Por João Antônio Johas Em Igreja

Trabalhadores do campo carregam valores já esquecidos

Em 1891 a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, afirmava: “não há ninguém entre os mortais que não se alimente do produto dos campos”. Essa carta reconhecida como o pontapé inicial da Doutrina Social da Igreja versa sobre a condição dos operários, homens que muitas vezes saíram dos campos para buscar uma vida melhor na cidade por conta da revolução industrial. Se conseguiram ou não seu sonho, ou todos os maus-tratos que sofreram trabalhando em duras condições nas fábricas não é o objeto desse breve texto. Antes, gostaria de refletir um pouco sobre a riqueza que o contato com o campo, com o trabalho rural, traz para a vida do homem e algumas consequências da perda desse contato.

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O termo cultura é objeto de muitíssimas reflexões. Mas o homem do campo sabe muito bem da sua origem. Quando ele cultiva alguma coisa, ele sabe que ele contribui com uma parte e que a natureza também contribui com uma outra parte. Isso é muito profundo! E muito esquecido nos dias atuais. Hoje predomina um pensamento sem raízes, uma vida sem história, costumes desligados das tradições de cada povo. Tudo parece imediato, instantâneo. Todas as técnicas parecem pretender manipular a realidade de tal forma que se passa por cima dela, de suas leis internas.

Mas o homem do campo sabe mais. Quando trabalha com o suor da sua frente para plantar em sua terra, ele não mede esforços para fazer tudo da melhor maneira possível. Mas ele não pretende que de uma semente de melancia nasçam laranjas. Ele também respeita os tempos, as estações. Para que lançar a semente em tempo de seca? Sem ouvir a parábola do semeador, ele conhece todo tipo de solo e só planta naquele que sabe poder dar muitos frutos. Quando a mudinha começa a crescer, o camponês cuida dela de forma especial, porque sabe de sua fragilidade. Se aparece alguma praga, a combate porque conhece o dano que pode fazer se não agir.

Leia MaisDom Enemésio fala sobre o massacre de trabalhadores rurais de Colniza (MT)Mensagem da CNBB aos trabalhadores (as) do Brasil: ‘Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas’O homem da cidade também sabe muita coisa. Mas corre o risco de perder de vista, ao fazer cultura, o dinamismo próprio da realidade. Em outras palavras, parece querer que saiam laranjas de sementes de melancia. Pior ainda, quer laranjas sem semente nenhuma, e se elas puderem aparecer direto no seu refrigerador em forma de suco, melhor ainda. Não se importa com mudinhas ou com pragas. Só liga para os defeitos técnicos que atrapalham a aparição mágica do suco de laranja.

Talvez nessa transição do campo para a cidade, perdemos um contato com a realidade que hoje faz muita falta. No campo sabíamos que cooperamos com a realidade, com a natureza. Na cidade, muitas vezes, lutamos contra ela. Não é questão de demonizar as cidades e as técnicas, não se trata disso tampouco. No dia em que lembramos da luta dos trabalhadores rurais, se trata simplesmente de lembrar dessa riqueza que eles possuem e que se faz tão necessária hoje em dia.

Não será essa uma luta importante de ser reconhecida? Que o trabalho rural nos devolva à realidade. Hoje se acusa muito o mundo de ser materialista. Mas o homem da cidade parece que é mais do que materialista, porque se coloca por cima do material, querendo manipulá-lo de qualquer forma. Pelo contrário, eu acredito que o verdadeiro materialista (E o digo de forma sumamente positiva) é o trabalhador do campo, que respeita a realidade, que reconhece os dinamismos próprios da cultura e coopera com eles. Essa forma de materialismo nos abre para Deus, e por isso é tão importante que aqueles que ainda vivam isso, não se separem dessa riqueza e que a passem para o maior numero de pessoas possível.

Escrito por
Irmão João Antônio Johas (Redação A12.com)
João Antônio Johas

Licenciando em Filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis, Pós-graduando em Antropologia Cristã pela Universidade Católica San Pablo em Arequipa, Peru.

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