História da Igreja

Os exílios dos Papas

Conheça a história de alguns pontífices que foram exilados por conta de brigas políticas, chantagens e tentativas de derrubar a soberania da Igreja Católica.

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

04 SET 2026 - 15H46 (Atualizada em 04 SET 2026 - 17H35)

Reprodução.

Apesar de serem pessoas altamente respeitadas e com uma autoridade reconhecida até mesmo pelos não-cristãos ao longo da história, os papas sofreram com os percalços humanos da história, sendo martirizados uns, perseguidos e mortos outros, ou então submetidos a duras penas, como foram o cativeiro e o exílio impostos a diversos papas ao longo da história.

Durante o Império Romano

Durante o Império Romano, diversos papas foram forçados a enfrentar o exílio ou a deportação determinada pelas autoridades imperiais devido às perseguições contra a Igreja, disputas políticas pelo poder ou por questões teológicas promotoras de cismas na Igreja.

O primeiro caso mais destacado é o de São Clemente I (c. 92–99), que foi exilado pelo imperador Trajano para a região de Quersoneso, na Crimeia atual, no Mar Negro, onde também foi condenado a trabalhos forçados e posteriormente martirizado.

No século III, o Papa Ponciano (230–235) foi exilado pelo imperador Maximino Trácio para as minas de sal da Sardenha. Ele renunciou ao papado para permitir a eleição de um sucessor em Roma e faleceu no exílio. No século IV aconteceu o exílio do Papa Libério (352–366), enviado para Bereia pelo imperador Constâncio II, devido à sua recusa em condenar Santo Atanásio e a doutrina ortodoxa em meio às tensões com a heresia ariana. Ele só retornou a Roma em 358.

O Papa Martinho I (649–655) foi exilado e deposto brutalmente pelo imperador bizantino Constante II. Primeiro foi levado para Constantinopla e depois exilado na Crimeia, onde morreu de fome e maus-tratos.

Além destes, outros papas também enfrentaram prisões e transferências forçadas que culminaram em martírio antes ou durante o período da legalização e oficialização do cristianismo no Império.

Exílio forçado durante a Idade Média e Idade Moderna

No período medieval, diversos papas sofreram exílio ou foram forçados a fugir de Roma por causa de conflitos políticos ou disputas com o Sacro Império Romano-Germânico. Nessa fase, o período mais crítico foi o do Cisma do Ocidente, em que o pontificado viveu muitos anos em Avinhon, no sul da França, período que também é chamado de Cativeiro de Avignon. Sete papas foram forçados a residir na cidade de Avignon, entre 1309 e 1377, período em que a Igreja esteve sob a forte influência do rei Filipe IV, Clemente V, João XXII, Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI e Urbano V. Foi o Papa Gregório XI que encerrou o exílio e retornou a Roma no ano de 1377.

O período trouxe também diversas crises no pontificado, com diversos papas sendo obrigados a fugir ou foram levados a exílios forçados devido a conflitos, sobretudo com o imperador.

O Papa Gregório VII entrou em conflito com o imperador Henrique IV durante a Questão das Investiduras, sendo forçado a fugir de Roma em 1084, após a invasão da cidade pelas tropas imperiais, refugiando-se com os normandos, vindo a falecer em Salerno, em 1085.

Gelásio II teve seu papado marcado pelas intensas lutas entre o Papado e o Imperador Henrique V. O Papa foi atacado e preso pela poderosa família Frangipani, apoiada pelos alemães, e acabou fugindo de Roma em 1118, morrendo no exílio na abadia de Cluny, na França. O Papa Bento IX, mesmo sendo considerado um dos papas mais controversos da história, foi eleito e expulso de Roma em múltiplas ocasiões no século XI. Finalmente deposto, foi forçado a se retirar definitivamente em 1048, pelo imperador Henrique III.

Um período trágico para a Igreja e para o pontificado se deu com o chamado “Grande Cisma do Ocidente”. No período, a cristandade se dividiu entre Roma e Avinhão, França, com papas e antipapas exilando-se e excomungando-se mutuamente. Destacam-se Urbano VI, que permaneceu em Roma, e o antipapa rival Clemente VII, que se estabeleceu em Avignon. A situação agravou-se no Concílio de Pisa, que elegeu um terceiro papa, prolongando a crise até o Concílio de Constança em 1417, que promoveu a reunificação da Igreja.

