História da Igreja

O incêndio que destruiu a Basílica de São Paulo Fora dos Muros

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

05 AGO 2026 - 11H47

murasal/ Adobe Stock

"Desgraça fatal" e "Vesúvio terrível" foram alguns dos adjetivos usados pelos romanos para explicar a tragédia que ocorreu na virada do dia 15 para 16 de julho de 1823, quando ocorreu o incêndio que destruiu a maior parte da Basílica de São Paulo Fora dos Muros.

Apesar de as causas serem desconhecidas, as investigações feitas apontaram que operários estavam fazendo consertos no teto do edifício e, ao irem embora, não apagaram completamente algumas pontas de brasas utilizadas para o trabalho. Isso foi o suficiente para provocar o incêndio que destruiu boa parte do templo que havia sido consagrado no ano de 324, pelo Papa Silvestre I.

A primeira Basílica de São Paulo fora dos Muros

A antiga Basílica de São Paulo fora dos Muros era uma das maiores e mais bem preservadas igrejas paleocristãs da história. Por mais de 1,4 mil anos, manteve sua estrutura original construída no tempo dos imperadores romanos Constantino e Teodósio, no século IV, sobre o túmulo do apóstolo, situado na via Ostiense, aproximadamente 2 km fora dos muros aurelianos, o que explica parte do nome da basílica.

Ao longo dos séculos, a basílica passou por diversas ampliações, reconstruções e embelezamentos até chegar ao complexo que foi atingido pelo fogo.

Era uma igreja imponente para os padrões da época, com 5 naves e uma fachada voltada para o leste. Seu piso era decorado com mosaicos e o teto original era de madeira entalhada. Encomendado pelo Papa Leão I (440-461), o arco triunfal que separava o altar da nave principal era adornado por ricos mosaicos bizantinos que traziam cenas do Apocalipse.

A antiga igreja, assim como a atual, já contava com uma série de medalhões pintados no alto das paredes, retratando o rosto de todos os Papas da história, desde São Pedro até os pontífices da época. Esses medalhões preservados pelo fogo foram recuperados e continuados numa ordem que chega até os papas de nossos tempos.

O corpo de São Paulo, trazido da localidade conhecida hoje como “Tre Fontane”, onde fora decapitado, a cerca de 4 km de distância, foi sepultado sob o altar-mor, preservado num sarcófago de pedra, que se tornou o coração do templo desde o século IV.

O cenário posterior ao incêndio era desolador e comovente. Uma testemunha excepcional, o escritor francês Stendhal, descreveu-o como “um dos maiores espetáculos” já vistos:

“Tive uma impressão de beleza severa, tão triste quanto a música de Mozart. Os dolorosos e terríveis vestígios do desastre ainda estavam vivos; a igreja ainda estava cheia de vigas fumegantes, meio queimadas; os fustes das colunas, fendidos em todo o seu comprimento, ameaçavam cair a qualquer momento.”

Reprodução/ Wikipedia Reprodução/ Wikipedia

Mutirão mundial promove a reconstrução da basílica

Como as chamas do incêndio podiam ser vistas de longe, os romanos acorreram ao local, também porque a notícia logo se espalhou pela cidade, mas, felizmente, não chegou ao Papa Pio VII, da Família Chiaramonti, que estava agonizante em seu leito de morte depois de uma fratura no fêmur sofrida nove dias antes. Quando jovem, ele havia sido um dos monges da Basílica de São Paulo e o então secretário de Estado, cardeal Ettore Consalvi, quis poupá-lo desse dissabor. Coube ao seu sucessor, Papa Leão XII, somar os esforços para dar nova vida à Basílica Paulina.

Depois de várias tratativas, elaborou-se o projeto, que era grandioso. Como havia sido feito no passado em relação à Basílica de São Pedro, também dessa vez realizou-se uma grande convocação em toda a cristandade. Com a encíclica “Ad Plurimas”, publicada em 25 de janeiro de 1825, na festa da Conversão de São Paulo, foi instituída uma espécie de fundo de arrecadação, recolhendo ofertas e doações de todo o mundo, e não só entre os cristãos.

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O resultado foi extraordinário, pois as contribuições que chegaram, e não apenas dos católicos, mas de ortodoxos, muçulmanos e casas reais, possibilitaram o início do projeto de reconstrução. Janelas e colunas de alabastro foram enviadas pelo rei do Egito, enquanto o czar Nicolau I, da Rússia, enviou blocos de malaquita e lápis-lazúli, que foram usados nos altares laterais do transepto.

O ano de 1825 foi também um ano do Jubileu, mas a obra não ficou pronta a tempo. Por isso, a Porta Santa do jubileu foi aberta na igreja de Santa Maria in Trastevere.

O canteiro de obras durou cerca de 30 anos e a reconstrução tentou manter a planta e o formato originais, resultando no templo que se vê hoje, mas muito do esplendor original perdeu-se nas chamas. Algumas relíquias, como a Porta de Bronze e parte dos mosaicos originais, sobreviveram milagrosamente ao desastre. O grandioso pátio de colunas e a fachada voltada para a Via Ostiense foram finalizados tempos mais tarde.

Como sua estrutura foi cuidadosamente replicada, o interior guarda tesouros valiosos que escaparam do incêndio, como o famoso cibório do século XIII, o antigo claustro e a série de medalhões com os retratos de todos os Papas.

Giulio Di Gregorio/ Giulio Di Gregorio Giulio Di Gregorio/ Giulio Di Gregorio

Durante os diversos trabalhos de reconstrução, escavação ou reforço das fundações e estruturas, foram encontrados muitos artefatos arqueológicos, túmulos pagãos e cristãos. Provavelmente eram pessoas de certa posição social. O cristianismo romano nasceu precisamente nesta área. Entre os artefatos mais valiosos encontrados em 1838, destaca-se o Sarcófago Dogmático, do século IV, hoje conservado nos Museus Vaticanos.

A Basílica reconstruída foi reconsagrada no dia 10 de dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX, no mesmo ano da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição. Ele estava ladeado por cardeais e bispos de várias partes do mundo que vieram a Roma para a proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria.

Além da Basílica papal, o conjunto extraterritorial compreende uma abadia beneditina muito antiga. Os monges beneditinos da abadia promovem o ministério da Reconciliação e a realização de eventos ecumênicos. É na Basílica que se conclui, todos os anos, no dia da conversão de São Paulo, 25 de janeiro, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.

Como as demais basílicas papais de Roma, São Paulo fora dos Muros foi lugar de muitos eventos importantes. Ali, no ano de 1959, o Papa João XXIII comunicou aos cardeais seu projeto de convocar um concílio ecumênico, o Vaticano II, que mudaria para sempre o rosto da Igreja.

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Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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