O Papa Leão XIV autorizou o reconhecimento das virtudes heroicas de seis Servos de Deus, que passam a receber o título de veneráveis. Entre eles estão dois bispos missionários que dedicaram suas vidas à evangelização na Índia e no Peru.
A decisão foi anunciada após a audiência concedida ao Cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, no último sábado (24).
Além dos bispos Friedrich Kaiser Depel e Oreste Marengo, a lista inclui Margarita Bavosi, leiga consagrada do Movimento dos Focolares; Domenico Pogliani e Alessandro Vitetti, sacerdotes italianos; e Daniele de San Giovanni Rotondo, frade capuchinho e filho espiritual de São Pio de Pietrelcina.
O reconhecimento das virtudes heroicas representa uma etapa no processo de canonização. A declaração de venerabilidade reconhece que a pessoa viveu as virtudes cristãs de maneira considerada heroica pela Igreja. Para a beatificação, em regra, é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão.
Friedrich Kaiser Depel nasceu em 24 de maio de 1903, em Dülmen, na Alemanha. Criado em uma família católica, ingressou no seminário da Congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus em 1919. Foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1932.
Em abril de 1939, partiu para o Peru, onde a congregação havia iniciado uma nova missão. No país, trabalhou como diretor espiritual e professor no Seminário de Huánuco. Depois, assumiu as funções de reitor e pároco da capela ligada à comunidade missionária.
Em 1957, tornou-se administrador provincial dos Missionários do Sagrado Coração. No mesmo ano, em 21 de novembro, o Papa Pio XII o nomeou primeiro prelado de Caravelí.
Após o terremoto que atingiu a região em 1960, Kaiser Depel trabalhou para garantir o abastecimento de água à população e reconstruir a catedral. Em 1961, fundou a Pia União das Missionárias de Jesus Verbo e Vítima. A iniciativa reuniu jovens religiosas locais para ampliar a ação evangelizadora e responder à escassez de sacerdotes nos Andes.
O religioso participou das quatro sessões do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965. Em 7 de dezembro de 1963, recebeu a ordenação episcopal.
Por motivos de saúde, renunciou à prelazia em 25 de maio de 1971. A partir de então, dedicou-se à formação teológica e espiritual das missionárias. Em 1982, a congregação fundada por ele foi elevada por São João Paulo II à condição de instituto de direito pontifício.
Kaiser Depel morreu em Lima, em 26 de setembro de 1993. Seu trabalho de difusão da Sagrada Escritura no país lhe rendeu o reconhecimento como “o pioneiro da Bíblia no Peru”.
Oreste Marengo nasceu em 29 de agosto de 1906, em Diano d’Alba, na Itália, em uma família de camponeses. Aos 13 anos, mudou-se para Turim para iniciar sua formação salesiana, na congregação fundada por São João Bosco.
Em 1923, partiu para o nordeste da Índia com outros oito noviços. Durante a formação, conciliou os estudos filosóficos com o trabalho nas aldeias. Também preparou catecúmenos e acompanhou as primeiras comunidades católicas da região.
Ordenado sacerdote em 2 de abril de 1932, Marengo foi nomeado primeiro bispo da Diocese de Dibrugarh em 1951. Recebeu a ordenação episcopal em 27 de dezembro daquele ano, na Basílica de Maria Auxiliadora, em Turim. Permaneceu à frente da diocese até 1964.
Posteriormente, assumiu a Diocese de Tezpur e, mais tarde, tornou-se administrador apostólico de Tura.
Ao longo do ministério, fundou centros missionários e auxiliou pessoas que fugiam do Paquistão durante o conflito com a Índia. Diante da falta de sacerdotes, também acolheu presbíteros de outras regiões indianas, como Kerala.
Aos 70 anos, deixou o cargo de administrador apostólico e passou a colaborar diretamente com os sacerdotes locais. Marengo incentivou as vocações sacerdotais e valorizou a participação dos leigos na evangelização.
Morreu em 30 de julho de 1998, após enfrentar diversas internações hospitalares. Sua relação com a população local ganhou destaque em um contexto no qual pessoas consideradas estrangeiras podiam enfrentar desconfiança e rejeição.
Margarita Bavosi nasceu em 19 de setembro de 1941, em Buenos Aires, na Argentina, em uma família de imigrantes italianos. Aos 10 anos, perdeu a mãe. Depois de concluir a formação em História, decidiu colocar Deus no centro de sua vida.
Sua vocação se desenvolveu no Movimento dos Focolares, onde conheceu o carisma da unidade diretamente com a fundadora, Chiara Lubich. Por seu temperamento espontâneo e otimista, recebeu o apelido de “Luminosa”.
Em maio de 1966, assumiu a responsabilidade pelo Movimento no Paraná, na Argentina. Quatro anos depois, Lubich confiou a ela a corresponsabilidade pela Obra na Espanha. Mais tarde, Bavosi também atuou em Montevidéu, no Uruguai.
