deus. Os gestos e ritos penitenciais, neste sentido, têm profundas raízes judaicas – e mesmo outros povos em outros contextos de religiosidades também praticavam gestos de penitência pessoal ou pública. No fundo a raiz do ato penitencial humano é colocar-se humildemente diante de Deus, reconhecendo-o absoluto diante de nossa fraqueza.

A ideia é sempre tornar-se menos indigno de estar na presença de Deus. Na Bíblia são muitas as passagens penitenciais e alguns gestos são significativos: rasgar as vestes, se cobrir de cinzas, fazer jejum. Outros gestos penitenciais comunitários envolviam sacrifícios de animais, sendo que o mais simbólico era o envio do chamado “bode expiatório” para o deserto, levando consigo os pecados de toda a comunidade.

2- Qual o objetivo da penitência?

 

Todo ato penitencial pretende ser um gesto de abertura ao Sagrado, ao amor de Deus que tudo transforma a partir da abertura do coração humano.

Todo ato penitencial pretende ser um gesto de abertura ao Sagrado, ao amor de Deus que tudo transforma a partir da abertura do coração humano. Assim, uma verdadeira penitência só tem valor se for feita com o desejo íntimo de aproximar de Deus e da sua misericórdia redentora.

Penitências que sejam apenas atos externos de sofrimento não alcançam este objetivo. Por isso é que o profeta Oséias diz que Deus prefere a Misericórdia e não o sacrifício, aqui entendido somente como um gesto externo de oferecimento de algo ao Senhor.

3- Há alguma ação que substitua a penitência?

Nenhuma Penitência é obrigatória, mas sempre um gesto de liberdade. Ainda que a Igreja proponha jejuns para alguns dias do ano e outros gestos de mortificação, estes não são impostos como obrigatoriedade para a salvação do cristão.

Assim como há remédios que nos auxiliam a melhorar rapidamente de uma gripe e nós, na liberdade, escolhemos não tomar este medicamento, o que retarda nossa melhora física, assim é a penitência: com ela nossa vida se abre mais rapidamente a percepção do amor de Deus e do valor das coisas sagradas; sem ela teremos um caminho mais longo para compreender a grandeza de Deus. Talvez, por isso mesmo, todos os santos realizaram algum gesto de penitência, registrados nas suas biografias.

4- Após a penitência o corpo e o espírito ficam mais leves, ou seja, sem culpa?

Bom, se aqui falarmos de Penitência e Reconciliação como Sacramento da Igreja, temos que considerar que a graça de Jesus Cristo faz nova a criatura – homem ou mulher – que procura com retidão de coração e vontade de arrepender-se a confissão sacramental. Todo penitente que se confessa retamente sai sem mancha do confessionário.

Já os atos e gestos penitenciais relacionados com a privação corporal, matéria desta entrevista, terão seu valor se forem feitos, como foi dito, com reta intenção de busca da santidade. Neste caso, a pessoa poderá sim sentir-se muito mais “leve” e próxima de Deus, mas a absolvição plena dos pecados só acontece mesmo com a confissão sacramental. Esta é insubstituível!

5- A penitência ajuda as pessoas a fazerem um exame de consciência?

 

(...) durante a penitência assumida a pessoa se torna aberta a refletir sobre a vida (...)

Eu creio que o contrário é que é verdadeiro num primeiro momento. A pessoa que faz um exame de consciência e pretende melhorar sua vida espiritual é quem procura atos penitenciais para auxiliá-la nesta tarefa. Obviamente, durante a penitência assumida a pessoa se torna mais aberta a refletir sobre a vida e consegue propor para si algumas mudanças de atitudes concretas da vida.

Aliás, gostaria de frisar que a penitência corporal que não se abre a mudança de comportamento e de atitudes no dia a dia, que não provoca uma reaproximação com o meu próximo e com os mais necessitados não é uma penitência que tenha valor. E diga-se também que a penitência não pode tornar-se rotina.

Toda penitência pretende me fazer pensar sobre a vida e muda-la no que for preciso. Caso contrário é sofrimento e privação inúteis.

6- Normalmente alguns jovens têm dificuldades em aceitar a penitência, bem como, a execução dela. A que pode se atribuir tal questão?

Quando pensamos em penitências de fato pensamos em gerações mais vividas na Igreja, cuja formação religiosa previa com seriedade certos momentos no ano em que era preciso penitenciar-se. Mas nem sempre estas pessoas fazem penitência com coração pronto para mudar, parece que a penitência é um hábito a ser repetido e só. Já a juventude vem sendo educada para a religião de outra maneira, dentro de uma cultura do prazer, do hedonismo e do bem-estar.

Parece improvável imaginar que um jovem vai privar-se de alguma coisa para melhorar sua vida espiritual. Este é o pensamento da maioria da Juventude. A Igreja precisa reatualizar o modo de compreender a penitência, não como sofrimento inútil ou privação, mas como ofertório de algo que me falta para compor a comunhão com os que de fato vivem sem nada.

Neste sentido talvez consigamos trazer para os jovens o espírito penitencial. Mas há que se dizer que muitos jovens são convictos de suas penitências e as fazem para suprir diversas necessidades espirituais.

7- Qual mensagem o senhor deixa para as pessoas refletirem sobre a penitência na quaresma?

A Quaresma é um tempo litúrgico maravilhoso da Igreja. É tempo para um retiro espiritual, feito interiormente, em família e em comunidade. Penso na Quaresma como naquele momento que antecede o começo de um grande espetáculo teatral ou musical.

As pessoas estão em silêncio, ajeitam-se nas cadeiras, escolhem a posição mais confortável, ficam na expectativa do que virá e partilham com as outras os sentimentos de estar ali esperando a cortina abrir.

Neste momento muita coisa passa pelas cabeças: os espetáculos anteriores, a pessoas que gostam de nos acompanhar nestas ocasiões, as situações que a vida nos oferece.

De repente, a cortina se abre para o espetáculo e, sem piscar, acompanhamos tudo aquilo como se fosse parte de nossa própria vida, a gente participa do espetáculo intensamente. Nós na quaresma estamos esperando a abertura da cortina da RESSURREIÇÃO.

A preparação para este grande espetáculo de fé acontece nestes quarentas dias e exige silêncio e contemplação. Assim, façamos da Quaresma e Semana Santa um tempo de buscar intensamente o Cristo Jesus e por ele abramo-nos a experiência de atos penitenciais que promovam em nós a busca da santidade plena.

Assintura Pe. Evaldo

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