Por Pe. Leo Pessini Em Igreja

Reencantar-se com a arte de cuidar: Um imperativo ético emergente e urgente!

Vivemos hoje uma verdadeira “crise de humanização” cujos sintomas mais evidentes se manifestam sob o descuido, descaso, indiferença e abandono da vida mais vulnerável que clamam aos céus. Para citar apenas alguns exemplos: encontramo-nos com crianças famintas perambulando nos cruzamentos de nossas cidades, aumento do número dos excluídos das benesses do progresso, descaso para com os idosos, utilitarismo depredatório em relação ao meio ambiente e instituições de saúde tecnicamente impecáveis, equipadas com tecnologias de última geração, mas infelizmente frias, sem calor e alma humana!

 Idoso Cuidados  Paliativos mãos - Foto: shutterstock
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Felizmente estamos começando a ter exemplos e testemunhos de sensibilidade e solidariedade em relação à vida humana vulnerabilizada pela doença e sofrimento que nos deixam esperançosos ao nos apontar que a essência da vida é o cuidado. Desde o nível pessoal até o cósmico ecológico ( “o cuidado da nossa casa comum”), a garantia de vida digna e de existência no futuro hoje passa pelo grito ético da necessidade do cuidado. O grande desafio para todos os profissionais que trabalham no âmbito da saúde hoje, para além da competência tecnocientífica, é também ser capaz de vivenciar competência humano e ética, que se traduz no cuidado respeitoso.

Mas o que entender por cuidado? Etimologicamente a expressão terapêutica deriva do grego therapéuo, que significa ”eu cuido”. Na Grécia antiga, “o thérapeuter” era aquele que se colocava junto a quem sofria, que compartilhava da experiência da doença do doente para poder compreendê-la, e então mobilizar seu conhecimento e sua arte de cuidar, sem saber se poderia realmente curar. Para compreender a doença, ele se interessava pela totalidade de vida do doente, inclinando-se para ouvi-lo e examiná-lo. Essa inclinação (klinos, em grego, termo do qual deriva a palavra “clínica”) significava também uma reverência e respeito ante o sofrimento do doente.

Cuidar sempre é possível, mesmo quando cura não é mais possível. Sim, deparamo-nos com doentes ditos “incuráveis”, mas que nunca são, e nunca deveriam deixar de ser “cuidáveis”. Cuidar mais que um ato isolado, é uma atitude constante de ocupação, preocupação e ternura com o semelhante, que sabe unir competência técnico-científica, com humanismo e ternura humana.

 Nas palavras de um paciente, partilhamos a reflexão de um amigo camiliano, Tom O´Connor, sobre o que significa a experiência de cuidar.

Cuidar é quando você:

- Se aproxima de mim, mesmo sabendo que não pode atender meu mais profundo desejo, isto é, minha cura;

- Visita-me, mesmo sabendo o que todos sabemos, que estou me despedindo da vida;

-Continua a me ver, mesmo sendo um dos representantes de uma das profissões que falharam em me curar e porque acredita em mim, tenha ou não cura a doença;

- Perde tempo comigo, embora eu esteja numa situação tão frágil e incapaz de dar algo em troca. Não posso nem dizer “obrigado” com elegância;

- Faz-me sentir como alguém especial, embora eu seja como todos os outros pacientes;

- Não me vê apenas como um caso perdido, mas como alguém e assim me ajuda em me concentrar no viver.

- Relembra pequenas coisas minhas, se interessa pelo meu passado, meu futuro e minha família;

- Diz “boa noite” que não significa “adeus”, mas me dá a certeza de que você estará de volta ao amanhecer;

- Não se concentra no meu “mau humor”, mas sim em mim, como pessoa.

- Aproxima-se de mim sem ares de profissionalismo insensível, mas como pessoa humana sensível que todos somos.

- Ouço minha família falar bem de você e se sente confortada na sua presença e você faz-me sentir seguro em suas mãos.

O cuidado autêntico e respeitoso, na verdade não é outra coisa senão um verdadeiro testemunho do respeito amoroso por mim!

O descuido e a indiferença facilmente nos animalizam, mas o cuidado nos resgata como humanos e nos humaniza. Isto é sentido principalmente nos momentos de vulnerabilidade máxima, que são basicamente em dois momentos chaves de nossas vidas, ou seja, quando passamos a existir e fazer parte do grande show da vida (nascimento) bem como o momento quando, depois de muito viver, somos silenciosamente convidados a sair de cena (despedida da vida).

Enfim, somente o cuidado respeitoso nos remete à construção de pontes de comunhão e comunicação, que se eleva para uma dimensão de sentido e transcendência da vida, em que descobrimos que não somente passamos pela vida, mas deixamos um legado de sentido e valores para as gerações futuras, de que valeu apena viver! Acreditamos que este é o milagre do cuidado, como atitude de vida! Portanto, cuidemo-nos, cuidando dos outros!

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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