Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 02 JUL 2020 - 10H56

Santidade e sabedoria dos pais da Igreja

PÁGINAS DE HISTÓRIA DA IGREJA

HISTÓRIA ANTIGA 20

Com a liberdade que a Igreja recebeu a partir do século IV veio a oportunidade de se organizar, mas também ela passou a enfrentar um grande perigo, maior do que as perseguições: o seu controle por parte do imperador e do estado romano. Essa interferência política foi e será sempre um perigo para a fé, ameaçada por imperadores adulados por bispos e altas dignidades, sendo que alguns deles se mudarão para a corte.

Deste modo, até as decisões dos concílios sofrem rupturas de acordo com a vontade imperial. Por outro lado, positivamente se projeta a grande riqueza da Igreja nos séculos IV e V: grandes pastores, doutores na fé e santos defenderão a doutrina cristã sem medo, garantindo a unidade e a ortodoxia. Eles são conhecidos como Pais (Padres) da Igreja ou como os Santos Padres. A autoridade deles era tamanha no seio da Igreja que seus escritos são quase igualados aos textos das Sagradas Escrituras. Eles ajudaram a conservar a verdadeira doutrina, foram santos, foram sábios. Dividem-se em dois ramos, os latinos e os gregos, dependendo da língua utilizada.

Defensores da Fé do Povo

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Formados originalmente nas escolas de cultura pagã, colocaram sua sabedoria a serviço do Evangelho. Normalmente eram de famílias de origem cristãs, mas a maioria, pediu o batismo em idade adulta, o que era muito comum neste tempo. Após o exercício de uma profissão profana, formaram-se espiritualmente com os Pais do Deserto, aliando a sabedoria humana à santidade de vida e à contemplação. Retornando depois às suas cidades, foram ordenados sacerdotes, sendo depois candidatos naturais ao episcopado, oferecendo à Igreja uma quantidade nunca repetida de grandes bispos.

Como pastores zelosos, seus ensinamentos foram ministrados através da catequese e da pregação. O povo que os escutava também os compreendia. Não eram teólogos profissionais: eram santos teólogos. Vale para eles a máxima da sabedoria cristã oriental: Se sabes rezar, és teólogo; se és teólogo, sabes rezar.

Os teólogos da Corte se apressavam em justificar o imperador de plantão. Já os Santos Padres não aceitavam que nada e ninguém se opusesse à doutrina verdadeira e à unidade da Igreja. Em tempos favoráveis, chamavam o imperador de “santo”: mas bastava que ele se desviasse da reta doutrina para criticá-lo, chamando-o de satanás ou anticristo.

Mesmo possuidores de vasta cultura, jamais se afastaram do povo, vivendo junto à multidão dos pobres e humildes. Na mais pura imitação de Cristo, são pais dos pobres. Seus sermões contra os ricos e as riquezas são tão fortes e claros que ainda hoje causam espanto.

Luzeiros de sabedoria

Gregório de Nazianzo: Era um homem de Igreja, amado pelo povo e odiado pelos adversários heréticos ou pelos poderosos. Constantino disse que ele era insolente, orgulhoso, provocador de confusão. Para salvar a unidade da Igreja, não recuava diante de nada.

Atanásio foi vítima de chantagens, calúnias, mas soube sempre responder, conduzindo o povo a seu favor. Sua defesa da fé o fez sofrer 20 anos de exílio em 46 anos de episcopado.

Além desses, a Igreja tem em grande consideração os três Padres conhecidos como os Grandes Capadócios, por serem da região da Capadócia, localizada na atual Turquia: os dois irmãos, Basílio de Cesaréia e Gregório de Nissa, e Gregório de Nazianzo.

Leia MaisO renascimento e a arte de Rafael SanzioBasílio de Cesaréia, o maior dos Pais do Oriente, esperou muito tempo para pedir o batismo. Em busca do saber, peregrinou de escola em escola, frequentando os mestres de Constantinopla e de Atenas. Fundador da vida monástica oriental, teve imensa preocupação com os pobres. Percebeu a exploração dos humildes, pois em anos difíceis, os impostos e os dízimos eram cobrados com antecipação, criando verdadeiros escravos.

Suas palavras parecem escritas para os dias de hoje: “As exigências chegam ao cúmulo da desumanidade. Exploras o desespero, fazes dinheiro com lágrimas, estrangulas quem está nu, esmagas o faminto, foram ditas ao ver um pai vender um filho como escravo para escapar da miséria!”. Um prefeito, que não conseguia convencê-lo, lhe disse: “Até hoje ninguém ousou falar-me com tal liberdade”. Respondeu secamente: “Sem dúvida nunca encontraste um bispo!”.

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São João Crisóstomo

O pai de Gregório de Nazianzo era um herege. Com a oração da esposa converteu-se e até tornou-se bispo de Nazianzo, gerando Gregório, filho único depois batizado por ele. Gregório era muito sensível, mais propenso à poesia e à contemplação do que à administração. Foi eleito bispo de Sásima, mas se recusava a assumir um posto povoado de estrangeiros e de vagabundos.

Gregório diversas vezes fugiu, pois não queria administração. Quando o velho bispo pai morreu, fugiu mais uma vez. Mas, sua fama persistia e acabou levando-o à escolha como patriarca de Constantinopla, onde adquiriu fama como o bispo da Trindade. Nas vezes em que novamente quis fugir, o povo dizia: “Então nos deixarás sem a Trindade?”.

Gregório, durante o concílio de Constantinopla (451), não aguentou mais as discussões em que os mais jovens tagarelavam como um bando de papagaios. Preferindo pregar a Trindade a ficar discutindo, fugiu, fixando-se na diocese de seu pai, que administrou por algum tempo, dedicando-se mais à vida literária e contemplativa.

São João Crisóstomo. Nascido em Antioquia (Crisóstomo = boca de ouro) nasceu para ser monge e pregador, e nunca para ser administrador ou político. Orador nato conhece todos os recursos para convencer e atrair os ouvintes, especialmente atraindo os humildes, objeto de sua atenção. Denuncia o luxo, a riqueza, a preguiça.

A fama de orador fez chegar seu nome à capital do Império e em 397, contra sua vontade, foi praticamente sequestrado e feito patriarca de Constantinopla. Seu primeiro ato foi limpar do luxo o palácio episcopal. Passou a comer sozinho e não aceitava recepções.

Ele continuou sendo monge e, denunciando os abusos da corte e dos bispos, se indispunha com todos, especialmente com a imperatriz Eudóxia que, para provocá-lo, fez erguer uma imagem própria diante da catedral...

Mas continuou a denunciar a imperatriz e na celebração pascal foi detido e exilado em uma pequena aldeia da Armênia, onde morreu em 407, proferindo suas últimas palavras: “Glória a Deus por tudo”. É o mais amado dos Padres orientais, sendo a liturgia ortodoxa denominada “Divina Liturgia de São João Crisóstomo”.

A Santíssima Trindade, a Bíblia, Maria e a justiça social. Os Pais do Oriente eram movidos pelo desejo de contemplar a Deus e esclarecer seu grande mistério. Saídos do deserto, eram monges em meio ao tumulto da cidade dos homens. O amor a Deus fê-los possuir uma imensa compaixão pelos pobres, criando obras para socorrer os famintos e abandonados.

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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