Por Eduardo Gois Em Igreja Atualizada em 14 NOV 2017 - 13H32

"Não devemos entrar nessa onda do retrocesso", diz Dom Orlando sobre racismo


Thiago Leon
Thiago Leon

Em tempos de tanta intolerância e manifestações lamentáveis de racismo na internet, no futebol e em diversos outros lugares, a Arquidiocese de Aparecida quer unir forças e iniciar uma Pastoral Afro. A iniciativa é do próprio Arcebispo, Dom Orlando Brandes, que também já montou pastorais da mesma natureza em outros lugares onde foi bispo, Londrina (PR) e Joinville (SC).

“Estamos iniciando e vendo a alegria do povo ao entender o que é uma pastoral, pois não é só reunir pessoas da mesma cor, mas é o entrosamento de brancos e negros de diversas culturas, isso é a pastoral. A intenção também não é de segregar na pastoral os nossos afros, pelo contrário, vamos fazer comunhão”, comenta o Arcebispo.

Ele cita importantes motivos para se ter uma pastoral afro: “ Em primeiro lugar, porque o Brasil é o maior país afro fora da África, depois, outra razão é o segundo milagre aqui realizado por Nossa Senhora Aparecida que libertou um escravo. “É praticamente uma ordem da Mãe Aparecida que quer todos libertos das escravidões e principalmente da escravidão do racismo, pois ainda não foi superada. Precisamos oferecer aos nossos irmãos e irmãs afros quase que uma redenção dos nossos pecados do passado e incentivar cada vez mais o direito, a igualdade e a dignidade de todos”.

Segundo Dom Orlando outra razão muito forte é a devoção na cidade de Aparecida (SP) por São Benedito, um santo negro, que traz muitos movimentos afros para o município. A Festa de São Benedito é uma das maiores da região.

De acordo com o Arcebispo, aqui deve surgir uma pastoral iluminada pelos documentos da Igreja, até porque o documento de Aparecida faz muitas referências a pastoral afro. “Necessita-se buscar igualdade, dignidade, superar preconceitos, porque tudo isso ainda é um longo caminho a percorrer”, comenta Dom Orlando.

Como ponta pé inicial, a Arquidiocese já prepara e motiva os fiéis da região. O primeiro passo dado é o terço afro que já acontece na igreja de São Benedito, posteriormente terão início as missas afro e no futuro a instalação da pastoral. “Vamos então dando passos, na esperança de um dia fazermos uma grande romaria afro da nossa arquidiocese e assim vamos aprendendo os valores que os nossos afros trouxeram para a nossa cultura, por exemplo, como o dom da alegria, o dom da resistência diante de tanto sofrimento, também uma cultura religiosa muito profunda, e um grande respeito pelos antepassados”, exemplifica.

Momento delicado

Leia MaisBate-papo com o bispo referencial para Pastoral Afro-BrasileiraPara Dom Orlando, de fato está havendo um silencio profético na Igreja quando o assunto é o racismo. Na opinião do Arcebispo é necessário um maior fôlego. “Vê-se o racismo no futebol, na escola, nas universidades, piadas e também se vê que os afros ainda não têm muitas oportunidades. Isso é um sinal de que estamos regredindo. Porém é verdade que alguns países, como os Estados Unidos, o racismo é ainda muito grande e aumentou com as migrações, mas a gente não deve esquecer que a Sagrada Família foi migrante para África, pois o Egito é na África. Deve-se acolher os irmãos afros e não devemos entrar nessa onda do retrocesso em relação a dignidade humana e o respeito pela vida, principalmente nós que pelo batismo recebemos a condecoração e a grande elevação de filhos e filhas de Deus. Nós batizados temos uma razão a mais para respeitar o outro”.

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