História da Igreja

Santo Arnulfo, o padroeiro dos cervejeiros

Neste 18 de julho, a Igreja celebra a memória litúrgica do santo francês

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Pe Jose Inacio de Medeiros

Escrito por Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R. - Editado por Luciana Gianesini

15 JUL 2015 - 12H00 (Atualizada em 17 JUL 2026 - 15H23)

Reprodução - Flickr

Todos já ouvimos falar ou lemos alguma coisa sobre o período histórico conhecido como Idade Média. Ele é tradicionalmente situado entre 476, quando se deu a queda do Império Romano do Ocidente (cuja capital, naquele momento, era Ravena) e 1453, quando se deu a queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.

A Igreja foi uma das instituições que sobreviveram à queda do Império Romano e, por isso mesmo, coube a ela um papel muito importante na Idade Média, tendo a tarefa de contribuir para a reorganização da civilização ocidental e para a evangelização de diferentes regiões da Europa, favorecendo a aproximação entre povos e reinos muito diversos e integrando elementos da cultura romana com a germânica sob o signo do cristianismo.

No interior da Igreja, os mosteiros, aos poucos, foram se tornando não apenas centros religiosos, como também centros de cultura e abrigo, pois davam proteção à população que vivia perto de seus muros, sobretudo nas épocas de invasão.

A partir do mosteiro de Monte Cassino, localizado no sul da Itália, os monges beneditinos cumpriram a missão de fomentar a cultura, a arte e a economia por meio da prática da agricultura. Essa missão pôde ser realizada porque sua vida era baseada na oração e no trabalho.

Aos poucos, cada mosteiro se converteu num centro de vida econômica, artesanal, religiosa e cultural. As primeiras cabanas de palha foram sendo substituídas por grandes construções, e muitos mosteiros — uns mais e outros menos — foram se transformando em pequenas cidades, com igreja, claustro, dormitórios e suas dependências, como armazém, oficinas, hospital, escola e muito mais. Cada mosteiro passa a contar com servos para complementar o trabalho dos monges.

Shutterstock
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Como o mosteiro produzia de tudo para suprir as necessidades dos monges e da população que vivia nas suas proximidades, os monges passavam a produzir não só o alimento, mas também a bebida necessária para o dia a dia, como vinho, cerveja e licores.

Ainda hoje, alguns mosteiros e abadias da Europa mantêm essa tradição e, para muitos deles, a produção de bebidas selecionadas tornou-se também uma fonte de sustento. Nos tempos atuais, alguns mosteiros e abadias da Europa foram transformados em hospedarias.

A tradição também se difundiu entre os conventos religiosos. Várias ordens e congregações religiosas passaram a produzir suas próprias bebidas, comercializando o excedente com as pessoas que frequentavam os conventos.

Na tradição da Igreja, temos até um santo considerado um dos padroeiros dos cervejeiros!

Divulgação/ Mosteiro de São Bento (SP)
Divulgação/ Mosteiro de São Bento (SP)


Santo Arnulfo de Metz, o santo padroeiro dos cervejeiros

O antigo Ritual Romano contém uma fórmula própria, em latim, para abençoar a cerveja, e Santo Arnulfo (ou Arnolfo) de Metz é considerado um dos padroeiros dos cervejeiros, celebrado em 18 de julho.

Ele nasceu na Austrásia, no ano de 580, em uma importante família franca. Na juventude, recebeu formação para atuar na corte e tornou-se conselheiro do rei Teodeberto II. Casou-se e teve filhos. Mais tarde, seguiu a vida eclesiástica e finalmente foi nomeado bispo de Metz, na França, por volta do ano 611.

Cerveja no lugar da água contaminada

Quando era bispo de Metz, segundo uma tradição popular, uma epidemia teria atingido aquela região e contaminado a água, fazendo com que muita gente ficasse doente ao consumi-la. Por essa razão, Santo Arnulfo teria orientado seus fiéis a não consumir a água contaminada e, em vez disso, beber cerveja.

O aquecimento da água durante a fabricação da cerveja podia reduzir a presença de microrganismos, tornando a bebida mais segura do que algumas fontes de água contaminadas.

Wikipedia
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A multiplicação da cerveja

No ano de 627, Santo Arnulfo retirou-se para uma vida de oração perto de Remiremont, na França, onde morreu e foi sepultado, em 640. Alguns anos depois, os cidadãos de Metz pediram que seu corpo fosse exumado e levado à cidade para enterrá-lo na igreja local.

Enquanto levavam o corpo de volta, vários fiéis sentiram-se cansados, esgotados e pararam numa hospedaria em busca de cerveja. Ao entrar, descobriram com tristeza que só havia uma pequena quantidade da bebida e tiveram que compartilhar. Segundo a tradição, a cerveja não acabou, e todos puderam beber e matar a sede.

O milagre foi atribuído a Santo Arnulfo e é em razão dessa tradição que ele passou a ser invocado como um dos padroeiros dos cervejeiros. 

Tradição redentorista

Os primeiros missionários redentoristas que vieram para o Brasil eram holandeses, que chegaram aqui em 1893, e alemães, que chegaram em 1894.

Nos conventos redentoristas de seus países de origem, também havia a tradição de produção da cerveja. Ao virem da Europa para o Brasil, trouxeram consigo esse costume.

Além de o consumo da bebida fazer parte de seus hábitos culturais, naquele tempo não havia a mesma facilidade de comercialização nem a variedade de marcas e rótulos disponíveis hoje. Mas, ao contrário do que pode parecer, o consumo do “precioso líquido” não era facultativo, havendo dias certos e até quantidade determinada para isso.

Algumas casas da então Província de São Paulo tinham o maquinário necessário, chegando a fabricar a cerveja para o consumo interno. Uma dessas casas era o Convento Redentorista, localizado na praça central da cidade de Aparecida.

Com a facilidade de se adquirir a cerveja no mercado, com a mudança das gerações e com a chegada das gerações de brasileiros que substituíram os religiosos alemães, esse costume aos poucos foi se perdendo. As instalações onde se produzia a cerveja foram desmontadas, restando apenas a casa que abrigava os equipamentos, localizada ao lado do Memorial Redentorista.

As fotos registram esse costume e essa tradição, inclusive uma brincadeira feita em 1925 com o Pe. José Clemente, responsável pela cervejaria, como registram as crônicas da comunidade redentorista.

Para concluir, é bom lembrar que alguns católicos pensam que o consumo de cerveja e outras bebidas alcoólicas é pecado. No entanto, a Igreja não vê problema no consumo moderado de álcool, desde que seja feito com responsabilidade e de modo que não ponha em risco a busca pela nossa santificação.

.:: Pode o católico beber álcool?

Escrito por:
Pe Jose Inacio de Medeiros
Pe. José Inácio de Medeiros, C.Ss.R.

Missionário redentorista que atua no Instituto Histórico Redentorista, em Roma. Graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da antiga Província Redentorista de São Paulo, tendo sido também diretor da Rádio Aparecida.

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