Por Pe. Leo Pessini Em Igreja Atualizada em 14 MAI 2019 - 16H13

Cristianismo e budismo: semelhanças, diferenças e originalidades (II)

Neste artigo, vamos conhecer melhor algumas semelhanças entre Jesus e Buda, para ajudar-nos a entender melhor este mundo de valores cuja história se inicia nos séculos V e VI a.C., com a pregação de Sidharta Gautama, popularmente chamado de Buda.

Tanto Jesus como Gautama, em sua pregação, não se utilizam de uma língua sacra, mas sim da língua vulgar, ou seja, da linguagem do povo. Jesus usa o aramaico do povo judeu e Buda o dialeto indo-ariano. Ambos não codificaram e nem mesmo chegaram a lançar por escrito sua doutrina.

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Seus ensinamentos foram escritos de memória pelos seus discípulos, após suas respectivas mortes. Expõem seus valores utilizando provérbios, narrativas breves e parábolas simples, que todos entendem, tiradas da vida cotidiana acessíveis a todos, sem se prenderem a fórmulas ou dogmas.

Ambos se opõem à tradição religiosa e seus guardiões, à casta ritualista dos sacerdotes e doutores da lei, que são insensíveis com os sofrimentos do povo.

Ambos reúnem amigos, um círculo de discípulos e um grupo maior de seguidores em torno de si.

:: Cristianismo e budismo: semelhanças, diferenças e originalidades (I)

Para além destas semelhanças em suas condutas, temos também semelhanças em sua pregação. Eis algumas:

Ambos:

- Apresentam-se como mestres. A autoridade não vem de sua formação escolar ou acadêmica, mas sim da experiência extraordinária de uma realidade completamente diferente.

- Apresentam uma mensagem de alegria (o Dharma e o Evangelho), que exige das pessoas uma mudança de atitude (metanóia – “andar contra a corrente”) e uma confiança (shraddha – fé). Não se trata de uma ortodoxia, mas sim de uma ortopraxia.

- Partem da condição provisória e efêmera do mundo, do caráter transitório de todas as coisas e da não-redenção do homem. Tudo isso se evidencia na cegueira e na loucura, na situação caótica, no envolvimento com o mundo e na falta de amor para com os semelhantes.

- Não pretendem dar uma explicação do mundo, pôr em prática especulações filosóficas profundas ou uma casuística legal erudita.

- Apontam um caminho de libertação do egoísmo, da dependência do mundo, da cegueira. Isto se consegue não por uma especulação teórica nem pelo raciocínio filosófico, mas sim por uma experiência religiosa e por uma transformação interior.

- Para se chegar à salvação, ambos não exigem condições especiais de caráter intelectual, moral ou ideológico. Basta que o ser humano ouça, entenda, e daí tire suas conclusões. Ninguém é interrogado sobre sua fé, nem se exige nenhuma declaração de ortodoxia.

- O caminho é o do meio-termo entre o hedonismo e o ascetismo. Um caminho que permite que o ser humano se volte para o próximo com uma nova atitude de acolhimento. Para além dos mandamentos, que se correspondem amplamente em ambos, temos as exigências básicas de bondade e de alegria compartilhada, de compaixão amorosa (Buda) e de amor compassivo e samaritano (Jesus).

Desde seu início, o Budismo, que rejeita um deus criador todo-poderoso, se uniu em parte à religião popular e aos seus deuses, como à religião mago-xamanista oriunda do Tibete e ao tantrismo indiano. Os poderosos deuses da natureza, das montanhas, da tempestade e do granizo sempre precisam ser aplacados com invocações e dádivas. Os templos budistas muitas vezes são defendidos por dragões e serpentes, que no Oriente são venerados como seres sobrenaturais e benfazejos. Muitos estudiosos dizem que o budismo, na sua essência, trata-se fundamentalmente de uma disciplina moral de vida, antes de ser uma religião.

Segundo Hans Kung, a contribuição original do budismo para uma ética mundial seria a de que a pessoa sempre é desafiada a crescer e se auto-superar. Cada um tem que percorrer, por si próprio, o seu caminho. O que importa - e que também é decisivo - é esquecer o 'eu', exercitar-se na abnegação, renúncia e suscitar benevolência, em vez de rejeição e exclusão; compaixão, em vez de indiferença e insensibilidade; abertura e acolhida, em vez de inveja e ciúme; equilíbrio e segurança, em lugar de sede de poder, sucesso e prestígio.

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Japão, China e Índia, encontram-se num profundo processo de transição para uma nova realidade. Nesta transição, é necessário que não sejam abandonadas as grandes conquistas da era moderna, mas superadas as limitações e suas desumanidades. Tal transição, que garanta um futuro para a humanidade nesta parte oriental do globo, tem de, obrigatoriamente, levar consigo como exigência não apenas ciência, mas também sabedoria, para evitar os abusos da pesquisa científica que transformam o ser humano em cobaia; não apenas tecnologia, mas também energia espiritual, para controlar os riscos imprevisíveis de uma tecnologia de alta eficiência; não apenas indústria, mas também respeito pela natureza e ecologianão apenas democracia, mas também uma ética que seja capaz de enfrentar os interesses das pessoas e grupos que estão no poder.

Num mundo sempre mais globalizado, temos pela frente como desafio fundamental elaborar uma ética de cunho global e mundial.  

 assinatura padre leo pessini

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal (Arquivo Pessoal)
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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