Por Pe. Leo Pessini Em Igreja

Em torno do conceito ético de “Mistanásia” (II)

“A bioética se não for crítica, pode tornar-se apologética ou ideológica”

                                                                                             Bruce Jennings, Editor Chefe da Enciclopédia (4ª. Ed., 2014)

O conceito de mistanásia vem preencher uma lacuna sentida no habitual trio de conceitos, eutanásia, distanásia e ortotanásia, que marcam a reflexão bioética contemporânea. Na literatura bioética até recentemente, para se falar de morte social, causada pela pobreza, violência e desigualdade, utilizava-se o termo “eutanásia social”. Na verdade, se formos ver pela etimologia da palavra, o sentido deste vocábulo seria uma morte em paz sem dor ou sofrimento, em nível social.

eutanasia

É exatamente o contrário que ocorre em nível social. Aqui o despedir-se da vida é marcado pelo sofrimento, abandono, indiferença e violência, entre outros elementos degradantes que violentam a dignidade do ser humano. Não tem nada de “boa morte”, trata-se de uma “morte infeliz”, considerando-se o neologismo de origem grega. É a vida banalizada, “abreviada antes do tempo”, em nível social.

Não se trata da “Morte de alguém” apenas, mas da “morte de muitos”, que antes de sua morte física, praticamente já estão “mortos socialmente”, numa sociedade que descarta as pessoas, principalmente as mais vulneráveis socialmente falando, como descarta coisas imprestáveis.

O morrer infeliz nos remete ao viver infeliz, perante o qual todos nós temos que alimentar um compromisso de vida, para além de uma reflexão intelectual filosoficamente muito bem articulada. Estamos cansados dos que somente falam de ética, mas não a vivem integrando-a como um valor de vida no dia a dia do trabalho e convivência familiar, comunitária e social.

Por que hoje nos rebelamos tanto contra a corrupção? Por que os valores fundamentais relacionados com a pratica da justiça foram violados! A honestidade não pode ser uma virtude que ficou arquivada tão somente na memória dos estudos filosóficos, ou então mera retórica romântica para ganhar adeptos!

Ele tem que ser um valor que seja compreendido e vivenciado no dia a dia de nossas vidas. Nesse sentido emerge a necessidade de cultivarmos uma bioética vivencial, na discussão que apresente bioética como substantivo e/ou adjetivo. Estamos diante de uma proposta de bioética crítica, como afirma Bruce Jennings, na epígrafe desta reflexão, ela corre o risco de se tornar “apologética ou ideológica”.

Enfim, pensamos que a reflexão bioética contemporânea, particularmente a latino-americana e brasileira, ao cunhar este novo neologismo, “mistanasia”, nos oferecer um precioso instrumento para uma melhor compreensão das questões éticas de final de vida. Somos desafiados a olharmos para as condições contextuais hostis que transformam as vidas das pessoas, num verdadeiro inferno de sofrimento, “abreviando-as antes do tempo” em âmbito social.  

Perante estas mortes temos que cultivar uma santa indignação e sermos contra. Outra coisa bem diferente é daquela atitude que precisamos cultivar, de abraçarmos nossa condição humana, na sua finitude e mortalidade, dimensões constitutivas de nosso ser.  Aqui necessitamos de sabedoria, para além do conhecimento.

:: Leia também: Sobre o conceito ético de ‘Mistanásia’

assinatura padre leo pessini

 

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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