Reprodução/ Wikimedia Commons Reprodução/ Wikimedia Commons Retrato do papa Gregório XI


Os transtornos do pontificado com Napoleão Bonaparte

Depois de quase quatro séculos, a Igreja voltou a viver um período dramático na sequência da Revolução Francesa, com o advento de Napoleão Bonaparte. O Papa Pio VI foi feito prisioneiro pelas tropas da França Revolucionária e forçado a deixar Roma em 1798, falecendo no cativeiro em Valence, na França, em 1799.

Após a morte de um general francês em Roma, o Diretório ordenou a invasão da cidade. Em 20 de fevereiro de 1798, tropas francesas ocuparam Roma e forçaram o Papa Pio VI a abandonar o Vaticano. O comissário do exército retirou o Anel do Pescador de seu dedo. O Papa, então com mais de 80 anos e saúde debilitada, foi levado sob escolta armada para a Certosa de Florença, no Grão-ducado da Toscana, onde permaneceu recluso por cerca de três meses.

Devido ao avanço das tropas e temendo seu resgate, os franceses forçaram Pio VI a uma travessia rigorosa pelas montanhas até Briançon. Ele foi transferido para a cidadela de Valence, na França, onde, gravemente doente, veio a falecer em 29 de agosto de 1799. Embora tenha sido sepultado inicialmente na França, o seu sucessor, Papa Pio VII, que depois teria um destino semelhante, ordenou que seus restos mortais fossem trazidos de volta a Roma em 1802.

O exílio e a prisão de Papa Pio VII ocorreram entre 1809 e 1814, também como resultado do conflito com Napoleão Bonaparte. O imperador francês exigiu a adesão do Papa ao bloqueio contra a Inglaterra e a cessão dos Estados Pontifícios. Diante da recusa de Pio VII, famosa pela fórmula "Non possumus", tropas francesas invadiram Roma.

Na noite de 5 de julho de 1809, o Papa foi preso em Roma e levado para a França, passando por Grenoble. Ele permaneceu detido nesta cidade, onde Napoleão tentou forçá-lo a aceitar um novo Concordato que subordinava a Igreja à França. O Papa manteve forte resistência moral e religiosa e, para isolá-lo ainda mais, foi transferido secretamente para um castelo perto de Paris, onde, sob forte coação, assinou um acordo preliminar que logo em seguida anulou. Com o declínio do Império Napoleônico e a abdicação de Napoleão, Pio VII foi libertado, retornou a Roma em 24 de maio de 1814, conseguindo recuperar os territórios da Igreja durante o Congresso de Viena.

O exílio de Pio VIII ocorreu antes de seu pontificado, quando era bispo de Montalto delle Marche. Em 1808, ao recusar-se a prestar juramento de fidelidade a Napoleão como "Rei da Itália", foi preso e enviado ao exílio, passando por várias cidades do norte da Itália, ficando em Milão, Pavia e Mântua.

O exílio durou vários anos e só pôde retornar à sua diocese em 6 de junho de 1814, após a queda de Napoleão. Após o período napoleônico, sua firmeza foi recompensada pelo Papa Pio VII, sendo nomeado bispo de Cesena e criado cardeal em 1816, até ascender ao trono papal em 1829.

Wikipedia Wikipedia Papa Pio IX

O breve exílio de Pio IX

Já no século XIX ocorreu o exílio do Papa Pio IX entre novembro de 1848 e abril de 1850. Diante de revoltas populares em Roma durante o processo de unificação italiana, Pio IX fugiu disfarçado para Gaeta, no Reino das Duas Sicílias, em 24 de novembro de 1848, só retornando após tropas francesas restaurarem a ordem.

O estopim da crise

Quando os revolucionários italianos exigiram que ele declarasse guerra ao Império Austríaco, uma nação católica, ele se recusou, fazendo desencadear uma série de revoltas violentas que culminaram na invasão de seu palácio, o Quirinal, e no assassinato de seu ministro, Pellegrino Rossi. Enquanto o Papa estava exilado, os revolucionários proclamaram a República Romana em fevereiro de 1849, declarando o fim do poder temporal do pontífice. Em resposta, Pio IX apelou às potências católicas europeias. Uma coalizão liderada pela França invadiu Roma, derrotou as forças republicanas de Giuseppe Mazzini e devolveu a cidade ao controle papal. Pio IX retornou a Roma em abril de 1850.

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Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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