Em junho de 1981, recebeu o diagnóstico de uma fibrose pulmonar atípica, doença que levou à sua morte em 7 de março de 1985, aos 43 anos.
Ao recordar sua trajetória, Chiara Lubich destacou a maneira como Bavosi viveu a espiritualidade do Movimento dos Focolares.
“Sua vida, imbuída do amor evangélico vivido no presente, no momento presente, foi uma corrida veloz em direção a Deus”.
Domenico Pogliani nasceu em 18 de dezembro de 1838, em Milão, na Itália. Sua formação espiritual foi marcada pelo Oratório de São Luís. Recebeu a ordenação sacerdotal em 26 de maio de 1861.
Durante o ministério, trabalhou em Rosate, Lecco e Trenno. Depois, foi designado para a catedral de Milão, onde atuou como coadjutor da paróquia anexa.
Mais tarde, tornou-se pároco em Cesano Boscone. Com o apoio de uma benfeitora, promoveu a abertura de uma creche para crianças e de um oratório feminino.
Pogliani também fundou uma instituição de assistência social. Com o início da Primeira Guerra Mundial, o local passou a acolher 400 pessoas. A estrutura incluía uma ala destinada a jovens com deficiência intelectual e diferentes oficinas.
O sacerdote morreu em 25 de julho de 1921. Após sua morte, seu túmulo tornou-se um local de oração para os fiéis.
Alessandro Vitetti nasceu em 12 de outubro de 1915, em Cirò, na província italiana de Crotone. Foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1940 e exerceu seu ministério na Diocese de Cariati.
Na Igreja local, atuou como cônego da catedral e professor do seminário. Durante a Segunda Guerra Mundial, permaneceu na Calábria e se destacou pela atenção às pessoas em situação de necessidade.
Ao longo da vida sacerdotal, desempenhou diversas funções na diocese. Foi chanceler da Cúria, diretor do Escritório Administrativo, assistente da juventude feminina e dos graduados católicos. Também trabalhou na área missionária e atuou como defensor do vínculo no Tribunal Diocesano.
Vitetti foi um dos colaboradores mais próximos do bispo Orazio Semeraro, a quem acompanhou a Roma durante o Concílio Vaticano II.
Em 1964, ingressou no Instituto Secular dos Sacerdotes Missionários da Reinacidade de Cristo, fundado pelo padre Agostino Gemelli, e emitiu os votos previstos pela instituição.
Procurado para confissões e acompanhamento espiritual, tornou-se uma referência também para fiéis de outras regiões da Itália.
Nos últimos anos de vida, enfrentou as consequências do diabetes, que o deixou cego e imobilizado. Apesar das limitações, manteve sua confiança em Deus. Sua atitude foi resumida na frase: “Não vejo, não ouço, mas creio”. Vitetti morreu em Cariati, em 24 de fevereiro de 1995.
Daniele de San Giovanni Rotondo, nome religioso de Michele Natale, nasceu em 11 de março de 1919, na cidade italiana de San Giovanni Rotondo. Desde criança, trabalhou como pastor de ovelhas e era conhecido pelo temperamento alegre.
Aos 14 anos, decidiu ingressar na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Sua vocação foi fortalecida pelo encontro com São Pio de Pietrelcina, em 4 de junho de 1933. Na ocasião, o santo o abençoou e lhe dirigiu palavras de encorajamento.
Em 1934, Daniele foi transferido para o convento de Santa Ana, em Foggia, onde trabalhou como sacristão e porteiro. No ano seguinte, entrou no noviciado de Morcone e adotou o nome de Frei Daniele.
Ele escolheu permanecer como frade leigo. Fez a profissão temporária em 1936 e a profissão perpétua em 12 de maio de 1940. Nesse período, aprofundou sua relação espiritual com Padre Pio.
Durante os bombardeios de 1943, voltou-se ao socorro dos feridos e ao sepultamento dos mortos. A partir de 1952, passou a enfrentar diversas doenças, que exigiram frequentes internações hospitalares.
Mesmo com as limitações físicas, manteve a dedicação à vida espiritual. Após a morte de Padre Pio, trabalhou para difundir grupos de oração na Itália e no exterior, reunindo numerosos fiéis. Frei Daniele morreu em 6 de julho de 1994.
Com a autorização dos decretos, os seis religiosos e leigos passam a ser reconhecidos pela Igreja como veneráveis. Essa etapa destaca a vivência das virtudes cristãs em grau heroico e integra o caminho oficial rumo à canonização.
O título de venerável, porém, não equivale à beatificação ou à canonização. Em regra, a beatificação exige o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do candidato, enquanto a canonização é a etapa pela qual a Igreja o declara santo.
A Canonização é garantia do “Estado de Graça”?
Fonte: Vatican News
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