Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 30 JUL 2020 - 10H27

O padroeiro dos cervejeiros

Todos já ouvimos falar ou lemos alguma coisa sobre o período histórico conhecido como Idade Média. Ele durou de 476, quando se deu a queda do Império Romano do Ocidente com capital em Roma, prosseguindo até 1453, quando se deu a queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.

A Igreja foi a única instituição que saiu vitoriosa à queda do Império Romano e, por isso mesmo coube a ela um papel muito importante na Idade Média, tendo a tarefa de reorganizar a civilização ocidental e recristianizar a Europa, fazendo a união de povos e reinos totalmente diversos, integrando a cultura romana com a germânica, sob o signo do cristianismo.

No interior da Igreja os mosteiros aos poucos foram se tornando não apenas centros religiosos, como também centros de cultura e abrigo, pois davam proteção à população que vivia perto de seus muros, sobretudo nas épocas de invasão.

A partir da Casa Mãe de Monte Cassino, localizada no sul da Itália, os monges beneditinos cumprirão a missão de fomentar a cultura, a arte e a economia pela prática da agricultura. Essa missão pode ser realizada porque sua vida era baseada na oração e no trabalho.

Aos poucos cada mosteiro se converte num centro de vida econômica, industrial, religiosa e cultural. As originais cabanas de palha vão sendo substituídas por grandes construções e cada mosteiro, uns mais e outros menos, vai se transformando numa pequena cidade com Igreja, claustro, dormitórios e suas dependências com armazém, oficinas, hospital, escola e muito mais. Cada mosteiro passa a ter servos a seu serviço para complementar o trabalho dos monges.

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Como o mosteiro produzia de tudo para suprir as necessidades dos monges e da população que vivia nas suas proximidades, os monges passam a produzir não só o alimento, mas também a bebida necessária para o dia a dia como vinho, cerveja e licores.

Ainda hoje alguns mosteiros e abadias da Europa mantém essa tradição e para muitos deles a produção de bebidas selecionadas tornou-se também uma fonte de sustento. Nos tempos atuais vários mosteiros e abadias da Europa foram transformados em hospedarias.

A tradição saiu dos mosteiros entrando nos conventos religiosos. Várias ordens e congregações religiosas passaram a produzir sua própria bebida comercializando o excedente com as pessoas que frequentavam os conventos.

Na tradição da Igreja temos até um santo considerado o padroeiro dos cervejeiros.

O santo padroeiro dos cervejeiros

Reprodução
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Além do santo padroeiro dos cervejeiros,
a Igreja tem também um rito próprio, em latim, para abençoar a cerveja e São Arnulfo ou Arnolfo de Metz é considerado o padroeiro dos cervejeiros. Ele nasceu na Áustria, no ano de 580, em tempos que o país era muito bem famoso por elaborar cervejas de excelente qualidade. Desde pequeno se sentia chamado a seguir a Deus, e por isso, entrou num mosteiro beneditino, ainda muito jovem. Posteriormente foi nomeado abade e finalmente bispo de Metz, na França, aos 32 anos.

Tomar cerveja ou morrer

Quando era bispo de Metz chegou àquela região uma terrível peste que contaminou a água e muita gente acabou ficando doente ao consumi-la. Por essa razão, Santo Arnulfo ensinava seus fiéis a não consumir a água contaminada e em vez disso, beber cerveja. Hoje sabemos que ao ferver a água para a fabricação da cerveja ela ficava livre dos germes que produziam a enfermidade.

A multiplicação da cerveja. No ano de 627, Santo Arnulfo se retirou a um mosteiro perto de Remiremont, na França onde morreu e foi sepultado, em 640. No ano seguinte, os cidadãos de Metz pediram que seu corpo fosse exumado e levado a cidade para enterrá-lo na Igreja local. Enquanto levavam o corpo de volta, vários fiéis sentiram-se cansados, esgotados e pararam numa taberna para comprar cerveja. Ao entrar, descobriram com tristeza que só havia uma garrafa e tiveram que compartilhar. Surpreendentemente a garrafa nunca acabou e todos puderam beber a cerveja e matar sua sede.

O milagre foi atribuído a São Arnolfo e é em razão disso que a Igreja o considera o Santo padroeiro dos cervejeiros. Ele é venerado como santo na Igreja católica e na Igreja ortodoxa e sua festa é celebrada em 18 de julho.

Tradição redentorista

Os primeiros missionários redentoristas que vieram para o Brasil eram holandeses, chegados aqui em 1893 e alemães, chegados em 1894.

Nos conventos redentoristas em seus países de origem também havia a tradição de produção da cerveja. Ao passarem da Europa para o Brasil trouxeram consigo esse costume. Além do costume de se consumir a bebida como habito cultural, naquele tempo não havia a comercialização e a variedade de marcas e rótulos como temos hoje no mercado. Mas ao contrário do que pode parecer, o consumo do “precioso líquido” não era facultativo, havendo dias certos e até quantidade determinada para isso.

Algumas casas da Província de São Paulo tinham o maquinário necessário, chegando a fabricar a cerveja para o consumo interno. Uma dessas casas era o Convento Redentorista localizado na praça central da cidade de Aparecida.

Com a facilidade de se adquirir a cerveja no mercado, com a mudança das gerações e com a chegada das gerações de brasileiros que substituíram os bávaros alemães esse costume aos poucos foi se perdendo. As instalações onde se produzia a cerveja foram desmontadas restando apenas a casa que abrigava os equipamentos, localizada ao lado do Memorial Redentorista.

As fotos registram esse costume e essa tradição, inclusive, como registram as crônicas da comunidade redentorista, uma brincadeira que se fez em 1925 com o Pe. José Clemente, responsável pela cervejaria.

Para concluir, é bom lembrar que alguns católicos pensam que o consumo de cerveja e outras bebidas alcoólicas seja pecado. Sem embargo, a Igreja não vê problema no consumo moderado de álcool, sempre e, quando este se faça com responsabilidade e não ponha em risco a busca pela nossa santificação.

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Escrito por
Padre Inácio_3 (Juan Ribeiro / Rede Aparecida)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atuou na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo, atualmente é diretor da Rádio Aparecida

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